 |
|

Todas as marcas, tudo o que a propaganda investiu, anunciou...
Todo um passado de glória na televisão, nas revistas, nos
jornais...

A primeira ideologia do mundo é a do dinheiro, tá entendendo?
E isso acontece em qualquer lugar. Hoje em dia, se alguém de repente
tiver 10 contos no bolso e eu não tiver nada, ele já é
melhor do que eu , tá entendendo? - Jefferson MJ - morador
do Jardim Ângela

O melhor sabor, o mais nutritivo, o mais branco, o melhor pra nossa pele,
o melhor pro nosso colesterol, o melhor pro nosso chão.
Nós que
é da periferia, a gente já nasceu com isso na cabeça,
já nasceu em desvantagem. A gente já nasceu pra ir pra luta,
já nasceu pra sofrer mesmo. E essa é uma grande diferença:
o dinheiro. - Jefferson
As
cascas, que carregavam tantas qualidades, se debatem agora numa agonia
de morte.Uma morte que se anuncia para daqui 450 anos, quando o plástico
enfim se render e se entregar à natureza deste mundo.
Tempo suficiente para
que possamos gerar nosso neto, o neto de nosso neto, o neto de nosso tataraneto,
o bisneto de
nosso tataraneto, o tataraneto de nosso tataranetoe ainda assim só
teriam se passado 200 anos.
Todo esse plástico
ainda estaria se debatendo nessas águas da Represa Billings por
outros 200 anos. Se ainda existirem as águas da Represa Billings.
Ser um fantasma na
cidade. Uma lenda da morte. Um sobrevivente. O que nos dá corpo
senão o que temos? Eu compro, logo, eu sou.

Acontece muito das pessoas ligarem a cidadania com o consumo. Então,
a pessoa da periferia não consome muito, ela não é
cidadã. - Juarez Ramalho - morador do Jardim Ângela
De
frente, de costas, no avesso. Ser e estar. A periferia é um território
de outro país, de outro estado, de outro tempo.
A marca do cigarro é desconhecida.
Os carros que passam por aqui são carros do passado.
Os doces pras crianças são doces do passado.
Estamos passando. Deixamos tudo passar. Quase um sobrevôo, um olhar
de reconhecimento. Favela de Heliópolis. Nós não
somos daqui. Somos estrangeiros, de câmeras na mão.

Olhando pra cá, curiosos, é lógico.
Não, não é, não.
Não é o zoológico.
Minha vida não tem valor quanto o seu celular,
seu computador.
Jovens de Heliópolis cantam rap
Tudo que é periférico parece não ter importância.Não
ocupa o espaço das decisões. Aqui só chegam os reflexos
da cidade. Um grito mais alto, um arrependimento, um susto. São
Paulo não é inteira. São Paulo não continua.
A grande cidade se interrompe e recomeça de outra maneira. Outra
cor, outras palavras, outra arquitetura.
Quando
eu cheguei logo aqui dentro dessa vila - que eu trabalho de pedreiro também,
não sabe?-, que eu olhei pra essas casas aqui do bairro, que eu
vi tudo sem rebocar, eu falei: "Graças a Deus, vou melhorar
de situação, que eu vou pegar nessas colher de pedreiro
aí, o que for 200, eu vou fazer por 50". Eu disse: "Vou
melhorar em poucos dias". Foi engano, que aqui ninguém reboca
casa, essas casa. Poucos que rebocam. - Minzé da Cruz -
morador de São Miguel Paulista
Heliópolis! - Adolescentes gritam

Para ser criança e crescer numa favela é preciso ser maduro.
A favela é um mundo inteiro, com seus códigos, suas palavras,
sua leis, sua paisagem. Mas, quem vive aqui sabe: pra que a vida seja
melhor é preciso movimento. Primeiro, a união de todos;
depois, juntos, olhar pra fora dos limites da favela. E ali, encontrar
parceiros.
E
no objetivo de crescer junto, no objetivo de entender que, hoje, não
é a gente aqui, a classe média ali, que acha que tem diferença,
no sentido de um Brasil, nosso país ser uma nação,
entendeu?
E pra que nosso
país seja uma nação, é importante essa questão
da parceria, é importante que a gente esteja junto com quem pode
nos ajudar, mas vindo também pra aprender, que tem muito aprender
também aqui dentro. - João Miranda - morador de Heliópolis
|