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Porto do Mato (SE) - primeira parte
Ricardo Soares
 




O primeiro olhar veio do frio. O primeiro olhar foi o do estrangeiro. Olhar de susto, acuado. Como transformar a triste realidade aqui vista? O olhar do austríaco temia mas também confiava. Era preciso tirar do mangue muito mais do que o mangue dava.


Hoje o olhar do padre Leeb é quase um olhar nativo. Aquele que avista adiante mas que aprendeu com o que viu lá atrás. Chegou ao Rio de Janeiro depois de obras sociais na Biafra e do Vietnã. E depois dos morros cariocas onde conheceu a mulata Joana Batista Costa o padre veio parar aqui. No canto onde ela nasceu.


Ricardo: Aqui é o centrinho de Estância, sul de Sergipe, é aqui dentro da área deste município, em Porto do Mato, onde acontece o projeto do padre Leeb.

Estância/SE – 60 mil habitantes – 2.054 Km²


"Eu cheguei no Brasil sem falar português, sem saber onde eu ia morar, sem saber onde eu ia trabalhar. Então eu cheguei em 76 no Rio de Janeiro, tive um choque cultural, porque de um lado vi uma parte muito rica, mais rica que na Áustria e de outro lado uma miséria total. Como eu era gringo, todo mundo via e fui assaltado quinze vezes.

A Joana Batista Costa, ela disse: -Eu nasci aqui em Porto do Mato e fugi com doze anos, porque não aguentava mais a miséria e me disse que era porque Deus quis. Eu disse: -Não, Deus não gosta da miséria, Deus não quer a miséria. Ela me abraçou e disse: -Estou pedindo para você ir visitar meu povo, meu povo mora na miséria total, 70% das pessoas morrem, não tem escola, não tem hospital, mas é um lugar bonito. Então eu disse que queria ajudar e ela disse: -Eu vou deixar tudo para trás, porque ela subiu na vida e nós chegamos aqui em fevereiro de 77." - Padre Humberto Leeb


Perto da divisa com a Bahia, sobre uma extensa restinga, Porto do Mato pertence a Estância mas uma balsa também a deixa mais próxima de Aracaju que por terra fica a 130 kms. O povoado pertence à região litorânea de Boa Viagem que também inclui a conhecida Praia do Saco.


Porto do Mato é uma antiga ilha de escravos e índios. Uma região onde se tropeça em história. Foi aqui em uma área de 15 hectares que o padre Leeb ergueu o Centro Esperança de Deus cuja influência abrange um raio de 25 mil pessoas na região. Só a escola Luz e Vida atende hoje 350 alunos do ensino fundamental. Já formou em seis anos 1000 alunos em cursos profissionalizantes e mais 1500 no fundamental.

Além disso o Centro tem uma pousada, padaria, marcenaria, sorveteria/lanchonete, posto médico e odontológico, oficina mecânica e dique, clube recreativo, auditório, estádio, ateliê de costura e até um cemitério comunitário onde está sepultada Joana que inspirou o padre e morreu em um acidente de carro no Rio em 1990. O começo ao lado dela em 1977 não foi nada fácil.

 


— Padre, o senhor chegou no Crasto, o seu primeiro caminho para Porto do Mato foi por aqui, não foi?
"É, cinco, seis anos"
— E aí o senhor entrou por aquele canalzinho ali?
"Primeiro entrei aqui e depois esse pequeninho aqui e os primeiros seis anos, quando não tinha estrada todo o povo veio por aqui trazendo compras de Estância, trazendo ou levando as pessoas doentes, mulheres grávidas, olha, foi uma luta." - Padre Leeb


O olhar do padre transpôs o mangue. Derrubou casas antigas e ergueu outras mais sólidas.

Derrubou preconceitos, a intolerância da própria igreja e literalmente pôs de pé um sonho de educação e cidadania.




"A primeira coisa foi que eu fiquei encantado com a beleza daqui... mas depois o que eu vi foi a pior miséria que eu encontrei em Biafra.... mas Biafra tinha guerra, e aqui tinha paz."
- Padre Leeb


Levando ao pé da letra o preceito de São Francisco de Assis o padre Leeb trouxe esperança onde tinha desespero.

Seu primeiro grande desafio enfrentado ao lado de Joana foi a reversão em mais de 70 por cento no quadro de mortalidade infantil da região de Porto do Mato.

"Depois da morte da Joana eu achei que não podia mais continuar. Porque o Centro cresceu, todo mundo queria tomar. Antes ninguém se interessava.... Joana dizia: "Tiramos o povo da lama. Diminuímos a mortalidade, mas eles precisam de uma formação de qualidade. Eles estão perdidos sem estudar. Então, surgiu a idéia de criar o Centro de Formação Luz e Vida." - Padre Leeb

"Bem, vocês acabaram de prestigiar nosso trabalho diário na nossa escola Luz e Vida, que é justamente atrelar o conteúdo à realidade, a realidade do aluno, entâo, nós procuramos justamente atrelar a vida a história do lugar, a geografia do lugar, a matemática do lugar para que eles possam ter uma compreensão melhor a respeito dos conteúdos que a gente sempre aprende na academia." - Roseane – professora de geografia

"Mas eu não estou preparado para isso, eu disse. Eu sou estrangeiro, não sei como montar a infra-estrutura para fazer isso funcionar. Vocês não vão acreditar, mas eu gritei de novo para Deus e falei: -Agora eu preciso de novo de você. Ele me mandou aqui, me entregou a Joana... Agora, quando abrimos essa pousada, no primeiro dia, chegou um ônibus de Aracaju e dentro tinha uma pessoa que não queria chegar aqui. Mas faltou uma pessoa, já estava tudo pago.... Então chegou essa pessoa com o mesmo nome da Joana, só que Geovana. Geovana de Oliveira Lima. Uma pessoa de alto nível, com mestrado, formada, que tinha trabalhado em outros países, estudado pedagogia, a coisa social, e disse: "Padre, quando vc precisar de mim eu estou disponível para ajudar você." - Padre Leeb

"Eu disse: -Que escola? Que formação a gente quer dar para esta região? Eu sempre trabalhei em comunidades de base e com pessoas que na medida em que você se relaciona e você tira a sua máscara de ser uma autoridade para ser um ser como outro você começa a entender as exigências de cada um, as necessidades, as carências. Eu pensei na estrutura e no Padre Humberto porque ele é uma pessoa que tem uma visão social muito ampla, muito profunda, então ele me disse: Eu quero uma escola que forme líderes para o futuro, eu quero uma escola que forme para a cidadania, eu quero uma escola que não veja o aluno apenas como um ser que tenha o domínio das 4 operações , mas não é solidário, não participa da vida do outro, não se encanta e nem se desencanta, enfim, um ser como todos nós pobres seres mortais". - Geovana de Oliveira Lima – diretora do Centro de Formação Luz e Vida



Veja a segunda parte do programa Um Olhar Sobre o Mangue

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