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São Paulo (SP) - primeira parte
Neide Duarte
 

 


Você passava com seu irmãozinho na carroça.
E estranhou, estranhou de fato.
Que olhar era aquele que te olhava?
Você espiava entre as tábuas, teu irmãozinho também.
Depois os carros começaram a passar com seus vidros e quase te encobriram.

Foi ficando cada vez mais difícil te ver, te distinguir entre as frestas.
Pra você também foi ficando mais complicado e desconfortável me olhar.
Um homem passou de bicicleta, uma mulher passou bem rente, uma camisa azul tomou conta de tudo.
Pela fresta só pude ver as patas do teu cavalo.


Você continuava a sua busca de procurar um vão, um espacinho qualquer, um lugarzinho de nada...
Até que a tua imagem digitalizada foi se confundindo entre carros e homens.
E num lugar sem foco te perdi.

 

— Ela tinha uns 3 anos a menininha...
Se lembrar o nome da mãe dela fica mais fácil, né?
Pois é, eu não sei o nome da mãe.

— Eu queria encontrar a Paulinha.
Aquela gordona?

A menininha de 3 anos...Ela tava...Ela e a mãe...fazia pouco tempo que elas tinham mudado pra lá...
Onde?
Você não lembra dela?
Ah, eu sei quem é. A Paula.
— A menininha hoje ela deve ter 5 anos.
Ariadne, Ariadne.
— Não, Ariadne é uma, essa era a Paulinha, falante.
A Paulinha...Eu sei quem é... Conceição dos Santos

Falante, 3 anos, pequenininha, uma graça. Onde ela está?

TRÊS ANOS ATRÁS...

— Como é seu nome?
Paulinha.
— Paulinha? Quantos anos você tem, Paulinha?
Três. (mostrando dois dedinhos)
— Não tem cachorro aqui, né?
Ele não morde não.
— Não morde?
Não.
— Tem muito cachorro aqui, Paulinha?
Não.
— Quem mora aí?
É um homem. É um homem.
— Que homem?
— Ele canta, o homem que canta. - Paulinha, 3 anos

Tem gente que mora ali. Aquela casa tá quebrada. Tá quebrado.
— Me leva lá então... Onde você tá me levando?
Pra cá.
— Você vai mostrar a sua casa?
Vou.
— E
ntão, vamos.

— Aí é sua casa?
É. Ô, tia, você mora onde?
— Eu moro longe daqui.
Você mora longe daqui?
Moro.

TRÊS ANOS DEPOIS...

Procurar Paulinha pela cidade. Saber da sua vida de criança que crescia num cortiço. Seguimos todas as pistas.

Quem tomou conta das crianças foi o pessoal da igreja São Rafael. Ele trabalhou uns dias aí depois que ela se recuperou, aí num lava rápido, e sumiu. Parece que as crianças ainda passaram pelo SOS. Eu ouvi falar que eles estão pro lado de São Mateus, numa favela que tem, invadiram e fizeram um barraquinho lá.
Conceição dos Santos


Nos disseram que as crianças estavam num abrigo, só que não sabiam dizer qual abrigo que estava a Paulinha, né?
— E recolheram por quê?
Por maus tratos da mãe.
Nailton Rodrigues - coord. Movimento de Moradia da Moóca


Paulinha não encontramos mais. O cortiço onde a conhecemos,
na rua da Moóca, o antigo cine Imperial, foi derrubado e todas as pessoas que viviam ali se espalharam por outras casas, por outros cômodos da Moóca.
Novos cortiços estão se formando.

 

 

Novas crianças estão pelas portas.

Mudar sem deixar endereço. Assim é a vida dos que tem que enxergar num quarto a casa inteira. Dos que protegem a sua intimidade com divisões precárias, mas também criativas.

E assim vamos carregando as nossas coisas, já sabendo que o novo endereço é apenas um ponto de partida para a próxima mudança.


Mãe, tem mais coisa pra descer?
Tem. Tudo. Vai descendo, vai descendo o carrinho, o colchão.
Moradores de cortiço fazem mudança

E cada vez que se carrega a própria casa para outra casa, muita coisa se perde pelo caminho. O menino sabe disso, por isso cuida pessoalmente dos objetos que mais lhe interessam. Primeiro, garantir um lugar pra mochila da escola. Depois estacionar seu carrinho vermelho ao lado do guarda-roupa e avisar o moço do caminhão, o quanto é importante aquele carrinho.


Tio, tio...
Isso, deixa o bicho aí. Nós damos um jeito no bicho. - Menino leva carrinho

— Por que você tá pegando essa madeira?
Hã? Pra minha mãe fazer um barraco.
— Pra sua mãe?
É.
— Você agüenta com essa madeira?
Sim.
— Quantos anos você tem?
— Oito. - Jefferson, 8 anos

— Aonde vocês vão?
— Lá, catar papelão.
— Pra quê?
Pra nóis vender.
— E aonde que você vai pegar o papelão?
Vixe, por aí.
— Mas você vai longe?
Não, vai perto.
— Vai até onde?
Até onde...Até aqui, ó.
— Aonde?
Aqui, no lixo.
— Ah, é só aí. É no lixo que você vai pegar?
É.
— Quantos anos você tem?
Eu tenho nove.
— E você? Quantos anos?
Nove também. - Meninos com carrinho de mão vão catar papelão.

Num círculo cabe toda a nossa rua. Os prédios do Cingapura, os barracos também. Cabe inteirinha aquela vizinha pequena.

Esses círculos, os homens colocam debaixo da terra. Depois, com suas máquinas, vêm mexer no nosso quintal, em tudo que é chão e assim a nossa rua vai se transformando.

Os adultos também gostam dessa brincadeira de puxar coisas.

 

— O que vocês estão fazendo?
Brincando.
— Que você pega pedra e põe ali na água?
Pra fazer esgoto.
— Pra que que é?
Pra fazer o esgoto ali.
— Tá fazendo esgoto?
Vai aparecer na televisão também, tia?
— Como é que faz o esgoto?
Assim, jogando pedra.
— Pra jogar pedra na água?
É. Crianças brincam de fazer esgoto

Fim de expediente. Hora de acabar com o serviço pesado.
Voltar pra casa. Depois de um duro dia de trabalho. Era uma tarde de calor. Um cachorro latia inconformado...



Veja a segunda parte do programa Esconderijo dos Brinquedos

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