Emílio Fraia e Vanessa Barbara
Jornalistas e escritores

Uma idéia especial realizada por em gosta de criar e escrever!

 

História a vinte e quatro mãos

A Debora escreveu assim: os vidros separavam as cabines, elas eram numeradas, e enquanto esperava o clique do outro lado, a voz do pai ou da mãe, o Enrique olhava o homem de bata colorida que falava de pé três aquários à esquerda -- o homem alto, mexendo os maxilares. É de algum lugar da África. A boca grudada no telefone, parece que fala pra dentro, ouve por longos minutos, sem dizer nada, só concorda com a cabeça. Na calçada em frente, a tarde tinha acabado; da cabine seis atravessava os vidros uma voz de mulher, rouca, numa língua nova, provavelmente a língua dos turcos. O Lalo, que esperava com a bochecha no vidro, havia dito que aquele era o bairro turco.

Na terça-feira, um mimeógrafo desapareceu da sala dos professores. Foi à tarde, depois da aula, quando o pessoal sai pro almoço e fica tudo vazio. A diretora passou nas classes, gorda, com a saia de piscina suja. Disse que ia ser um zero geral se o mimeógrafo não aparecesse. Mas no dia seguinte o Lalo e o Enrique faltaram de novo e as pessoas só falavam nisso (parece que os pais colocaram a polícia atrás): no sumiço do Lalo e do Enrique, que viviam juntos e faziam as coisas de meninos, que são meio idiotas, mas a Debora gostava deles. Eram uns bobos. Perderam a final do intercolégios.

A diretora até esqueceu a coisa toda do mimeógrafo porque só se falava nos dois. A Debora continuou: o africano de bata seguiu falando sem mover os lábios, encarou o Enrique. Mas logo o Enrique encontrou um ponto, um adesivo no vidro e zupt, abaixou a cabeça: "Não tem jeito, mãe. A gente não vai voltar." A Debora inventava o que tinha acontecido com eles.

Escreveu assim...

1 - "Cansado da insistente retórica de sua mãe para que voltasse para casa, Henrique desliga o telefone e salta para dentro do primeiro trem que se preparava para partir daquela tumultuada e poliglota estação. Henrique e Lalo, juntos, decidiam por deixar a todos os seus problemas e partir rumo a novas perspectivas, a fim de conhecerem novos horizontes."

Nathanael Araújo
30/06/2008
18:12


2 - "No entanto, ao ler aquele simples rabisco que Debora havia escrito, muita gente passou a não acreditar no que ela dizia. Havia escrito o nome do Enrique errado. "Como uma menina que gosta tanto deles, que sempre foi tão próxima, poderia escrever o nome dele assim, com H?", questionavam. Ela argumentou que, na hora do desespero, escreveu errado. E foi isso. Mas ninguém acreditou... ela, então, pegou o papel do homem grande e começou, ela mesma, a gritar as palavras rabiscadas..."

Alan de Faria
01/07/2008
10:21


3 - ""Será que ninguém vai prestar atenção ao fato e sim à grafia? ", gritava Debora. "Está mais do que na cara que eles deixaram suas asas simplesmente crescerem". Quanto ao H não poderia ser a indicação de que o menino Enrique estava virando um homem e Debora estar inquieta quanto à transformação dele? Pois a viagem o levaria a lugares distantes, a novas experiências, nas quais ela não estaria presente e não compartilharia. E quem seria Enrique quando o reencontrasse? E será que ele retornaria?"

edilene salgado
02/07/2008
11:02


4 - "Enrique e Lalo apenas queriam alçar vôo rumo à liberdade. Há tempos eles estavam indecisos entre duas coisas: se atirar no rio ou fugir com o circo. Resolveram fazer as duas. Embarcaram num trem e quando chegaram ao destino se atiraram no Rio...de Janeiro. Lá eles encontraram o circo. "Agora vamos ganhar o mundo, Lalo." "Vamos logo, amigo." Entraram no circo transbordando felicidade. Ah! O mimeógrafo estava no conserto. A diretora lembrou-se depois. E que saudade sentiu dos meninos... "

Vania Beatriz Cagnin
02/07/2008
14:36


5 - "Saudade. Palavra que feria o coração dos mais humildes. As vezes, nem tanto, mas ela, na solidão escura de um escritório frio, lembrou-se dos sorrisos, gritos e arrepios que causavam em todo lugar que passavam. O que estariam fazendo? Sobrevivendo ou... vivendo? Queria que tudo fosse ao menos, diferente. Sólido como as lembranças que animavam uma alma velha, entregue ao silêncio, regado, sempre, com os fantasmas do passado. E ela, sorriu. Era sempre assim, um grito seguido de dois sorrisos."

