 |
|
Esta é
uma história de caminhos estreitos, de limites, fronteiras, de poucas
saídas. Uma história de pessoas com pouca liberdade, de um bairro
com pouca liberdade, de um rio com pouca liberdade.
Esta história começa
ao mesmo tempo em dois lugares.
Cena 1:
cárcere.
Corredores compridos onde o sol se retalha em argumentos, ameaças de
sempre.
"Ali não
é viver, ali não tem vida. Ali é sobreviver. No presídio
você não vive. É você não estar no mundo, é
você estar no submundo." - Hermes de Sousa - criador Nova
União da Arte
Cena
2 : União de Vila Nova.
O bairro pertence a São Miguel Paulista,
periferia da zona leste, mas é como se fosse uma ilha. A linha de ferro
de um lado, o rio Tietê do outro lado.
Entre essas fronteiras vivem 30 mil pessoas, isoladas da periferia da cidade,
isoladas do resto de São Paulo.
'Quando
eu cheguei logo aqui dentro dessa vila aqui
- que eu trabalho de pedreiro também, não sabe? -, que eu olhei
pra essas casas aqui do bairro, que eu vi tudo sem rebocar, eu falei: Graças
a Deus que eu vou melhorar de situação, que eu vou pegar nessas
colher de pedreiro aí e, o que for 200, eu vou fazer por 50. Eu
disse: Vou melhorar, mas foi engano, que aqui ninguém reboca casa'.
- Minzé da Cruz- morador União de Vila Nova
A
única ligação com a cidade de São Paulo passa por
baixo do caminho do trem.
Do outro lado, está o rio Tietê, intransponível e ameaçador.
Ele também sitiado, espremido, sem opções de viver a matéria
de que é feito e ser apenas o que é: um rio que passa.
O rio Tietê ameaça,
com a sua natureza, voltar a ocupar as terras que são suas: esta é
a sua várzea, o bairro inteiro de União
de Vila Nova.

"Quando eu cheguei aqui dentro desse lugar, dia de chuva, muita lama, eu
tomei aquele susto, aquele choque, não sabe? Cheguei a ficar arrependido.
Saí de um lugar ruim e vim pra outro pior, vim procurar melhora e topei
foi piora na minha vida. Agora, o que será de mim?" - Minzé
'Ali você
não tem esperança, você não tem uma perspectiva de
vida, você só vê falar de crimes. O sistema não te
dá uma condição de chegar ali e dizer: Não,
eu vou mudar, eu tenho uma opção, eu posso ser pedreiro, posso
ser eletricista, posso ser qualquer coisa, eu vou aprender aqui. Lá
não tem nada. Pelo contrário, o eletricista vai esquecer que é
eletricista, o pedreiro vai esquecer que é pedreiro, porque lá
não tem nada pra ele fazer.' - Hermes de Sousa
Cena
3: barracão ao lado de um lixão.
Barracão da arte. Nova união da arte.
Aqui os que vivem espremidos entre o ferro e o rio começam a percorrer
um novo caminho. Mesmo entre limites, as pipas estão no céu.
Quem criou
esse núcleo de arte foi um homem com o nome de um deus grego, filho de
Zeus, Hermes, deus dos comerciantes e dos ladrões.
Hermes, o homem, passou
dez anos da sua vida na cadeia. Preso por tráfico de drogas, passou a
trabalhar com escultura em madeira dentro da prisão e hoje ensina os
meninos da Vila Nova a enxergar na madeira todas as possibilidades da sua natureza.
"De uma certa maneira, eu me sinto com uma dívida aqui, porque,
indiretamente, eu trouxe droga pra este lugar, eu fiz negócios com drogas
na época que eu estava no tráfico ativo."
Você dava drogas pras pessoas aqui pra estas pessoas venderem a
droga?
"É, eu negociava com essas pessoas, com algumas pessoas aqui."
Que droga era?
"Cocaína." - Hermes de Sousa
Ficaram algumas coisas derrubadas pelo chão.
Ficaram algumas coisas espalhadas pelas paredes: um pudim de papel, um amigo,
um perfume, uma palavra distante, uma palavra de distinção.
Uma tentativa de vida e luz.
Lá dentro, a que se dá mais valor?
"É à palavra do homem. O homem tem palavra, porque o homem,
quando está preso, ele perdeu tudo. O mais importante é a liberdade.
Então, se ele também perder o valor que ele tem da palavra, é
melhor morrer." - Hermes de Sousa
Juracy faz
a travessia pela linha do trem, com a filha no colo. Ele é um dos moradores
de União de Vila Nova que todos os dias se entregam ao cuidado de atravessar
a estrada de ferro. Hoje ele é um homem muito diferente daquele que aparece
no retrato, ao lado de Hermes, quando os dois ainda viviam na prisão.
|