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São Paulo (SP) - primeira parte
Neide Duarte
 



Aqui, onde a luz é vermelha e o céu pequeno, e a noite chega sem fazer diferença, a cidade é só palavras. Os rios, os lagos são só os nomes que as águas tem.

Os monumentos, a história das nossas guerras, as avenidas, tudo está em outro andar. A cidade está acima de nós.


Glóbulos brancos, glóbulos vermelhos. Artérias periféricas, a poesia e a infecção.

A vertigem, o enjôo. Quem poderá saber como nos sentimos, aqui no banco de trás?



Mas alguém na cidade consegue perceber nossos sentimentos e nos dá uma pista.

E isso já é ao menos uma palavra e isso já é, ao menos, o começo de um afeto.



Larissa gosta de estar e fingir que não está, gosta de brincar num outro mundo. Nesse mundo que fica debaixo da cama.

Mundo escuro e estreito, mas que guarda, para o nosso estar, todas as possibilidades do nosso ser.


Érika Dayse, 18 anos,
mãe de Larissa, 2 anos e 10 meses

Uma passarinha passou por aqui.
Deixou uns grãozinhos de arroz pelo chão, porque ainda é muito pequena pra comer sozinha. Um ano e sete meses. Mas, muito independente, não quer que ninguém meta a colher no seu almoço.


Katiane, 16 anos,
mãe de Vitória, 1 ano e 7 meses







Maria Helena, 17 anos,
mãe de Emily, 2 anos e 2 meses





Vanessa, 16 anos,
mãe de Rômulo, 1 ano e 4 meses




Parto. Partir. Dar início a um corte, a uma despedida. Ir para outro lugar, onde o mundo se apresenta de pernas para o ar.

E foi nesse mundo de estranhas formas, onde nossos olhos não entendem direito o que enxergam, foi nesse motoperpétuo, nessa medida de tempo, nesses sinais da velocidade, entre os vestígios da passagem dos átomos, que o destino das meninas, um dia, ....



"Saí da minha casa com 13 anos, fiquei grávida com 14."
- Érika Dayse

— Com quantos anos você ficou grávida?
"Quatorze." - Vanessa



— Aí você já ficou grávida?
"Já."
— Você tinha quantos anos?
"Quatorze." - Maria Helena

"Quando fui descobrir, eu tava com 3 meses." - Katiane



Essas quatro meninas, que engravidaram aos 14 anos, moram com outras seis meninas que têm uma história parecida com a delas, numa das seis casas da Fundação Francisca Franco. Elas estão incluídas no projeto Menina Mãe.



"O principal desafio aqui é ensinar meninas que sequer foram filhas a serem mães, responsáveis, dedicadas, e entender qual é a importância dela na educação dos filhos, o que é ter um filho, qual é a responsabilidade."
- Caroline Domingues – coordenadora de projetos Fundação Francisca Franco


"Desde os 2 anos que ela já não me queria e só que eu fiquei com ela até os 7 anos."
— Como assim? Ela não te queria?
"Ela tinha problemas com o meu pai, então ela não quis ficar comigo."
— Desde que idade você ouvia isso da sua mãe, que ela não queria ficar com você?
"Dos 4."
— Você lembra bem disso?
"Lembro. Ela era muito agressiva comigo, me batia, mandava eu embora por causa de meu pai. Só que eu não ia."
— Como é que você se sentia quando ela fazia isso com você?
"Ah, sentia desprezo, me sentia a pior criança assim."
— E aí com 7 anos foi aonde?
"Fui morar na casa da vizinha."
— A vizinha que te acolheu?
"É, por pouco tempo. Aí eu voltei de novo pra casa dela, passei uns meses e fui embora de novo. Aí, depois de muito tempo, fui na casa de um, na casa de outro." - Maria Helena

 


"Minha mãe morreu quando eu tinha 9 anos."
— E o seu pai?
"Só lembro dele morto."
— E sua mãe?
"Também. Desde quando meu pai morreu, eu não morava mais com minha mãe, minha tia me pegou pra criar. Aí ela pegou e me levou para o orfanato, o conselho tutelar." - Vanessa




"E eu não falava com a minha mãe, eu tava brigada com minha mãe. Aí eu falei pra eles que eu não tinha mãe, que era pra minha mãe não ir lá me ver."
- Erika Deyse



— E a sua mãe?
"Biológica?...não sei."
— Não sabe? Você não conheceu?
"Conhecer, conheci, só que a última vez que eu vi ela, eu tava com 10 anos."
— Você ficava achando que ela ia voltar?
"É."
— Você ficou quanto tempo esperando ela voltar?
"Uns 7 anos."
— E você achava que ela ia voltar?
"Não, é coisa de criança, cabeça de criança. Agora não tenho mais esperança." - Katiane

