ALTOS
O homem-banda
Radiola, 1º de junho
O quadro “Meu instrumento”, do programa Radiola, exibiu em 1º de junho um episódio antológico no qual Fernandinho Beat Box apresenta o “instrumento” que lhe deu o apelido. A demonstração que ele faz de suas manobras vocais para reproduzir os sons e instrumentos acústicos e eletrônicos do mundo dos...
ALTOS
O homem-banda
Radiola, 1º de junho
O quadro “Meu instrumento”, do programa Radiola, exibiu em 1º de junho um episódio antológico no qual Fernandinho Beat Box apresenta o “instrumento” que lhe deu o apelido. A demonstração que ele faz de suas manobras vocais para reproduzir os sons e instrumentos acústicos e eletrônicos do mundo dos djs foi tão espetacular que pode levado muitos telespectadores a achar que se tratava de uma montagem de áudio. Com a garganta e a boca, Fernandinho faz som de “gato rouco” para conseguir um baixo perfeito. Com vários tipos de tosse, ele produz sons diversos de caixa. E com uma cuspida seca faz surgir um bumbo inacreditável. Tudo perfeitamente idêntico aos sons originais. E exemplarmente bem-editado. Show.
Lance raro
Cartão verde, 11 de junho
O Cartão Verde de 11 de junho fez justiça à abertura em que Vladir Lemos diz que o programa está “a serviço da boa reflexão sobre os principais fatos do mundo da bola.” No caso, a reflexão esteve a serviço de um gesto raríssimo na chamada crônica esportiva brasileira desde o dia em que Dunga assumiu o comando da seleção brasileira: uma inequívoca retratação da equipe do programa, em especial de Sócrates, em relação ao que foi dito e previsto sobre os jogos do time contra o Uruguai e o Paraguai. É de se louvar, por rara, tanto na telinha quanto nas colunas da mídia impressa, a maneira franca e bem-humorada com que Vladir autopsiou as línguas queimadas de sua equipe diante dos êxitos da seleção de Dunga.
Encruzilhadas amazônicas
Roda Viva, 15 de junho
Nada é fácil, pequeno ou simples na Amazônia. Incluindo os problemas da região e as respectivas soluções. Não deveria surpreender ninguém, portanto, a sensação de impasse que ficou no ar ao final do Roda Viva que pôs em discussão a medida provisória do governo que prevê a regularização das terras públicas da região. Um dos méritos do programa, apesar do fraco índice de audiência, outra surpresa amazônica, foi o de permitir que o telespectador conhecesse mais detalhadamente as encruzilhadas do projeto nas quais os ambientalistas vão para um lado e os ruralistas vão para o outro. E sem olhar pra trás.
Sem naftalina
Campanha dos 40 anos
Foi visível e merecedora de aplausos a preocupação dos autores da campanha comemorativa dos 40 anos da TV Cultura de mostrar, além de preciosidades históricas e afetivas do passado, o que a emissora está levando ao ar atualmente de importante, interessante, bonito e coerente com sua trajetória.
Fotografia em revista (e na TV...)
Vitrine, 13 de junho
Como se não bastassem a qualidade das fotos da exposição “Fotografia em Revista” – com um pouco do trabalho de 170 profissionais que já passaram pela Editora Abril – a trilha inspiradora de César Camargo Mariano e a entrevista de um deles, o lendário Pedro Martinelli, o quadro “Retrato” ainda contou com a participação e os comentários de Thomaz Souto Corrêa, vice-presidente do conselho editorial da empresa. Corrêa, aliás, propiciou uma ótima abertura de matéria quando, diante da pergunta de Sabrina Parlatore sobre quais as fotos mais marcantes de todos esses anos de Editora Abril, respondeu, preocupado com o egos envolvidos: “Não respondo nem sob tortura”.
Tudo junto e misturado
Manos e Minas, 13 de junho
Vez por outra, este ombudsman recebe emails, alguns à beira do racismo e outros impregnados de altas doses de paternalismo elitista, com críticas ao conteúdo do Manos e Minas. Em geral, tentam desqualificar a música, a cultura e os códigos comportamentais da periferia, em vez de discutir suas contradições à luz do bom senso e da tolerância. Cabe perguntar: será que os críticos do Manos e Minas seriam capazes de oferecer alternativas de conteúdo mais libertárias e cidadãs às comunidades da periferia? O problema é o tipo de música, como a que toca na Casa do Hip Hop de Diadema, mostrada no mesmo programa, dentro do quadro Circular Periférico? Pode ser, mas foi outro convidado do programa, o cantor JC Sampa, da banda Sampa Crew - típica representante música romântica brega-urbana que incendeia as platéias domingueiras da TV aberta – quem deu a senha para conviver bem com o Manos e Minas: “Ninguém é obrigado a gostar de nada. Mas tem que separar quem não gosta de quem discrimina.”
Incentivo à reflexão
Especial Cultura Lei Rouanet , 19 de junho
O formato foi, por assim dizer, standard. Mas estava claro que a proposta não era fazer uma grande produção sobre a anunciada reformulação da Lei Rouanet e a atual política de incentivos culturais do governo federal. O que não quer dizer que o foco não tenha sido quase sempre preciso, tematicamente abrangente, editorialmente equilibrado e, acima de tudo, bastante adequado a uma característica fundamental que muitos documentários financiados pela mesma Lei Rouanet - e exibidos nas emissoras públicas - não têm: linguagem, ritmo e tratamento para TV aberta.
