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"Minha
mãe morreu quando eu tinha 9 anos."
E o seu
pai?
"Só
lembro dele morto."
E sua mãe?
"Também.
Desde quando meu pai morreu, eu não morava mais com minha mãe,
minha tia me pegou pra criar. Aí ela pegou e me levou para o orfanato,
o conselho tutelar." - Vanessa

"E eu não falava com a minha mãe, eu tava brigada com minha
mãe. Aí eu falei pra eles que eu não tinha mãe,
que era pra minha mãe não ir lá me ver." - Erika
Deyse
E a sua mãe?
"Biológica?...não
sei."
Não sabe? Você não conheceu?
"Conhecer, conheci, só que a última vez que eu vi ela,
eu tava com 10 anos."
Você ficava achando que ela ia voltar?
"É."
Você ficou quanto tempo esperando ela voltar?
"Uns 7 anos."
E você achava que ela ia voltar?
"Não, é coisa de criança, cabeça de criança.
Agora não tenho mais esperança." - Katiane
"Eu que não
quis ficar com ele, é muito vagabundo."
Ele não
trabalha?
"Tsc , tsc...
"
Estuda?
"Nem estuda mais." - Maria Helena

"Bem depois eu conheci o pai da Vitória."
E ele fazia o quê?
"Um vagabundo, não fazia nada." - Katiane
Você ficou quanto tempo na rua?
"Fiquei lá com 12, 13, 14, 15, 16... Quatro anos."
Morando na rua?
"É."
Aí você conheceu o pai dele?
"Sim."
E cadê o pai dele?
"Tá preso."
Por quê?
"Por roubo." - Vanessa
O
que você acha de ficar grávida nessa idade?
"Ah, não
é legal."
Por quê?
"Porque não.
Acho que tem muito pouca idade, não tem responsabilidade de ter um filho
e, com essa idade, tem que estudar, entendeu?." - Maria Helena
É fácil ter um filho, sendo adolescente?
"Ah, pra mim foi bom, porque eu me sentia muito sozinha. Aí,
depois que meu filho nasceu, eu mudei. Eu já não me sinto mais
sozinha." - Vanessa
"Ah, eu achei que
eu perdi metade da minha vida. Não tô dizendo que ela atrapalhou
a minha vida. Não, jamais. Mas foi muito cedo, né? Mas, graças
a Deus, ela veio ao mundo para mudar, porque, se não fosse ela, eu estaria
nas drogas, na prostituição. Se não fosse ela, eu não
estaria nesse mundo." - Erika
"Elas
têm muito poucos momentos de reconhecimento, não só pela
mãe, mas pela sociedade. Então, uma carência que é
básica fica enorme. E fica muito difícil ela poder devolver algo
de positivo pra sociedade. Eu acho que a Fundação,
com o trabalho da casa da menina mãe, busca já criar um espaço
reconhecido pra elas. Isso já é uma coisa, né? Só
que este projeto termina aos 17 anos, quase 18. Elas completam 18 anos e têm
que sair." - Ana Maria Battaglin professora de Psicologia
Comunitária PUC-SP

"Acho que hoje é uma das nossas últimas entrevistas. Foi
mandado um relatório para o Fórum, falando um pouco da forma como
você trata a sua filha, como você vai no trabalho...."
- Margareth de Lima, assistente social, conversa com Érika Dayse
"O
expediente de RH aqui ela conhece muito bem. Ela conhece a rotina do trabalho.
Se não tiver nenhum funcionário aqui, a gente pode deixar o RH
na mão da Érica que ela consegue desempenhar bem as atividades
dela." - Roseli Rodrigues coordenadora Projeto Reintegração
de Reeducandos, Complexo Hospitalar do Mandaqui

O hospital do Mandaqui oferece 12 vagas para as meninas da Fundação
Francisca Franco, enquanto elas morarem nas casas-abrigo.
Algumas creches públicas também empregam as meninas.
Essas
meninas conseguem fazer o que elas gostam na vida?
"Infelizmente,
não. Eu tenho, por exemplo a história da Érika Dayse. A
gente sabe que ela tem uma capacidade artística muito grande, ela tem
um traço voltado para a área de desenho, de estilismo.
A gente já testou isso em outras oportunidades e percebe que ela até
optou por deixar este talento guardado para buscar a sobrevivência e,
mais tarde, ir atrás desse sonho." - Roseli Rodrigues
"Mas o meu sonho
mesmo é desenhar, eu gosto mesmo é de desenhar."
- Érika Dayse
"Como a nossa sociedade
poderia dar espaço? Dar espaço significa reconhecer que tem direito
à vida, reconhecer que tem direito à comida, reconhecer que tem
direito à cultura, reconhecer que é um ser humano. Como nós
podemos reconhecer que os seres humanos, pra serem efetivamente humanos, precisam
ser amados, precisam ser cuidados, precisam ter capacidade de brincadeira, precisam
ter vínculos permanentes?" - Ana Maria Battaglin
E o que você
quer estudar, o que você sonha em fazer?
"Eu quero ser psicóloga."
Por quê?
"Porque eu acho uma boa profissão, ajuda as pessoas."
Que pessoas você gostaria de ajudar?
"Pessoas de abrigo como eu, de rua, de projetos, entendeu?"
Do que precisam as pessoas de abrigo?
"De apoio, de carinho, de compreensão das pessoas."
E você procura nem pensar no dia que vai ter que sair daqui?
"Ah,
eu prefiro nem pensar."
Você
fica com medo?
"Eu
fico com medo pela minha filha, porque se eu não tiver pra onde ir, eles
tiram ela de mim. Isso é o que me dói. A minha filha de mim é
tudo o que eu tenho. Minha única família."
- Maria Helena

Veja
a segunda parte do programa Parto de Menina
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