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também é nossa aldeia

São Paulo (SP) - primeira parte
Neide Duarte
 



Nossa língua portuguesa.
A língua é o pensamento. A língua é o que somos. Na língua portuguesa juntamos as sílabas para formar uma palavra, juntamos pedaços para formar o todo.




O Brasil também parece ser assim: várias partes, imensamente diferentes, se juntam para formar um país.

Como Macunaíma, o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade. O herói índigena das mil caras: o preto, o príncipe, o pobre, o preguiçoso, o branco, o esperto, o índio, o saci e muito mais, se juntam e formam o povo brasileiro.

Essa diversidade toda sempre esteve na universidade, nem sempre como presença, mas como idéia, como objeto de estudo.

Agora começa a fazer parte da academia tudo o que somos: um pouco Ceci, um pouco saci, um pouco Peri, um pouco Martim Afonso de Souza, um pouco Zumbi: um povo Macunaíma.



Nestas manhãs de inverno, a respiração está no ar. Visível, envolta em véu, como a paisagem. Tudo respira sob a proteção de Jakairá, o espírito da neblina. Somos guarani de antigos caminhos, de eternas buscas.Pra sempre a terra sem males. Pra sempre além de nós, pra sempre o nosso destino.


Tupã Mirim acabou de acordar. Está tranqüilo como convém a um menino, que espera a escola abrir, numa manhã de pouca conversa.

Um galo rouco tenta acertar o tom.Karai Ru Ete, o senhor da luz e do fogo, está presente entre os meninos que esperam o café com leite.



Poty Poran é a professora. Ela dá aula meio em português, meio em guarani para os meninos da aldeia Peko'a Ytu do Jaraguá, na escola D'Jekupê Arandu, que em guarani quer dizer "a casa do saber".

— O que é isso que você desenhou?
"Ônibus."
— Ônibus? Aonde você vai de ônibus?
"
Itanhaém."
— Como é seu nome?
"
Alexandre." - Tupã Mirim



Durante o dia a mata atlântica, o pouco que nos resta e nos rodeia. Pindorama, a terra dos buritis. Assim os índios, no século XVI, costumavam chamar o Brasil. Durante a noite, a luz da biblioteca, o caminho dos livros, o pátio da cruz, na universidade católica.



Poty é uma das 37 estudantes indígenas da PUC de São Paulo. Todos recebem bolsa de estudos, como parte do projeto Pindorama.

"É um movimento de tentar recuperar o que a gente tem de positivo na nossa origem. E se a gente não recuperar isso, nosso futuro não vai ser tão positivo quanto pode ser. Então, na realidade, mais do que uma idéia, é realmente um sonho se concretizando, de eu entrar em contato e outras pessoas entrarem em contato na faculdade com as nossas raízes e juntar diferenças, a diversidade que existe no nosso país. Realmente, é uma das coisas que pode ajudar que a violência seja menor, se a gente reconhecer o diferente, ver o quanto ele é bonito, o quanto uma pessoa, que aparentemente não tem muita coisa pra dar, tem pra contribuir." - Ana Maria Battaglin - coordenadora do Projeto Pindorama


"Eu sou a Maria Rejane, sou da etnia Pankararu e estou fazendo o segundo ano de Pedagogia."

  

   

Os alunos indígenas fazem o vestibular como qualquer outro aluno e disputam as vagas existentes em igualdade de condições. O projeto começou em 2001, quando 26 indígenas foram aprovados. Em 2002, apenas 12 indígenas conseguiram uma vaga na PUC.