"Eu que não quis ficar com ele, é muito vagabundo."
— Ele não trabalha?
"Tsc , tsc... "
— Estuda?
"Nem estuda mais." - Maria Helena



"Bem depois eu conheci o pai da Vitória."
— E ele fazia o quê?
"Um vagabundo, não fazia nada." - Katiane



— Você ficou quanto tempo na rua?
"Fiquei lá com 12, 13, 14, 15, 16... Quatro anos."
— Morando na rua?
"É."
— Aí você conheceu o pai dele?
"Sim."
— E cadê o pai dele?
"Tá preso."
— Por quê?
"Por roubo." - Vanessa

O que você acha de ficar grávida nessa idade?
"Ah, não é legal."
— Por quê?
"Porque não. Acho que tem muito pouca idade, não tem responsabilidade de ter um filho e, com essa idade, tem que estudar, entendeu?." - Maria Helena


— É fácil ter um filho, sendo adolescente?
"Ah, pra mim foi bom, porque eu me sentia muito sozinha. Aí, depois que meu filho nasceu, eu mudei. Eu já não me sinto mais sozinha." - Vanessa

"Ah, eu achei que eu perdi metade da minha vida. Não tô dizendo que ela atrapalhou a minha vida. Não, jamais. Mas foi muito cedo, né? Mas, graças a Deus, ela veio ao mundo para mudar, porque, se não fosse ela, eu estaria nas drogas, na prostituição. Se não fosse ela, eu não estaria nesse mundo." - Erika

"Elas têm muito poucos momentos de reconhecimento, não só pela mãe, mas pela sociedade. Então, uma carência que é básica fica enorme. E fica muito difícil ela poder devolver algo de positivo pra sociedade. Eu acho que a Fundação, com o trabalho da casa da menina mãe, busca já criar um espaço reconhecido pra elas. Isso já é uma coisa, né? Só que este projeto termina aos 17 anos, quase 18. Elas completam 18 anos e têm que sair." - Ana Maria Battaglin – professora de Psicologia Comunitária PUC-SP


"Acho que hoje é uma das nossas últimas entrevistas. Foi mandado um relatório para o Fórum, falando um pouco da forma como você trata a sua filha, como você vai no trabalho...."
- Margareth de Lima, assistente social, conversa com Érika Dayse



"O expediente de RH aqui ela conhece muito bem. Ela conhece a rotina do trabalho. Se não tiver nenhum funcionário aqui, a gente pode deixar o RH na mão da Érica que ela consegue desempenhar bem as atividades dela."
- Roseli Rodrigues – coordenadora Projeto Reintegração de Reeducandos, Complexo Hospitalar do Mandaqui



O hospital do Mandaqui oferece 12 vagas para as meninas da Fundação Francisca Franco, enquanto elas morarem nas casas-abrigo.

Algumas creches públicas também empregam as meninas.



— Essas meninas conseguem fazer o que elas gostam na vida?
"Infelizmente, não. Eu tenho, por exemplo a história da Érika Dayse. A gente sabe que ela tem uma capacidade artística muito grande, ela tem um traço voltado para a área de desenho, de estilismo.
A gente já testou isso em outras oportunidades e percebe que ela até optou por deixar este talento guardado para buscar a sobrevivência e, mais tarde, ir atrás desse sonho."
- Roseli Rodrigues

"Mas o meu sonho mesmo é desenhar, eu gosto mesmo é de desenhar." - Érika Dayse

"Como a nossa sociedade poderia dar espaço? Dar espaço significa reconhecer que tem direito à vida, reconhecer que tem direito à comida, reconhecer que tem direito à cultura, reconhecer que é um ser humano. Como nós podemos reconhecer que os seres humanos, pra serem efetivamente humanos, precisam ser amados, precisam ser cuidados, precisam ter capacidade de brincadeira, precisam ter vínculos permanentes?" - Ana Maria Battaglin

— E o que você quer estudar, o que você sonha em fazer?
"Eu quero ser psicóloga."
— Por quê?
"Porque eu acho uma boa profissão, ajuda as pessoas."
— Que pessoas você gostaria de ajudar?
"Pessoas de abrigo como eu, de rua, de projetos, entendeu?"
— Do que precisam as pessoas de abrigo?
"De apoio, de carinho, de compreensão das pessoas."
— E você procura nem pensar no dia que vai ter que sair daqui?
"Ah, eu prefiro nem pensar."
Você fica com medo?
"
Eu fico com medo pela minha filha, porque se eu não tiver pra onde ir, eles tiram ela de mim. Isso é o que me dói. A minha filha de mim é tudo o que eu tenho. Minha única família." - Maria Helena

 




Veja a segunda parte do programa Parto de Menina

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