Eu dei um pontapé na tradição! Sou de hoje (*)


por Isa Leal



São Paulo comemorou, de 23 a 28 deste mês (n.e. setembro de 1957), a Semana Villa-Lobos. E ali estava o próprio Mestre, na manhã de quinta-feira, no auditório da Rádio Gazeta, falando para uma plateia jovem e estusiástica. Na verdade, bem se sente que é entre os jovens que o grande compositor está à vontade. Eles o compreendem melhor porque sua arte, segundo suas próprias palavras, é terrivelmente revolucionária: “Eu dei um pontapé na tradição! Eu sou de hoje!”.

E, num entusiasmo quase comovedor, exclama, sacudindo apaixonadamente a cabeleira: “Por que é que só a música não pode evoluir?”.

Mas não era preciso convencer ninguém. Os jovens, que lá estavam em grande maioria, além de amarem a música do Mestre e de a compreenderem, são também de hoje… Perfeita unidade de vistas, de sentimentos, de finalidades. Um jovem de setenta entre jovens de vinte – eis tudo.

Ao entrar no auditório, o compositor conquista uma plateia já sua admiradora. Dirige-se a jovens que estudam jornalismo, dá-lhes conselhos, paternalmente. Invoca, de início, para fazê-lo, uma experiência interessantíssima e pouco divulgada: “Eu já fui jornalista. Os meus historiadores não sabiam disto, mas já fui, aí por volta de 1917. Fiz uma polêmica entre Villa-Lobos e Epaminondas Vilalba Filho". E, risonho, maroto: "Epaminondas Vilalba era eu mesmo…”.

Comenta um fato que considera incontestável: “A música é uma necessidade fisiológica. Aliás, foi este o motivo da polêmica”. E, ainda mais brejeiro: “Quem ganhou a polêmica foi o Epaminondas Vilalba”…

Pouca gente saberá que depois de ter feito pesquisas conscienciosas sobre folclore, publicou o resultado deste trabalho no jornal “O País”, demonstrando as coincidências curiosíssimas encontradas entre analfabetos, cuja música revelava características aproximadas das de Mozart ou de Chopin. Estas descobertas melódicas, harmônicas e contrapontistas tão estranhas foram transcritas pelo então jornalista Villa-Lobos.

Valia bem por uma aula de jornalismo, a palestra em tom amigável, quase íntimo, do Mestre com os jovens: "Façam este bem à humanidade!". Como um “leit-motiv”, voltou muitas vezes a repetir este tema. Qual o bem que exige o Mestre que faça aos seus semelhantes um jornalista? Simplesmente, o de ter discernimento, o de escrever, conscientemente, apenas sobre aquilo que estudou, de que pode falar com conhecimento de causa. “Por favor, não façam confusão no espírito do povo!...”

O conferencista preconiza, então, a criação de um curso sobre musicologia; não uma especialização demasiada erudita, mas apenas os conhecimentos básicos indispensáveis para que cada jornalista faça justiça, em críticas ou em simples comentários ou noticiários. O Mestre tem carradas de razão, e deverá saber ao certo o perigo da ignorância pretensiosa…
A certa altura, diz ele: “O maior nacionalista não incluiria uma samba como folclore. Folclore é o povo, espontâneo". (Neste ponto, imita um cantador de samba, batendo caixa de fósforo, e sua mímica, como em todos os momentos, é de uma riqueza assombrosa de expressões.) "Folclore é ciência que estuda as razões de ser da alma humana." Volta mais uma vez ao seu “leit-motiv”: Discernimento é saber o que é folclore e o que é popular…”

Mas não perde, ainda uma vez, o sentido humorístico, comentando à margem: “Eu gosto de tudo! Gosto de qualquer música, como um guloso gosta de qualquer doce!"

Termina esta parte com um laivo de lúcida melancolia, advertindo: “No Brasil não há público para a arte. Há apenas, uma elite muito voluntária”. Depois, num arrebatamento: E há esta mocidade!” Num gesto largo, mostra os que escutam avidamente.

Nós, porém, tivemos outro laivo de melancolia: no auditório da Rádio Gazeta não caberia certamente o público admirador do Mestre, se houvesse preocupação verdadeira com a cultura do povo, e sobretudo da juventude. O próprio Mestre nos apontaria o caminho a seguir, logo depois.

“A Música entra pelos ouvidos, vai ao coração… e lá fica!”

Tínhamos ido assistir à aula com a intenção de indagar do compositor qual o caminho a seguir, no Brasil, para que se eleve realmente, através do rádio, a cultura musical. Sem que o interrogássemos, ele nos respondeu: “Estou me batendo na Rádio Nacional pela criação de bandas. O hábito das bandinhas como outrora, poderá ir criando aos poucos uma consciência musical. Houve uma experiência muito interessante: certo chefe de orquestra apresentou em cinco anos seguidos, em temporadas, gradativamente, desde música popular até música erudita. No quinto ano voltou a tocar, para o mesmo público, as músicas do primerio ano. O conjunto foi vaiado… Já se tinha criado uma consciëncia musical”.

E sugere esta coisa tão simples – a divulgação de gravações de primeira qualidade, intensivamente.

Antes de terminada a conferência, surpreendemo-nos a pensar numa frase que Musset escreveu (a respeito de Molière): “E como o bom senso faz falar o gênio!”.

Mas, ele terminava sua palestra, dando-nos, por duas vezes, um privilégio invejável. O primeiro – ouvir de sua boca esta concepção tão bela: “A arte é um mistério. Quanto mais nos aproximamos do mistério da arte, mais ele se afasta”…

Depois, senta-se ao piano e improvisa qualquer coisa de doce e requintado. Ele próprio exclama: “Isto estava muito civilizado! Querem outra coisa?" E toca uma composição vibrante, transfigurada. O grupo de privilegiados ouvia, cheio de respeito. Mas o impacto de um punhal nos transpassava o cérebro: o auditório da Rádio Gazeta nem sequer estava repleto.


(*) Publicado em “A Folha da Noite”, de São Paulo, de 30/9/1957. Este texto integra o quatro volume da coleção Presença de Villa-Lobos (MEC – Museu Villa-Lobos, 1969).