Entrada à francesa
Nossa Língua, 29 de junho
O Nossa Língua, em sua edição de 29 de junho, mais uma vez saiu dos limites do estúdio e do clima de sala de aula e - para usarmos aqui uma referência do programa a um poema de Carlos Drummond de Andrade - foi ser gauche na vida: fez uma rica e interessante viagem pelas influências da língua francesa no português escrito e falado no Brasil. E provou, usando com eficiência os recursos e a linguagem de televisão, que, como disse o professor Pasquale Cipro Neto, “a França está entre nós há muito mais tempo do que se possa imaginar”.
BAIXOS
Ainda sem resposta
Transcrevo, fazendo minha a indagação mais que pertinente de uma telespectadora, publicada aqui neste espaço no dia 22 de junho e ainda sem resposta de qualquer instância da TV Cultura:
“Gosto muito da programação de vocês, porém, nas sextas-feiras, são passados filmes excelentes, mas todos com legendas. Considerando a hora em que são exibidos, não dá para ficar lendo. E tem mais: algumas pessoas (como eu), se lêem legendas não conseguem ver as cenas. Desculpe, mas eles poderiam ser dublados. Deixem a tecla "SAP" para os puristas. Acontece a mesma coisa com documentários que são passados às quartas-feiras. É muito caro fazer uma dublagem de qualidade?
Reação corporativa
Roda Viva, 8 de junho
Se os entrevistadores não estivessem tão mordidos – compreensivelmente, diga-se - com a decisão esdrúxula da Petrobras de criar um blog que praticamente inviabiliza reportagens exclusivas sobre a empresa, certamente o presidente Sergio Gabrielli teria enfrentado perguntas e questionamentos mais desconcertantes ou difíceis de responder.
Tradução errada
Vitrine, 13 de junho
A boa reportagem em forma de crônica da correspondente de Nova York, Carol Campos, sobre os templos do Harlem que se tornaram atração turística, desafinou um pouco na tradução incorreta - ou, no mínimo, incompleta - do termo gospel. Em sua narração, a correspondente disse que gospel “é uma abreviação de god spell, que significa good news ou boas novas em português”. Não é bem assim: há um sentido muito mais religioso. Gospel quer dizer evangelho e pode também ser traduzida como credo, já que, juntas, as palavras God (Deus) e spell (soletrar ou palavra soletrada) ganham o sentido de "palavra de Deus".
Direito de resposta
Roda Viva, 23 de junho
Para o telespectador, o programa com o chanceler Celso Amorim foi uma importante oportunidade de ele se posicionar em relação a todas as questões que envolviam a política externa do governo Lula. Com dois reparos que, aliás, também podem ser aplicados às últimas edições do Roda Viva: a proporção frustrantemente baixa de perguntas feitas pelos telespectadores e que são feitas ao entrevistado durante o programa, e a forma atropelada e impertinente com que o âncora às vezes tenta conduzir a entrevista, principalmente quando o entrevistado, como no caso de Celso Amorim, não abre mão do direito de completar uma resposta.
Coisa de cinema
A’Uwe , 24 de junho
Na primeira parte do documentário “Crianças da Amazônia”, da brasileira Denise Zmekhol, a produção norte-americana, além de recontar a história de Chico Mendes, mostra como estão os índios que Denise conheceu e fotografou em outra ida à região, 15 anos antes. Apesar da impecável qualidade técnica das imagens e da edição - estimulada por uma abertura em que uma lupa de fotógrafo percorre slides dos indiozinhos fotografados, criando a expectativa sobre como estariam eles depois de 15 anos – e do recurso a um instrumento infelizmente raro nesse tipo de trabalho – o da narração em off, no caso da própria Denise – “Crianças da Amazônia”, pelo ritmo da narrativa, por seus silêncios suecos pontilhados de sons da mata, pelo enfoque histórico, enciclopédico e sem atualidade jornalística - mais apropriado, portanto, a públicos menos informados sobre o assunto do que o brasileiro comum - não consegue fugir de sua vocação de documentário (só) para cinema. E ainda assim, destinado a platéias específicas, em ambientes educacionais ou militantes.
Vai ser bom, não foi?
Tudo o que é sólido pode derreter, 28 de junho
“Tudo o que é sólido pode derreter”, apesar de suas potencialidades e pelo salto de qualidade que representou no cenário atual da TV aberta brasileira, acaba cedo demais, aparentemente sem tempo de criar algo importantíssimo em televisão e particularmente difícil para uma emissora com uma média baixa de audiência como a TV Cultura: o hábito do telespectador. E parece não haver dúvidas de que quanto maior for o hábito e a fidelidade que um programa conquistar, maior será a disposição – e a paciência - do telespectador para continuar sintonizado nesse programa, mesmo nos momentos de conteúdo mais complexo e difícil como o melancólico episódio inspirado no poema “Ismália”, de Alphonsus Guimaraens.