Frutos Caminhos e Parcerias - Início São Paulo Nossa Casa
São Paulo (SP) - primeira parte
Neide Duarte
 


Neste planalto onde a cidade se estende, protegida pelas montanhas da Serra do Mar.

  

Grandes muralhas que nos separam de toda areia, de todo oceano. É difícil, quase impossível o acesso para quem quer chegar.

1554, assim São Paulo começa.


— Qual é o lugar de São Paulo que você mais gosta ?

Lugar de São Paulo que eu mais gosto? Acho que, pra mim, São Paulo é tudo igual, né?
- Rita de Cássia Raimundo - ex-menina de rua, moradora da Moóca



Aqui onde a luz é vermelha e o céu pequeno.
E a noite chega sem fazer diferença, a cidade é só palavras.

Os rios, os lagos são só os nomes que as águas têm.
Os monumentos, a história das nossas guerras, as avenidas, tudo está em outro andar.

A cidade está acima de nós.


— Aonde era que você dormia?
Ali no banco ali, embaixo...

— Embaixo do banco?
É, embaixo do banco, escondidinho na grama, porque os mato era mais alto, aí se escondia pra dormir. - Rita




Glóbulos brancos, glóbulos vermelhos.
Artérias periféricas, a poesia e a infecção.
A vertigem, o enjôo.

Quem poderá saber como nos sentimos, aqui no banco de trás?


— Fazia tempo que você não vinha aqui na Sé?
Muito tempo já que eu não venho mais aqui.

— Que lembranças que te traz aqui a Sé?
Lembrança que eu acho que todo mundo tem que esquecer, que é a lembrança meia ruim, que ninguém gostava...eu mesma não gostava de dormir na rua... - Rita.


Às vezes, passamos agigantados, longas pernas, tudo alcançaremos. Outras vezes, passamos aos pedaços, diminuídos na nossa humanidade. Os carros já não são o que eram, tecnologia desvirtuada. Os prédios da Paulista passam distorcidos na sua arquitetura, um traço oblíquo na América. E a cidade de tanto se espelhar, reflete o seu oposto. O contrário de tudo o que planejou.


— E a sua mãe?
Não tenho mãe.
— E seu pai?
Também não.
— Quantos anos você tem?
Dez.
— Desde que idade você está na rua?
De oito. - Menino de rua


O Turista Hotel já acendeu suas luzes.
Noite de história em quadrinhos, de um natal antigo, de luzes desfocadas, meio sujas no seu brilho.

Tudo parece falso: meia realidade, meio nascimento. Um pouco da tua casa, um pouco do teu prato, uma saudade sem importância.


Algumas luzes, uma lembrança, um fantasma qualquer...

Nós também somos um destino.

Tudo nos divide: porta, metal, o braço de outro passageiro. Passaremos no brilho enganoso da cidade que ilude nossa certeza de visão. Tudo azul.


— O que você fica fazendo na rua o dia inteiro?
Quer que eu falo mesmo o que nós faz?
— Quero.
Fuma maconha...
— Que mais?
Fuma cigarro...


Fique vivo. Fique vivo.
Manter tua presença inadequada na vidraça aberta.
Leve tremor. Leve teimosia.

O céu que nos protege está abaixo de nós, vaza, escorrega pelo telhado e cai aqui , no avesso da nossa imagem e semelhança.




Já fui aí da vida errada, entendeu?
Queria mandar um salve pra rapaziada aí, certo?,
que estão hoje em dia com a cabeça perdida aí, certo?
num mundo aí de desilusão, tá ligado?
- Rapper

 

 

A cidade está aos pedaços e quando tudo se junta, quando a paisagem faz sentido, ainda assim, a cidade nos engana.


Os manos de paz aí,
que era pra estar entre nós aqui, pá,
fazendo o curso, pá, estudando, pá,
trabalhando, tá ligado?

Os mano tão lá embaixo lá, tá ligado?,
a sete palmos guardados, por que?, tá ligado?
A violência, tá ligado?
- Rapper



A cidade é dos que compraram ingresso.

A cidade é das coisas que perderam sua utilidade e que esquecemos dependuradas no meio da rua.

A cidade é das palavras que deixamos para nós mesmos.




Nos enviam sinais. Querem nos dizer coisas.
Alguém tenta se comunicar.
Grandes geometrias foram traçadas.
Grandes recados estão pelo chão.



A água lavará nossa respiração.
Nossa cidade de vidro. É de ouro. É de prata.
Flores de ferro na estação. Caminharemos num chão de vidro, pelo mapa de vidro que é São Paulo.
E passaremos ainda vivos na nossa sombra.
A geografia dos nossos dias.
Onde existe sombra existe vida.



