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Volta Redonda (RJ)
- primeira parte
Neide Duarte
 

 


Pulsar.

Respiração apressada da vida que começa.
Todo ar que for possível.

 

O DNA que se desenha, moléculas em colapso, corpos em formação.

Na grande cozinha, caldeirões circulam na tarefa de forjar a criação de um mundo. Toda alquimia, fogo e ar, revolução, até que o líquido se acalme em aço.


O aço que passa, parece impenetrável, mas carrega um passado de explosões: fogo, arrebentação, terra, estrelas, o caos da iniciação.


O aço que passa carrega o som do seu nascimento, o som grave dos vulcões que não querem se conformar com seu tamanho e se lançam, se atiram, se derramam, na tentativa de alcançar outras distâncias, outros reinos, outros mundos.

Cada pessoa que passa também carrega o som do seu nascimento. O fogo e o ar que forjaram o desenho, a paisagem da sua vida.

Resumida agora em poucas e suficientes linhas: horizontais e verticais, longitude e latitude, norte e oriente e que tantas vezes desaparecem sob os nossos pés.

"Eu acho que o violino pra mim hoje é só uma ferramenta prá que eu possa estar fazendo um outro tipo de aula e inserindo na vida da criança tudo aquilo que a gente espera de um cidadão, de uma pessoa que tenha respeito consigo mesma, respeito para com o professor, que ela tenha dentro da aula de violino suas coisas vencidas e suas derrotas também, bem como na vida, né?

A gente sabe muito bem que um dia a gente cai aqui, um dia a gente cai ali, mas a gente sempre se levanta de novo, tenta dar mais um passo"
- Simone dos Santos -Coordenadora do núcleo de cordas

"Você sente a dor agora prá depois se vangloriar, porque é melhor você sentir dor agora e chegar lá na frente você ser um bom profissional do que ser um mau profissional e não ter passado por nada, pelo menos eu vou poder dizer assim: não, eu senti dor,o que eu posso falar agora tudo o que eu tenho foi mérito meu..." - Oséias, 17 anos


Dançar na luz, girar nesse espaço que nos mostra agora que sempre podemos chegar um pouco mais longe, a perna ser mais longa, o braço ter mais alcance.

"Então era assim, era simples, era uma coisa simples, mas assim as pessoas agem assim, pelo fato de ser simples elas não dão valor, não fazem direito, não fazem com dedicação, então não, se eu tô fazendo eu tenho que fazer com dedicação, por mais que seja uma coisa simples tem que fazer com dedicação. E foi assim no alongamento, eu acredito que seja isso: num simples alongamento, quando eu tô alongando, eu alongo com toda a seriedade, eu faço mesmo" - Oséias, 17 anos


"O objetivo principal nosso é trabalhar a parte cultural dessas crianças, mas com a área da cultura permitir a formação emocional, educacional, cultural dessas crianças e a partir daí a gente conseguir ter uma elevação da auto estima.

É trabalhar um pouco mais o desenvolvimento delas em relação a comunidade, a sociedade que elas vivem. Estar trabalhando um pouco essa experiência delas e como elas podem servir de exemplo"
- Juliana Lopes - Coord. Do Projeto Cidadão


— Mas o que você aprende mais assim, nesse projeto Garoto Cidadão? Além dessa coisa de música, teatro, tem conversas assim, você acha que você mudou?

"Nossa, completamente, muito, mudei muito, antes eu não ligava prá nada assim, sabe? Antes eu era uma pessoa completamente largada... depois que eu entrei para o projeto minha mente abriu totalmente, minha mente era pequena, depois que eu entrei minha mente abriu totalmente." - Oséias, 17 anos


Garoto Cidadão é um dos projetos da Fundação CSN, a Companhia Siderúrgica Nacional,criada por Getúlio Vargas em 1941 em Volta Redonda, no Estado do Rio e privatizada nos anos 90.

A cidade se confunde com a usina. Do alto tudo é cidade com suas luzes, suas chaminés, suas fumaças. O alto forno é só mais um prédio nas noites de Volta Redonda.

