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Belém (PA)
- segunda parte
Neide Duarte
 

 

E Belém foi ficando assim: a terra vista, Senhora da Baía de Guajará, agora, pequena na paisagem.

Pequena também é a imagem daquela que estamos seguindo: uma menina, uma virgem, uma mãe, uma santa, uma padroeira, uma protetora, uma senhora. A senhora dos cuidados, a Senhora dos navegantes, a senhora dos que andam a pé, dos que seguem de moto, dos que passam de carro, dos que seguem nos barcos. Senhora da Amazônia, Senhora de Belém, Senhora de Nazaré.

"Daí-nos a benção bondosa, Senhora de Nazaré."

"Vamos navegando, sabemos que todos queremos ficar ao lado da Virgem Maria, ela está abençoando todas as embarcações, abençoando os ribeirinhos, só vamos ter cuidado, vamos navegar com muito cuidado."

"Chamada geral, chamada geral, aqui lancha... da capitania dos portos, embarcações... deverão manter-se ao largo."

E fomos assim, mal cabendo nas águas da baía, só querendo chegar bem perto da Santa, esbarrando em outros barcos, esbarrando uns nos pedidos dos outros, nas bençãos dos outros.

E o que nossas mãos buscavam alcançar, o céu nos devolvia em beleza. Como um sinal, a confirmação de alguma felicidade.

Caminhamos juntos como numa grande avenida, de uma grande cidade, somos todos romeiros em procissão. Barcos ricos, barcos pobres.

Os que ficam nas margens não navegam, mas também participam da procissão, se equilibram nos barcos enferrujados, atolados, abandonados, entre as palafitas da Vila da Barca.

"Cada um traz para pagar a sua promessa, traz o seu som, é celebrado uma missa aí em cima desse navio. Desde umas 6 horas a gente viu os barcos que foram para Icoaraci e na volta ficamos até..." - Doriedson Carneiro, sushiman



"Tem fogos, onde ela passa soltam fogos, canoa, lancha, tudo. Lotados, todos lotados. A gente se benze, bate palma, agradece, pede fé, proteção, tudo pra ela." - Lara Araújo, dona de casa

 

Que venha a alegria. Estamos nas ruas, estamos nas varandas dos prédios, estamos na frente dos hospitais, estamos nas passarelas, em todas as pontes, em cima das árvores, estamos nos ônibus que passam. Somos nós com a mão no peito pelas esquinas, somos nós com a sombrinha aberta na calçada para aliviar o sol, somos nós com a carteira profissional pedindo a graça de um trabalho, somos nós com os braços erguidos, com as mãos estendidas, querendo alcançar os teus cuidados.

 




E esta festa religiosa e Santa, essa devoção amazônica, misteriosa como a floresta, surpreendente como os grandes rios, revela o coração de um povo.

 

"Olha a cobra!"

— O quê que essa festa tem a ver com o Círio?
"Acho que alegria, fé, consagração, tem tudo a ver com o Círio, qualquer manifestação tem a ver não só com o Círio, mas com o paraense."

"Isso aqui é a festividade profana do Círio, não tem nada a ver com o religioso, é a programação paralela, mas é bom que resgata todo o conceito regional que tem da terra."


"O Círio é uma questão que está enraizada também na cultura do povo paraense, né? Então não é só a questão do sacro, é a questão também da manifestação. Acho que a festa se manifesta de várias formas, né?"

 

E quando finalmente amanhece o dia esperado, o dia do Círio de Nazaré, cinco procissões já aconteceram pela cidade de Belém.

Nossa Senhora de Nazaré já percorreu mais de 70 quilometros, navegou mais de 10 milhas. O arrastão do Círio já passou em sua homenagem, o auto do Círio já se apresentou, a maniçoba, o pato no tucupi, já estão prontos nas casas de Belém. É hoje o dia grande.

São os soldados da santa, os protetores, os cruzados. Puxam 350 metros de uma corda em forma de rosário, que puxa a berlinda que carrega a Santa.

Ave, Maria de Nazaré.

Ser ali em sua honra, um só corpo, um só coração.

"Nossa Senhora, pode esperar... a tua corda vai chegar..."

E entre tantos, ser o peregrino, o penitente, o pagador de promessas. O que exibe suas dores e o seu remédio.

— Por que a senhora fez a promessa?
"Uma promessa que eu fiz é do meu filho, uma calúnia muito grave que levantaram contra ele e eu pedi para ela que provasse a inocência do meu filho." - Cristina da Silva, romeira

— Para que é a promessa?
"Meu marido conseguiu um emprego." - Sonia Rocha, romeira

"Eu fiquei em coma 6 dias, aí minha família fez essa promessa para mim. Eu prometi que eu ia pagar essa promessa de joelhos até o fim da minha vida." - Sidney Costa, colhedor de açaí

"Quando os médicos desenganavam o meu marido na sala de cirurgia, na UTI, meu marido desenganado, Jesus, eu clamei, eu clamei Maria para ti, que tu viesses e me desses esperança que o meu marido não estava desenganado, estava desenganado dos médicos, mas de Deus não estava, muito obrigado minha mãezinha querida."


A procissão segue lenta. Depois de sete horas de percurso, e três quilometros de caminhada, a imagem ainda não conseguiu chegar na Basílica de Nossa Senhora de Nazaré. A Santa vem devagar, na frente os promesseiros, os carros dos anjinhos, os carros das promessas, os guardiães da corda.


E depois de 10 horas de procissão, quando o Círio de Nazaré chega ao fim, quando ela passa, assim, senhora de tudo, atrás das mangueiras, atrás das madeiras, num relance, num instante, feito quase de adivinhação, tudo o que parece terminado se revela assim, não em palavras, mas nos gestos dos homens na manhã seguinte.

 


Ficha técnica e discografia

Veja a primeira parte do programa Em Nome da Mãe

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