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Damos evidência para a última exibida, mas você pode consultar por colaborador.

17/08/2008
Miranda July
por
Veronica Stigger
Escritora

Rendeu a ela quatro prêmios em Cannes e o prêmio especial do júri no festival de cinema de Sundance. Fora daqui, Miranda July também é reconhecida como artista performática. Suas performances – muitas delas de teor narrativo – foram realizadas principalmente nos Estados Unidos.

Agora, os leitores brasileiros têm a oportunidade de conhecer a faceta escritora de Miranda July. É claro que você sabe do que estou falando – uma estranha tradução para No One Belongs Here More than You (algo como Ninguém está mais em casa, aqui, do que você) – é sua primeira coletânea de contos. E, a exemplo de seu primeiro filme, também já saiu premiada: levou o prêmio irlandês Frank O’Connor para melhores contos no ano passado.

Nas narrativas do livro – como de resto em seu filme –, os personagens de Miranda July seriam vistos pela maioria do público como pessoas absolutamente comuns e solitárias; pessoas que não se distinguiriam em meio a grupos e que se perderiam na multidão. O público americanos provavelmente chamaria seus personagens de losers, fracassados.

No entanto, não é desta forma que Miranda July os vê e representa. Ao lançar seu olhar sobre eles, ela ressalta o que há de peculiar em cada um, o que distingue cada personagem dos demais. E essa peculiaridade aparece como se fosse o sentido da vida de cada um. É o caso, por exemplo, da moça que ensina natação a um grupo de senhores no piso seco de sua cozinha ou da mulher que – talvez sem perceber – dedica sua vida e seu carinho à filha de seu ex-amante.

Há um certo otimismo nos contos de Miranda July. Um otimismo que, em muitos momentos, me parece um tanto ingênuo.

Em 1912, Eleanor Porter criou uma personagem que se chamava Pollyanna, uma menina de 11 anos que perdeu pai e mãe e vai morar com a tia. Seu livro se tornou best-seller e foi lido pelas moças de família ao longo de todo o século XX. Minha vó leu, minha mãe leu e até eu li. Para vencer a dureza do mundo, Pollyanna inventa o jogo do contente – um jogo que consiste em ver sempre o lado bom de todas as coisas.

Miranda July é a Pollyanna dos anos 2000. Seus personagens nos dão a estranha sensação de que, no fim das contas, todas as coisas se ajeitam e de que o ser humano pode e vai dar certo. O mundo é um pouco mais complicado do que isso. E o horror que vemos narrado todos os dias nos noticiários nos faz perceber como é apaziguadora e consoladora essa visão de mundo de Miranda July.



Veronica Stigger

Nascida na cidade de Porto Alegre em 1973. Formou-se em jornalismo, mas deixou as redações para dedicar-se à pesquisa universitária. É doutora em teoria e crítica da arte pela USP, com estudo sobre as relações entre arte, mito e rito na modernidade. Desde 2001, vive em São Paulo. “O trágico e outras comédias”, seu livro de estréia, foi publicado primeiramente em Portugal, em 2003, pela editora Angelus Novus. Em abril de 2004, foi lançado em versão brasileira pela 7Letras.



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