"Esta é uma experiência que está sendo feita no Brasil todo. Calcula-se que quase 1000 indígenas estejam cursando as universidades, em vários cantos do Brasil. Talvez entre 500 a 1000. Este é um fato novo que nós ainda não sabemos bem no que vai dar. Mas aqui na PUC a gente insiste para que o estudo se reverta em benefício da comunidade." - Benedito Prezia - membro da Pastoral Indigenista da Arquidiocese de São Paulo


"Eu vou continuar sendo professora na aldeia, porque todo estudo que eu tenho vai ser voltado para minha comunidade. Na verdade, nós saímos aqui pra fora para estudar, mas é pra voltar para a comunidade, para que tenha retorno à nossa comunidade. A gente quer aquilo que os mais velhos sempre falam: usar a sabedoria do branco em prol da cultura indígena, da comunidade indígena."
- Poty Poran - aluna de Pedagogia

"Quem foi? A mãe? E quem foi que ensinou pra mãe de vocês? Então, será que é muito antiga essa comida? É de quem?
Do índio. É nosso, não é? É guarani.
O pajé, nossos parentes, nossos pais, nossos avós falam que a gente não pode comer mandikuí. O que é mandikuí?
Verme...
Farinha de amendoim. A gente tá fazendo avatikuí, que é farinha de milho."
Poty dá aula de culinária na aldeia


 

E na tarde amarela, mexer o milho na panela. Cuidar da farinha que se prepara. Repetir o gesto tantas vezes, até que o grão se transforme em pó. Sem nunca perder a essência original.

— Quer dizer que você nasceu em São Paulo?
"Eu nasci em São Paulo."

— E antes de dizer "eu sou paulista, eu sou brasileira", você diz, "eu sou guarani".
"É, eu falo que eu sou guarani."

— Por que isso?
"Ah, não sei. Eu sei que eu sou paulista, eu sei que eu sou brasileira, mas eu tenho orgulho de ser guarani. Quer dizer,é uma coisa bem forte, porque para ser brasileira tem só 500 anos...Para ser paulista, uns 400 anos. Mas para ser guarani é milenar, vem muito antes, há milhares de anos atrás... Por isso eu tenho orgulho de ser guarani, é mais tempo."
Poty Poran

"O que eles têm de diferente é a questão cultural. Eles sofreram muito o impacto de valores, de tratamento, Porque, como eles vivem em comunidade, pra eles é muito natural um servir o outro, eu não tenho, mas o outro tem, o outro não e eu tenho...Essa troca é da cultura. Então, o que a gente observou foi um certo susto de ver uma realidade muito individualista da nossa sociedade. A nossa esperança, a nossa expectativa seria que eles ensinassem isto para os estudantes que são da cidade, ensinassem solidariedade, fraternidade, valores religiosos, essa vida de não sou só eu. Não sou só eu que preciso, nós precisamos, mais o nós do que o eu." -
Cleide Canhadas - supervisora do Atendimento Comunitário da PUC-SP

— Essa que é a casa de reza?
"Isso. Essa é que é a casa de reza. Aqui a gente chama de opy."

— Opy?
"Isso. É onde nós fazemos nossas cerimônias e rituais religiosos."

— Todo mundo fuma cachimbo na aldeia?
"Não todo mundo, mas a maioria, quem frequenta o opy, a casa de rezas. É religioso porque tem o hábito de fumar."

— Quem é religioso fuma cachimbo?
"Porque o cachimbo pra nós é um instrumento religioso. Sempre diz que o cachimbo é a nossa bíblia. O não indígena precisa da bíblia pra rezar, nós precisamos do cachimbo pra rezar."

— E aí, primeiro fuma o cachimbo e depois reza?
"Você reza enquanto fuma, porque a fumaça que sobe vai levar sua oração." - Poty Poran


A universidade também tem seu espírito. Nele cabe muito mais do que estes encontros que se repetem nestas salas, nestes lugares em que a cidade brilha nas nossas costas.

A PUC de São Paulo sempre alimentou o espírito de criar espaços para tudo que é humano, demasiado humano.

Nos anos 70, quando a grande reforma educacional do governo dava ênfase para o desenvolvimento da tecnologia, a PUC, na contramão do olhar oficial, dava ênfase ao desenvolvimento do homem, do cidadão.

