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A cidade está
aos pedaços e quando tudo se junta, quando a paisagem faz sentido,
ainda assim, a cidade nos engana.
Os
manos de paz aí,
que era pra estar entre nós aqui, pá,
fazendo o curso, pá, estudando, pá,
trabalhando, tá ligado?
Os mano tão lá embaixo lá, tá ligado?,
a sete palmos guardados, por que?, tá ligado?
A violência, tá ligado? - Rapper

A cidade é dos que compraram ingresso.
A cidade é das coisas que perderam sua utilidade e que esquecemos
dependuradas no meio da rua.
A cidade é das palavras que deixamos para nós mesmos.

Nos enviam sinais. Querem nos dizer coisas.
Alguém tenta se comunicar.
Grandes geometrias foram traçadas.
Grandes recados estão pelo chão.
A
água lavará nossa respiração.
Nossa cidade de vidro. É de ouro. É de prata.
Flores de ferro na estação. Caminharemos num chão
de vidro, pelo mapa de vidro que é São Paulo.
E passaremos ainda vivos na nossa sombra.
A geografia dos nossos dias.
Onde existe sombra existe vida.

Aqui é o porão da casa?
É, sim, senhora.
E quanto é que vocês pagam para morar no porão?
Aqui,120 reais. - Casal que mora num porão

A gente pode dizer que depois da senzala, que foi a primeira moradia compulsória
dos pobres, o cortiço foi a alternativa que se encontrou para se
morar na cidade. Então, existe cortiço em São Paulo
desde o final do século 19. - Evaniza Rodrigues - coord.
União Moradia Popular, moradora do centro
E como é morar num porão?
É perigoso, porque aqui, quando chove, enche de água.
Entra água aí dentro?
Entra água e bastante.
E como é que vocês fazem?
Deixa
correr por cima. Deixa escorrer ou pega uma lata e jogo fora aí,
né? Precisa até trepar a geladeira, o fogão, pra
água não atingir tudo isso aí.
Não tem janela?
Não, não, senhora. Só tem essa portinha de saída
mesmo.
Só essa portinha aqui?
É, sim, senhora.
É por aqui que vocês saem...
E entra. - Casal que mora num porão
A nossa
vida cresce enredada no ambiente em que vivemos.
Tudo é ambiente. A nossa rua, a nossa casa, a nossa cama, o que
cabe no nosso bolso.
O ambiente nos define, esclarece quem somos e o que podemos vir a ser.

Eu falo pra minha irmã lá no norte: eu moro numa avenida,
o meu terraço dá pra avenida mais famosa do Brasil, é
a avenida São João, aquela que tem a música de Caetano
Veloso. Isso me deixa muito honrada, gente. Meu endereço é
Rua Ana Cintra, 123, apto. 21.
Isso faz muita
diferença?
Faz muita diferença. Hoje eu como bem, hoje eu me visto bem,
hoje eu tenho um endereço que eu não tinha, um endereço
digno, digno. - Sônia dos Santos - moradora do centro
Somos 300, somos 350, somos 10 mil, somos 10 milhões.
Vem
aqui. Sabe de quem é essa casa?
Não.
É do Henrique.
E ali? Quem mora ali?
É...o Marquinho.
E ali?
Aqui mora é o Marquinho e o Marcelo.
E lá?
Aqui? Aqui
só mora o Santo.
Qual é a sua
cama?
Minha cama? Minha cama é essa.
Essa aí de baixo?
É. E a cama do meu irmão é aqui em cima. Ele sobe
a escada...
E sua mãe e seu pai dormem aonde?
A minha mãe dorme aqui embaixo também junto comigo aqui
e o meu pai dorme aqui embaixo. - Jonas, 4 anos, morador do Bom
Retiro
Jonas
mora numa casa velha e grande.
Jonas mora num corredor comprido.
Jonas ocupa muito pouco espaço.
A sua casa cabe toda nesse quarto de três por quatro.
E como é que é morar aqui?
Ah, é triste.
Por quê?
É triste...eu moro aqui porque eu não tenho outro jeito.
Eu sempre morei em quarto de pensão e cada um foi mais pequeno
que o outro.
Como seria a casa ideal para a senhora? Tem que ter o quê?
É
ser um pouco individual, um pouco mais distante de outra casa. Para que
a gente não ouça a respiração um do outro.
- Maria José Ferreira - mãe de Jonas, moradora do
Bom Retiro
Dois anos depois...

Você continua morando no mesmo lugar?
(Sim)
Mudou alguma coisa na sua casa nos últimos tempos?
Não.
E a sua mãe, o que ela está fazendo agora?
Comida.
O jantar?
(Sim)
Você não leva a gente lá pra falar com ela?
(Sim) - Jonas, 7 anos
Hoje
eu não tenho muito pra falar.
Mudou alguma coisa aqui?
Não. Mudou pra pior, porque agora meu quarto está mais
molhado. E a goteira ali está maior.
Aqui nessa parede, do outro lado lá, tem gente eu mora?
Tem, tem um senhor de idade. Ele também se sente incomodado
comigo, eu me sinto com ele.
Como seria a casa ideal para a senhora? Tem que ter o quê?
É
ser um pouco individual, um pouco mais distante de outra casa. Para que
a gente não ouça a respiração um do outro.
- Maria José

Veja
a segunda parte do programa São Paulo Nossa Casa
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