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CARTA PARA LUCAS
Quando
você, Lucas, não for mais este menino que nos segue pela
favela.
Quando voce não for mais este menino que nos segue em silêncio,
pra espiar a câmera da televisão.
Quando você, Lucas, não for mais este menino...
Caminhávamos.
Sujei a minha blusa preta no cal da parede de uma casa, você correu
pra limpar as minhas costas. Foi aí, foi só aí que
me dei conta
da tua presença. Eram tantas crianças misturadas na rua
da favela e você era só mais um menino.
Mas você era
o único que nos seguia determinado.
Querendo que você voltasse pra sua casa, o Tião te dizia:
"Você não sabe onde é sua casa..." E você
respondia: "Eu sabo..."
E a sua casa foi ficando longe, resolvemos filmar, fotografar a rua inteira
da favela, e a sua mãe foi ficando longe em algum lugar sem resposta,
num barraco perdido qualquer.
Será que você tem irmãos, será que sua mãe
trabalha fora?
Será que você está sozinho cuidando de tudo e saiu
atrás de nós, como saem os meninos atrás do circo?
Você não sabe voltar pra sua casa... "eu sabo"...
Se não te pergunto sobre a tua vida, Lucas, é porque não
posso saber mais do que já sei. Se não te pergunto porque
você nos segue, é porque não posso ouvir a tua resposta,
ainda que você nada diga.
Quando chegamos no fim da rua, te abracei bem forte.
Você não disse nada, nem eu. Foi só aí que
você se deu conta que aquele era o fim do caminho. Foi só
aí que você se deu conta que o teu destino era voltar para
a favela. O nosso era ir embora dali, depois de mais uma reportagem na
periferia de São Paulo.
E você ficou parado, olhando pra nós, sem ir embora, esperando
um sinal qualquer pra correr ao nosso encontro.
Não esboçamos nenhum gesto. Ainda assim você esperou,
quieto,
enquanto nos afastávamos. Como fazem os cães que nos seguem
pela rua,
até que finalmente compreendem que é inútil nos seguir.
Neide
Duarte
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