Também foi a PUC a primeira universidade a realizar eleições livres para a escolha do reitor, antecipando as eleições diretas no país.

Nos anos 70, alguns professores da USP tinham sido cassados e proibidos de dar aula. Eles se tornaram, então, professores da PUC.

Foi a PUC também um dos grandes focos de resistência contra a ditadura, num dos episódios que marcaram para toda a sociedade qual era o espírito que norteava os duros anos da ditadura.

1977. Tanques de guerra subiram a Monte Alegre e o campus, que era sagrado, foi invadido pela polícia militar e civil, em cenas de guerra declarada.

Pelas salas de aula, pelos centros acadêmicos, pelas secretarias, na rampa, na prainha, no pátio da cruz, na curva do rio, por toda parte, bombas de gás e cassetetes nos alunos, professores, funcionários.

O secretário de segurança na época, coronel Erasmo Dias, responsável pela invasão, disse na ocasião: "Já que a PUC não tem autoridade sobre os alunos, a polícia teve que fazer essa operação".

O que a polícia não queria permitir era um ato público na frente da universidade, marcando a reabertura da União Nacional dos Estudantes, proibida de funcionar desde 1968.

O espírito da universidade salvará a nossa revolução. A curva do rio. São de água as nossas palavras, de cimento e areia.O delírio do nosso sangue que escorre.

Que Freud proteja os espaços da nossa América, da nossa febre, da nossa festa. A beleza salvará o mundo. O mundo salvará a beleza.

"Todos ganhamos, todos ganhamos na medida em que todos crescemos com a convivência. Eu diria isso em todos os sentidos. Não só com a diversidade étnica, com a diversidade cultural, com a diversidade financeira, com a diversidade até de outras características, nós temos muitos portadores de deficiência. Então todos ganhamos, porque aprendemos, porque nos tornamos melhores." - Branca Jurema Ponce - Vice-Reitora Comunitária da PUC-SP




"O idealismo, entretanto, coloca as línguas mortas, grego e latim, como fundamentais para a formação humanística e para o pensamento científico."
- Aula de Filosofia



"Os surdos solicitam mais imediatamente. Então é assim: eu fico pensando como falar determinadas coisas que para mim são claras e acabo dando muito mais atenção, separo a classe e eles...Eles acabaram sendo a minha preocupação maior. Eu esqueci dos índios. Quando você veio com a pergunta eu fiquei espantada."




— Você tem as pessoas que são indígenas, descendentes.
"Não, aqui não. Não sei, eu não consegui identificar, eu até sabia que teria alguém desse projeto nessa turma..."



— O que você espera passar para os seus alunos?
"Eu quero que eles saibam lidar com o mundo não indígena, mas que nunca se esqueçam que são guaranis, nunca se esqueçam que a força que nós temos, a nossa tradição, a nossa cultura, que a nossa cultura é tão bonita e é milenar. E é muito importante que a gente não se esqueça disso, não ache que nossa cultura é feia ou que não serve, ou que a língua guarani não serve, que a língua portuguesa é melhor e que é mais importante. Que eles saibam que é importante sim, português e a cultura não indígena, mas que a cultura guarani é mais importante pra nós que somos guaranis." - Poty Poran


Poty deu aula durante toda a manhã para os meninos da aldeia, mas teve gente que não foi na escola, só apareceu quando a aula acabou.

Mas não é só da irmã que Rete se esconde e foge.

"Ela sempre briga comigo..."
— A Valéria?
"Não, a minha mãe...E só por isso que ela brigou comigo, que vai tomar banho e eu corri...porque eu tenho medo de quente."
— É? E banho frio?
"Banho frio eu gosto."
— Mas quente não?
"Quente não."
— Mas banho frio você toma? Todo dia?
"(Sim.) Não uso xampu."
— Você não gosta de xampu?
"(Não.)" - Rete - aluna de Pory Poran




Veja a segunda parte do programa A Universidade também é nossa aldeia

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