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São Paulo (SP) - primeira parte
Neide Duarte
 




Fique vivo. Fique vivo. Manter tua presença inadequada na vidraça aberta. Leve tremor. Leve teimosia. O céu que nos protege está abaixo de nós,
vaza, escorrega pelo telhado e cai aqui, no avesso da nossa imagem e semelhança.





"Já fui aí da vida errada, entendeu?
Queria mandar um salve pra rapaziada aí, certo? Que estão hoje em dia com a cabeça perdida num mundo aí de desilusão, tá ligado?"



A cidade está aos pedaços e quando tudo se junta, quando a paisagem faz sentido,
ainda assim, a cidade nos engana.

"Um mundo de piração, tá ligado? Um mundo de dinheiro, um mundo de maldade, entendeu? Dá um toque pra rapaziada que não é por aí, tá ligado?"

A cidade é de história em quadrinhos, de desenhos no papel, de caminhos vermelhos de neon, de teias finas tecidas nos subterrâneos da cidade, de homens digitalizados que passam tão longe.

"Os manos de paz aí que eram pra estar entre nós aqui, pá, fazendo o curso, pá, estudando, pá, trabalhando, tá ligado? Os manos tão lá embaixo, tá ligado? A sete palmos guardados, por quê? Tá ligado? A violência, tá ligado?"

A cidade é dos que compraram ingresso. A cidade é das coisas que perderam sua utilidade e que esquecemos dependuradas no meio da rua. A cidade é das palavras que deixamos para nós mesmos.



Você é demais. Notícias na parede.
Agora somos do retrato. Estamos na fotografia. Somos nós que guardamos a sua imagem. Somos nós que fazemos as perguntas.



Repórteres da Novolhar entrevistam Neide Duarte.

Neide Duarte entrevista repórteres da Novolhar.

A senhora tem que tipo de tatuagem?
— Uma borboleta.
E o que essa borboleta significa pra senhora?
— Ah, alegria, uma coisa legal, uma calma, uma coisa assim. Você tem tatuagem?
Não tenho, mas quero fazer.
— Que tatuagem você quer fazer?
Quero fazer um dragão.
— E você?
Quero fazer a morte na batata da perna.

O que a senhora faria se um filho seu tatuasse a morte na perna, por exemplo?

— Eu ia dizer a ele que era muito forte gravar a morte, porque é tão difícil a gente conseguir estar vivo, é tão difícil a vida, que eu preferiria que ele fizesse uma elegia à vida e não à morte. Mas, se não tivesse jeito, eu ia dizer: Natanael, não faz a morte, Natanael...


Estes meninos que falam de morte estão na rua, como nós, fazendo uma reportagem, como nós.
São os meninos do Novolhar.

E o que é o Novolhar?

Os alunos falam:
"É uma emissora que ensina nós a mexer com câmera, produção e nós está aqui pra fazer porque nós gosta de câmera."

"Ah, eu acho que a maioria são jovens da periferia que vem aqui fazer esse curso."

"Ah, são uns camarada firmeza e tal e umas mina também firmezona, tudo gente da gente, periferia."

"A gente tem uma gama enorme de jovens, desde o jovem que é semi-analfabeto até o jovem que é de classe baixa, mas que tem família mais estruturada, freqüenta escola, está no segundo grau. A gente tem jovens infratores, jovens que já usaram drogas ou ainda fazem uso. São jovens com perfis muito variados, todos eles têm em comum um interesse muito grande por esta linguagem pela imagem, todos eles olham uma câmera e babam." - Gisele Porto - coordenadora Novolhar



"Você sabe que programa é este?
É um programa com um olhar jovem, que talvez você nunca tenha prestado atenção."

 



"O programa estreou em abril de 99 e, a partir daí, ele não parou mais. Ele é veiculado mensalmente no canal universitário, na TV PUC."
- Paulo Santiago - coordenador Novolhar





"Oi, eu sou aluno da Novolhar, cortaram a nossa verba, cortaram a nossa verba, e eu resolvi denunciar. Cortaram a nossa verba, cortaram a nossa verba, cortaram a luz também..."



