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São Paulo (SP) - primeira parte
Neide Duarte
 



Neste planalto onde a cidade se estende, protegida pelas montanhas da Serra do Mar. Grandes muralhas que nos separam de toda areia, de todo oceano.

É difícil, quase impossível, o acesso para quem quer chegar.


1554, assim São Paulo começa.


"A montanha não vem até mim,
caminho até a montanha,
faço a pedra se mover,
pois a fé me acompanha."
Voz da Periferia


Onde São Paulo termina, aqui, deste lado sul, onde a cidade é mais comprida, São Paulo acaba em pequenas depressões, colinas, em árvores, em água.

"Quando chegar em minha aldeia
leia a placa em minha cabana:
por favor, não pise na grama."
Voz da Periferia


Onde São Paulo acaba,a água da represa de Guarapiranga não tem mais, virou terra, virou planta. As colinas estão cheias de casas, as pequenas planícies também.

Onde São Paulo acaba, não tem grandes supermercados, não tem pizzarias charmosas, não tem livraria, não tem cinema, não tem shopping center.

Onde São Paulo acaba, a cidade não é o lugar do consumo.

"Hoje em dia, se alguém tiver dez contos no bolso e eu não tiver nada, ele já é melhor do que eu. Nós da periferia, a gente já nasceu com isso na cabeça, já nasceu em desvantagem. A gente já nasceu pra ir à luta, já nasceu pra sofrer mesmo. Essa é uma grande diferença: o dinheiro. Nós não temos, os caras tem. Só que é o seguinte: os caras tem o dinheiro, só que nós tem as idéia." - Jefferson (MJ) - Voz da Periferia

São Paulo sabe ser muito diferente para quem mora em bairros diferentes.

No ano de 2000, no bairro de Moema, um jovem foi assassinado. Um número muito alto, inadmissível para uma cidade em tempos de paz. Nesse mesmo ano, no Jardim Ângela, 109 jovens foram assassinados.

Tem uma ameaça no muro. Ameaça de que a morte vive por aqui. A morte incomoda os vizinhos. Longe daqui os cadáveres, por favor. Só não quero ver, nem saber. Obrigado.

Estrada da Baroneza. Jardim Angela, zona sul de SP. Conforme o mito nos ensina, o endereço da morte certa. Mas este não é só o lugar dos encolhidos, dos que têm medo, dos que não conseguem se mexer.


Estrada da Baroneza. Nove horas da noite.

O Bal Rock Bar já abriu suas portas. Já acendeu suas luzes, já acionou o gelo seco.

Esta é a noite do Morte Subta, do Madalena Crucified.
Uma noite metal.


Mas a noite é mesmo de Aderbal Cruz, o Bal, que mantém esse bar de rock há quase 15 anos.

"Isso aqui vai ser sempre assim, até quando todos vocês estiverem do mesmo jeito, na paz, e paz e paz..." - Aderbal Cruz ("Bal") - dono do Bar Rock Bar


"E sentirá a sensação de ter escapado vivo.
Calma aí , calma aí!"
Voz da Periferia

O Jardim Ângela e o vizinho Capão Redondo têm uma rara concentração de jovens interessados em comunicação.


Eles estão envolvidos em projetos de criação de rádios, de revistas, de jornais. Enfim, esses jovens trazem novas palavras, para que a grande imprensa perceba que, no Jardim Ângela, existem outras palavras, além de medo e violência. Lado Periférico, Becos e Vielas, Rádio Biboca, Informação na Quebrada, A Voz da Periferia.



"Essa mensagem se autodestruirá em 10 segundos, 6,5,4,3. O sol não vai nascer, não haverá próxima vez, 2, 1, cabum, cabum, zero. Fita dominada, doidão."

Voz da Periferia



Jeff, Borracha, Vilma, Bola, Negão.
Eles são a Voz da Periferia, um grupo de rap do Jardim Ângela que se prepara para lançar o seu primeiro CD.

"A gente tem pouca oportunidade, a gente valoriza bastante essas coisas alternativas que a gente tem aqui. Como a garagem do Bola. Vários grupos ensaiam aqui...questão de oportunidade de mostrar talento..." - Jefferson (Borracha) - Voz da Periferia


Roberto está no ar. Paciência de esperar pelas palavras que se preparam para ocupar o espaço do papel e da língua.