"Se não fosse a CSN não tava isso tudo aí, uai. É a CSN que dá força aí eu trabalhei aí 30 e tantos anos na siderúrgica... e outra coisa nós reclamamos, eu posso dizer que nós reclamamos porque eu sou aposentado, mas se fala, se não fosse a companhia ser vendida prá particular isso aí não tinha nada não, não tinha nada. Não tinha nada como assim? Não estava do jeito que está, se não fosse vendido pra particular, tinha fechado? Ah tinha fechado. tava ruim? Faz sinal de roubo. Era só isso, era do governo. Só roubo? Não tinha nada, pode crer que eu to dizendo, tenho 60 anos de Volta Redonda" - Sebastião Deodoro, mestre refratário aposentado



"Ela reduziu o número de funcionários. É uma realidade... isso é melhor para a empresa, mas para Volta Redonda não está sendo tão bom, porque as pessoas estão saindo de V.Redonda para buscar emprego em outro lugar."
- Mabel de Oliveira



— O que significa CSN?
"Olha eu acho que muito viu? Pra minha vida foi muito, eu tenho a impressão que ela é muito importante, mas as coisas mudam e de repente a gente vai ter que reestruturar essa cidade de acordo com as possibilidades fora da CSN" - Gláucia


"Uma empresa privada tem uma responsabilidade junto a seus acionistas e na cidade ela deixa de ser a empresa que por assim dizer que tomava conta de toda a cidade. Hoje essas atividades tem que ser praticadas pela própria cidade, pelos próprios dirigentes da cidade. Então houve realmente uma mudança, mas evidentemente a CSN nunca deixou em todo esse tempo de ser a grande parceira de Volta Redonda"
- Francisco Padilha, Presidente da Fundação CSN

"Na realidade o que a gente quer é oferecer uma oportunidade pra que eles tenham um convívio com a gente e a gente com a nossa experiência poder passar um pouquinho do que a gente sabe, todo o know how da fundação CSN, dos seus profissionais envolvidos... é muito complicado a gente em projeto social a gente ter essa pretensão de pegar uma criança de 8 e deixar até 18 anos com a gente é um compromisso que não é fácil porque todos os dias muda-se o cenário das empresas, mas assim o compromisso da CSN é um compromisso pessoal de cada um de nós" - Marcia Fernandes - Supervisora de Projetos da Fundação CSN

"Aqui nós falamos de violino, viola, violoncelo na área de sopro nós estamos falando de pícolo, de flauta transversa, de clarineta, de oboé, começamos agora o fagotee, estamos começando agora também, saxofone, trompa que vamos iniciar, trumpete, trombone, tuba e percussão" - Marcelo Jardim - maestro e coordenador musical


Uma orquestra se prepara para viajar pelo Brasil levando um trem, um trem mineiro.

Um espetáculo feito por profissionais e por meninos do Projeto Garoto Cidadão.

 

Sozinho na arquibancada do ginásio de esportes de Volta Redonda, um pai admira de longe o desempenho de suas filhas.

"Uma toca violoncelo e a outra faz ballet"
— E o senhor vem sempre assistir?
"Venho, todos os ensaios eu tô aqui prá mim é uma beleza essas crianças estarem assim, porque a gente..né? tem poucas condições e quando a gente vê um empreendimento desses que a CSN tem proporcionado pros filhos da gente é uma beleza,né?"
— Me mostra onde elas estão?
"Ali ó naquele lugar ali tá? No lugar do maestro, de lá..." - Izaías Gonzaga (pai de Andresa)

 

 

Na linha dos sopros um garoto cidadão toca sua clarineta.

Até que ela chegasse as suas mãos seus pais percorreram um longo caminho.

"A gente foi fazendo força, aí a gente tinha um carro na época, a gente vendeu pra poder comprar o instrumento pra ele, porque ele se interessava muito."

— Que carro é que vocês tinham?
"Era um fusca que a gente tinha, aí a gente vendeu pra poder estar investindo no instrumento dele" - Miguel e Maria Adalgisa Teixeira (pais de Tiago)




O fusca 78, único carro da família, virou clarineta, agora depois de dois anos o pai de Tiago conseguiu comprar outro carro, desta vez um fusca 79.

 

"Mas foi uma coisa assim que valeu a pena porque ele se esforça, vive assim com bastante dificuldade, mas ele tá se esforçando, aí a gente encontrou o apoio que as pessoas vem dando, então a gente pode estar assumindo, porque nós não teríamos condições de estar pagando uma aula pra ele... aí a Casa Paz e Bem junto com a fundação CSN deu esse apoio, aí a gente pode estar ajudando ele também né? Estar crescendo na música, né?" - Adalgisa Teixeira (mãe do Tiago)


"Olha só...é piano, então dá pra você fazer a frase todinha em piano...sem uma respiração...de novo......respirou, respirou, de novo, sem respiração..."


— Mas só ele que tem aula individual?
"Ele tem...mas tem outros alunos que tem aula individual,que também estão num nível já mais avançado do que os alunos que estão começando."

— E aí até os 18 anos como é que ele vai estar tocando?
"Bom com 18 anos ele vai estar na orquestra sinfônica...vai estar na OSESP... bom 18 anos eu acredito que ele vai estar tocando assim num nível de estar encarando mesmo um trabalho profissional, né?" - José Flávio Pereira - Coordenador do Núcleo de sopros



Veja a segunda parte do programa O Som da Cidadania

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