— Aqui é o porão da casa?
É, sim, senhora.

— E quanto é que vocês pagam para morar no porão?
Aqui,120 reais. - Casal que mora num porão



A gente pode dizer que depois da senzala, que foi a primeira moradia compulsória dos pobres, o cortiço foi a alternativa que se encontrou para se morar na cidade. Então, existe cortiço em São Paulo desde o final do século 19.
- Evaniza Rodrigues - coord. União Moradia Popular, moradora do centro


— E como é morar num porão?
É perigoso, porque aqui, quando chove, enche de água.
— Entra água aí dentro?
Entra água e bastante.
— E como é que vocês fazem?
Deixa correr por cima. Deixa escorrer ou pega uma lata e jogo fora aí, né? Precisa até trepar a geladeira, o fogão, pra água não atingir tudo isso aí.
— Não tem janela?
Não, não, senhora. Só tem essa portinha de saída mesmo.
— Só essa portinha aqui?
É, sim, senhora.
— É por aqui que vocês saem...
E entra. - Casal que mora num porão


A nossa vida cresce enredada no ambiente em que vivemos.

Tudo é ambiente. A nossa rua, a nossa casa, a nossa cama, o que cabe no nosso bolso.
O ambiente nos define, esclarece quem somos e o que podemos vir a ser.



Eu falo pra minha irmã lá no norte: eu moro numa avenida, o meu terraço dá pra avenida mais famosa do Brasil, é a avenida São João, aquela que tem a música de Caetano Veloso. Isso me deixa muito honrada, gente. Meu endereço é Rua Ana Cintra, 123, apto. 21.

— Isso faz muita diferença?
Faz muita diferença. Hoje eu como bem, hoje eu me visto bem, hoje eu tenho um endereço que eu não tinha, um endereço digno, digno. - Sônia dos Santos - moradora do centro


Somos 300, somos 350, somos 10 mil, somos 10 milhões.


Vem aqui. Sabe de quem é essa casa?
— Não.
É do Henrique.
— E ali? Quem mora ali?
É...o Marquinho.
— E ali?
Aqui mora é o Marquinho e o Marcelo.
— E lá?
Aqui? Aqui só mora o Santo.
Qual é a sua cama?
Minha cama? Minha cama é essa.
— Essa aí de baixo?
É. E a cama do meu irmão é aqui em cima. Ele sobe a escada...
— E sua mãe e seu pai dormem aonde?
A minha mãe dorme aqui embaixo também junto comigo aqui e o meu pai dorme aqui embaixo. - Jonas, 4 anos, morador do Bom Retiro


Jonas mora numa casa velha e grande.

Jonas mora num corredor comprido.

Jonas ocupa muito pouco espaço.

A sua casa cabe toda nesse quarto de três por quatro.


— E como é que é morar aqui?
Ah, é triste.
— Por quê?
É triste...eu moro aqui porque eu não tenho outro jeito. Eu sempre morei em quarto de pensão e cada um foi mais pequeno que o outro.
— Como seria a casa ideal para a senhora? Tem que ter o quê?
É ser um pouco individual, um pouco mais distante de outra casa. Para que a gente não ouça a respiração um do outro. - Maria José Ferreira - mãe de Jonas, moradora do Bom Retiro


Dois anos depois...


— Você continua morando no mesmo lugar?
(Sim)
— Mudou alguma coisa na sua casa nos últimos tempos?
Não.
— E a sua mãe, o que ela está fazendo agora?
Comida.
— O jantar?
(Sim)
— Você não leva a gente lá pra falar com ela?
(Sim) - Jonas, 7 anos



Hoje eu não tenho muito pra falar.
— Mudou alguma coisa aqui?
Não. Mudou pra pior, porque agora meu quarto está mais molhado. E a goteira ali está maior.
— Aqui nessa parede, do outro lado lá, tem gente eu mora?
Tem, tem um senhor de idade. Ele também se sente incomodado comigo, eu me sinto com ele.
— Como seria a casa ideal para a senhora? Tem que ter o quê?
É ser um pouco individual, um pouco mais distante de outra casa. Para que a gente não ouça a respiração um do outro. - Maria José




Veja a segunda parte do programa São Paulo Nossa Casa

Tópicos Relacionados:
 


Saiba mais sobre a região.



Envie seus comentários e sugestões para o programa: caminhos@tvcultura.com.br

| Caminhos e Parcerias | Frutos |