"A educação é o alicerce de toda uma história de vitória, de cultivar, de levar a cultura para todo lugar. É o que fortalece o seu estado, é o que constrói o seu país, é a estrutura da família para obter um futuro feliz. Esse é um dos textos em que a gente tenta desabafar a nossa mágoa no mundo da exclusão..." - texto de José Roberto Pires - criador do Movimento Lado Periférico

 


"Marco Aurélio, meu irmão, tem uma porcentagem muito grande na realização do movimento cultural Lado Periférico."
- Roberto


"Assim como Roberto, sou mais um aqui na periferia. Realizamos aqui um trabalho que consiste em combater a exclusão cultural, tentando trazer uma linguagem diferente, a linguagem da periferia."
- Marco Aurélio Oliveira - Lado Periférico


"A única vantagem de morar aqui é você ser mais um guerreiro periférico. E diante de tanta violência, você poder sorrir num lugar onde a tristeza predomina. Quem mora num lugar extremo como esse, na região do Jardim Ângela, tem que ser um herói pra driblar toda essa tristeza que a gente vê a olho nu."
- Roberto



Roberto é presidente da Associação Lado Periférico e foi ele quem cedeu o espaço para esse pessoal criar o jornal Informação na Quebrada. Edinho é o monitor. Trabalha no Instituto Sou da Paz e coordena o projeto da criação do jornal, patrocinado pelo Cenafoco, um projeto do governo federal.



"Essa turma daqui do Horizonte Azul, no processo do diagnóstico, de escuta da comunidade, fez uma reunião com os moradores e escolheu fazer um jornal por identificar que aqui o fluxo de informação é muito ruim."
- Alexandre Nascimento - coordenador Instituto Sou da Paz


"A gente já conversou que a banca mais próxima daqui fica a 3 km."
A banca de jornal?
"
A banca de jornal mais próxima é onde a gente se encontrou. Fica a 3 km daqui. Só tem o Agora e o Lance. Jornal tipo Folha de S. Paulo é o que menos sai na quebrada."
E livraria?
"
Deve ser lá em Santo Amaro, a mais próxima." - Edinho Fortunato - coordenador do projeto Informação na Quebrada



No Jardim Ângela não tem livro, não tem livraria, mas tem Cecília Meireles, no olhar de uma garota de 21 anos que terminou o segundo grau e espera um dia fazer faculdade.


— Como é a letra da música que fala da Cecília Meireles?
""Quem sabe sou a reencarnação da Cecília Meireles, que poetizando a vida surpreendeu homens e mulheres..." - Eu acho que ela foi a mulher que surpreendeu mesmo o meio literário brasileiro..." - Vilma Santos - Voz da Periferia


"Sociedade hipócrita, tenta me ouvir, sou a imagem da grande maioria, pequena e frágil, mas continuo na guerrilha. Sou o encanto da canção de ninar da mãe querida e sua oração pedindo a Deus por sua vida. A incandescência de minhas palavras é o fogo que destrói, o grito que não falha."
- Vilma e Voz da Periferia

"Hoje a gente vive isso, porque tem detalhes mínimos aqui que acontecem e que são muito importantes. Mas ninguém nota... "Ah, não vai fazer mal." Faz mal sim." - Vilma


"O fundamental está no detalhe. O detalhe que a gente tenta expressar é o sentimento, a reponsabilidade que a gente tem com o nosso próprio sentimento. É o encontro de nós com nós mesmos."
- Jefferson (MJ)


E aqui, na garagem do Bola, tudo podemos. Aqui somos a música, a matemática, a matriz. Somos o ponto e a linha, a geometria e a poesia.


E aqui, assim, você pode ser a Cecília Meireles. Fingir que é 1954 e que somos felizes porque a cidade é só este planalto que aos poucos se estende mais pro sul.
Santo Amaro é tão longe que é outra cidade. E o Jardim Ângela, Capão Redondo ainda não existem, são apenas a continuação de Santo Amaro, lugar da diversão, das represas, lugar do nosso descanso, do nosso sonho de felicidade.

Mas quem pode falar sobre a felicidade de uma cidade?



"Uma rapa de gente chega para ver a gente cantar, essa parte que tem a nossa felicidade. Mas, da nossa felicidade ninguém sabe falar..."
- Robson (Negão) - Voz da Periferia




"Todo mundo aqui tem histórias de vida complicadíssimas. A gente vive, a gente ri, mas são momentos. O rap é isso, é uma forma de expor nosso sentimento, dessa angústia sair de uma forma boa de se ouvir. É música."
- Wilma


"Periferia sem som é nada."
- Jeferson (Borracha)

"Não me afoguem com falsas promessas.
Sou a ilha que não está submersa.
Não me afoguem com falsas promessas.
Quero ser reconhecida por inteligência, não beleza.
Não sou Afrodite, mas admiro Atena.
Longa viagem meu pensamento prosseguiu e aos seus ouvidos atingiu...
Nitroglicerina e versologia...
Cabum, cabum...
É só destroços."

Voz da Periferia



Veja a segunda parte do programa Notícias da Quebrada

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