 |
|
E na tarde amarela,
mexer o milho na panela. Cuidar da farinha que se prepara. Repetir o gesto
tantas vezes, até que o grão se transforme em pó.
Sem nunca perder a essência original.
Quer dizer
que você nasceu em São Paulo?
"Eu
nasci em São Paulo."
E antes de
dizer "eu sou paulista, eu sou brasileira", você diz,
"eu sou guarani".
"É,
eu falo que eu sou guarani."
Por que isso?
"Ah,
não sei. Eu sei que eu sou paulista, eu sei que eu sou brasileira,
mas eu tenho orgulho de ser guarani. Quer dizer,é uma coisa bem
forte, porque para ser brasileira tem só 500 anos...Para ser paulista,
uns 400 anos. Mas para ser guarani é milenar, vem muito antes,
há milhares de anos atrás... Por isso eu tenho orgulho de
ser guarani, é mais tempo."
Poty Poran
"O
que eles têm de diferente é a questão cultural. Eles
sofreram muito o impacto de valores, de tratamento, Porque, como eles
vivem em comunidade, pra eles é muito natural um servir o outro,
eu não tenho, mas o outro tem, o outro não e eu tenho...Essa
troca é da cultura. Então, o que a gente observou foi um
certo susto de ver uma realidade muito individualista da nossa sociedade.
A nossa esperança, a nossa expectativa seria que eles ensinassem
isto para os estudantes que são da cidade, ensinassem solidariedade,
fraternidade, valores religiosos, essa vida de não sou só
eu. Não sou só eu que preciso, nós precisamos, mais
o nós do que o eu." -
Cleide Canhadas - supervisora do Atendimento Comunitário da PUC-SP
Essa que é a casa de reza?
"Isso.
Essa é que é a casa de reza. Aqui a gente chama de opy."
Opy?
"Isso.
É onde nós fazemos nossas cerimônias e rituais religiosos."
Todo mundo fuma cachimbo na aldeia?
"Não
todo mundo, mas a maioria, quem frequenta o opy, a casa de rezas. É
religioso porque tem o hábito de fumar."
Quem é
religioso fuma cachimbo?
"Porque
o cachimbo pra nós é um instrumento religioso. Sempre diz
que o cachimbo é a nossa bíblia. O não indígena
precisa da bíblia pra rezar, nós precisamos do cachimbo
pra rezar."
E aí,
primeiro fuma o cachimbo e depois reza?
"Você
reza enquanto fuma, porque a fumaça que sobe vai levar sua oração."
- Poty Poran
A universidade
também tem seu espírito. Nele cabe muito mais do que estes
encontros que se repetem nestas salas, nestes lugares em que a cidade
brilha nas nossas costas.
A PUC de São Paulo sempre alimentou o espírito de criar
espaços para tudo que é humano, demasiado humano.
Nos anos 70, quando a grande reforma educacional do governo dava ênfase
para o desenvolvimento da tecnologia, a PUC, na contramão do olhar
oficial, dava ênfase ao desenvolvimento do homem, do cidadão.
Também foi a PUC a primeira universidade a realizar eleições
livres para a escolha do reitor, antecipando as eleições
diretas no país.
Nos
anos 70, alguns professores da USP tinham sido cassados e proibidos de
dar aula. Eles se tornaram, então, professores da PUC.
Foi a PUC também um dos grandes focos de resistência contra
a ditadura, num dos episódios que marcaram para toda a sociedade
qual era o espírito que norteava os duros anos da ditadura.
1977. Tanques de guerra subiram a Monte Alegre e o campus, que era sagrado,
foi invadido pela polícia militar e civil, em cenas de guerra declarada.
Pelas salas de aula, pelos centros acadêmicos, pelas secretarias,
na rampa, na prainha, no pátio da cruz, na curva do rio, por toda
parte, bombas de gás e cassetetes nos alunos, professores, funcionários.
O secretário de segurança na época, coronel Erasmo
Dias, responsável pela invasão, disse na ocasião:
"Já que a PUC não tem autoridade sobre os alunos, a
polícia teve que fazer essa operação".
O que a polícia não queria permitir era um ato público
na frente da universidade, marcando a reabertura da União Nacional
dos Estudantes, proibida de funcionar desde 1968.
O
espírito da universidade salvará a nossa revolução.
A curva do rio. São de água as nossas palavras, de cimento
e areia.O delírio do nosso sangue que escorre.
Que Freud proteja os espaços da nossa América, da nossa
febre, da nossa festa. A beleza salvará o mundo. O mundo salvará
a beleza.
"Todos
ganhamos, todos ganhamos na medida em que todos crescemos com a convivência.
Eu diria isso em todos os sentidos. Não só com a diversidade
étnica, com a diversidade cultural, com a diversidade financeira,
com a diversidade até de outras características, nós
temos muitos portadores de deficiência. Então todos ganhamos,
porque aprendemos, porque nos tornamos melhores." - Branca
Jurema Ponce - Vice-Reitora Comunitária da PUC-SP

"O idealismo, entretanto, coloca as línguas mortas, grego
e latim, como fundamentais para a formação humanística
e para o pensamento científico." - Aula de Filosofia
"Os
surdos solicitam mais imediatamente. Então é assim: eu fico
pensando como falar determinadas coisas que para mim são claras
e acabo dando muito mais atenção, separo a classe e eles...Eles
acabaram sendo a minha preocupação maior. Eu esqueci dos
índios. Quando você veio com a pergunta eu fiquei espantada."
Você tem as pessoas que são indígenas, descendentes.
"Não,
aqui não. Não sei, eu não consegui identificar, eu
até sabia que teria alguém desse projeto nessa turma..."
O que você espera passar para os seus alunos?
"Eu
quero que eles saibam lidar com o mundo não indígena, mas
que nunca se esqueçam que são guaranis, nunca se esqueçam
que a força que nós temos, a nossa tradição,
a nossa cultura, que a nossa cultura é tão bonita e é
milenar. E é muito importante que a gente não se esqueça
disso, não ache que nossa cultura é feia ou que não
serve, ou que a língua guarani não serve, que a língua
portuguesa é melhor e que é mais importante. Que eles saibam
que é importante sim, português e a cultura não indígena,
mas que a cultura guarani é mais importante pra nós que
somos guaranis." - Poty Poran
Poty deu aula durante toda a manhã para os meninos da aldeia, mas
teve gente que não foi na escola, só apareceu quando a aula
acabou.
Mas não é
só da irmã que Rete se esconde e foge.
"Ela
sempre briga comigo..."
A
Valéria?
"Não,
a minha mãe...E só por isso que ela brigou comigo, que vai
tomar banho e eu corri...porque eu tenho medo de quente."
É? E banho frio?
"Banho frio eu gosto."
Mas quente não?
"Quente não."
Mas banho frio você toma? Todo dia?
"(Sim.) Não uso xampu."
Você não gosta de xampu?
"(Não.)" - Rete - aluna de Pory Poran

Veja
a segunda parte do programa A Universidade também é nossa
aldeia
|