"A minha letra é tipo ver a Vila Clara daqui pra frente. Espero que ela melhore, pare com essas mortes. Eu quero só o melhor para a Vila Clara, porque eu moro aqui e eu não agüento ver a Vila Clara como ela está, com muita violência e muita morte, muita morte."
- Ueverson de Souza - aluno Novolhar


Sol demais na Vila Clara. Nessa hora em que o claro e o escuro são tão grandes que já não podemos confiar na nossa visão.

"A gente precisa se superar, mesmo com todas essas adversidades. Mas vale muito mais a gente criar e argumentar bem, pesquisar e fazer um bom trabalho, porque essa é a nossa maior arma. A comunicação já é uma arma letal, porém branda e amena." - José Luiz Adeve ("Cometa") - professor Novolhar


Ele quebrou a semi liberdade, ele morava em Diadema...
Eu fiz um acordo com ele de ele continuar no curso e, daqui a um mês, a gente apresentar ao juiz um relatório.

Aí, eu liguei para conversar sobre outro rapaz e o seu Marquinhos falou: "Soube do Ricardo?" Eu falei: "Ah, o Ricardo vem aqui hoje, ele combinou de vir mais cedo pra conversar comigo. "Ele disse: "Não, o Ricardo foi assassinado". - Vanessa Bombardi - psicóloga Novolhar



— Foi por aqui que seu filho morreu?
"É sim, foi neste local que ele veio a ser executado."
— Neste segundo degrau?
"Ele foi executado sentado. Ele morreu sentado com três tiros na cabeça." - Vanderlei de Castro - pai de Ricardo




Eu acho legal pensar assim: o Ricardo vinha pedindo ajuda pra gente, aqui na Novolhar, com freqüência. Ele sentia que a barra estava pesada.
- Vanessa Bombardi - psicóloga Novolhar



— E a mãe dele?
"A mãe dele não mora com a gente."
Qual era a relação dele com a mãe?
"Nenhuma, porque a mãe dele abandonou ele." - Vanderlei de Castro - pai de Ricardo

"A vida dele estava confusa. Ele estava sem apoio em casa, não conseguia vaga na escola porque estava saindo da semiliberdade e a escola obviamente não quer um aluno desse lá." - Vanessa Bombardi - psicóloga Novolhar

— E ele vivia com quem?
"Na verdade, ele vivia mais com os amigos."
— Ele não vivia com você?
"Ele ficava pouco tempo em casa."
— Ele dormia aonde?
"Ah, dormia na casa de um amigo, na casa de outro amigo." - Vanderlei de Castro



Ricardo deixou poucas coisas nesse mundo: seu apelido, Diadema, escrito na parede,
e um rap que ele pretendia gravar.



"São Paulo, dia frio...
Olha o que vou lhe falar.
Maresia SL está aqui para rimar,
falando de reciclagem para o mundo preparar,
fazendo sua parte para a nossa cidade melhorar..."

Ricardo deixou poucas coisas nesse mundo: o seu rosto num retrato e a carta de um amigo, que ele recebeu quando estava na FEBEM.

"E aí mano, firmeza?

Estou escrevendo pra falar que nós, seus manos, estamos com saudades e estamos ansiosos para ver você no mundão aqui com nós e não aí dentro, trancafiado. Eu não entendo o motivo que fez com que quebrasse a semiliberdade. Hoje você poderia estar com nós aqui no mundão, esperando a hora do busão partir para a baixada. E você esqueceu que nós tinhamos conversado que você ia com nós. Ricardo, eu e os manos fomos na sua goma e trocamos uma idéia com seu pai. Ele é firmeza, estamos rezando por você. Estou mandando dois maço de marlboro pra você e desejo sorte e paz."



Veja a segunda parte do programa Tá Ligado?

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