Bronson Heleno
02/07/2008
16:20


6 - "E a Debora continuou, toda imaginativa: "O circo chamava-se Místico, como aquela música do Chico Buarque que minha mãe tanto gosta de ouvir. Lá, os meninos se ofereceram para trabalhar e assim ganhar dinheiro. Tiveram de lavar o elefante que lançou um jato de água com sua tromba, ensopando os dois amigos. Porém, o Lalo e o Enrique nem se importaram. Tudo estava divertido! Nesse momento, uma bailarina apareceu diante deles. Como era bonita! O Lalo ficou encantado. Seria seu primeiro amor? ...""

Jonas Pinheiro
02/07/2008
16:23


7 - "Nem medo de altura ela tem... Encostado no tempo, o Morro Dois Irmãos era a nova paisagem daqueles olhos irmanados pela sorte. Enrique pegou a corda e deu um impulso: seu corpo lançado no ar, entre o vermelho da lona e a noite cercada de rostos apreensivos, ganhava o espaço. Era jogar-se no esquecimento. O amigo o via suspender em sombras movimentos precisos, no ofício que em poucos dias fez nascer a inspiração acumulada sonhos a fio. Enrique, porém, não retornou das sombras metros acima."

Luis Gustavo Cardoso
03/07/2008
11:37


8 - "Pelo menos não instantaneamente. A luz para dissipar aquela escuridão, que o tomara logo que as mãos mostraram pouca força para se manterem firmes na corda e de sua queda sobreveio o desmaio, somente surgiu mais tarde. Surgiu quando seus olhos se abriram e diante deles lá estava a bailarina, com seus longos, ruivos cabelos. A mesma cabeleira que já encantara Lalo, conquistava agora Enrique. A amizade resistiria?"

Henrique Carlos Leite
03/07/2008
14:14


9 - "A ruiva, então, fez-se de bailarina à malabarista dos modos que envolvia seus rubros fios de cabelo com as mãos. Com o mesmo toque, deu a Enrique desmaiado o lumiar da vigília. Lalo não gostou de pronto. Era amigo, mas humano. Enciumou-se ao toque. Fez só correr ao fundo... próximo à lona. Porém o carmesim da lona ainda o incomodava; era a bailarina em pano cercando-o em tudo. Os dois, ainda, ao picadeiro trocavam olhares e toques que ganhavam confiança acelerada. Lalo não quis mais saber. "

René Moraes
03/07/2008
17:55


10 - "Na verdade, Débora é quem não queria que Lalo viesse a continuar com tal deslumbramento. Sua forte e secreta paixão por ele a impedia de continuar a escrever tal historia. Como se já não bastasse o fato de sua fuga desavisada e surpreendente, que acabou por a abalar emocionalmente, assistir a aproximação daquele que tanto amava com uma outra pessoa seria demais até mesmo para ela. Que ela escolhesse ao Enrique, pensou aflita."

Nathanael Araújo
06/07/2008
23:00



Na sexta-feira, o mimeógrafo tornou a aparecer na sala dos professores. A diretora repetiu a história de que na verdade ele estava no conserto. Mas ninguém acreditou. Depois do recreio, a Debora distribuiu cópias com cheiro de álcool para toda a oitava série, contando do desmaio do Enrique, da bailarina ruiva e do ciúmes de Lalo – isso sem falar nas aventuras com a mulher barbada e o menino-cachorro, que lhes ensinara a jogar pif-paf. O japonês lá do fundo (que não toma banho) contribuiu com um trecho em que o Lalo aprende truques de mágica, já o Cebola só falou de palhaços, até a Debora arrancar a caneta da mão dele. A Debora estava nervosa. Não acreditava que tinha sido deixada para trás, a poucos dias de acabar as aulas. "Depois da formatura, a gente pega o mimeógrafo e foge", foi o que dissera aos meninos na semana anterior, durante a aula de matemática, e eles pareceram animados. Mas, na verdade, não gostavam da voz estridente de Debora, do seu estojo de lata e dos seus berros no esconde-esconde.

Eles voltariam para casa, exaustos e sujos, perto do Natal. Debora mudaria de colégio e nunca mais falaria com os amigos, desiludida e cansada do esconde-esconde, e sem saber se eles realmente tinham ido brincar no circo, se foram seqüestrados por turcos ou se apenas queriam se tornar uma história a vinte e quatro mãos num mimeógrafo sujo da sala dos professores.
 

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