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Santos (SP) - primeira parte
Neide Duarte
 



Entre carcaças reconhecer o belo.
Entre ferros buscar o equilíbrio.
Encontrar o caminho na escotilha abandonada.
Um arquiteto olha para o mundo.
Um arquiteto olha para a América.
Um arquiteto olha os navios que passam pela América.
Desenhar o movimento do Atlântico outra vez.
Desenhar a América de novo.
Desenhar o mundo inteiro novamente.
Assim arquitetavam um dia os arquitetos.



"É uma coisa muito simples. A gente parte do princípio de que a gente quer transformar o mundo e essa transformação tem que ser, não pela força, tem que ser pelo amor, pela beleza e tem que ser feliz, tem que ser alegre, tem que ser divertido fazer isso."
- Rodrigo Alonso - arquiteto Instituto Elos



No princípio era a água. O cenário da iniciação.
Era um encontro de verão. Estudantes da América.
Latina América. 90 estudantes de arquitetura reunidos na Universidade Aberta de Verão.

O encontro aconteceu em janeiro de 1999 numa ilha. Ilha de São Vicente, onde fica a cidade de Santos.
E foi organizado por estes cinco arquitetos.



"É, a gente tinha essa idéia que a gente estava trazendo jovens para formar. O curso tem esse nome: Universidade Aberta de Verão- escola de guerreiros sem armas. Então, a nossa idéia era formar guerreiros que fossem sair pela América e realmente transformar a América."
- Rodrigo Alonso - arquiteto Instituto Elos




E numa noite vermelha, os estudantes se despediram. Levando o eco daqueles encontros.
Círculos que foram crescendo com o fogo. Aquecer novas idéias, até que se transformem e nos devolvam antigas canções.




E assim os cinco arquitetos voltaram a ficar sozinhos de novo na sua ilha. A ilha de Santos. Pelo caminho estreito do que foi um dia o navio Vera Cruz, nesta terra de Santa Cruz, Brasil, Júnior, Rodrigo, Natasha, Mariana, Alexandre, vão traçando linhas invisíveis, que se ligam cada vez com mais firmeza.


Alexandre planeja janelas no céu. Completa paredes no azul. Rodrigo ajeita o barro cozido. Tijolos no amarelo. Natasha trabalha com madeiras. Mariana leva um carrinho de pedreiro. Júnior, enquanto canta, lixa janelas com as crianças.




"Nós nos reestruturamos enquanto equipe, montamos o Instituto Elos para poder estar continuando esse trabalho nas comunidades."
- Edgard Gouveia Junior - arquiteto Instituto Elos


E assim cada um foi dando continuidade ao seu destino. Mariana atravessou o mar e foi para a Ilha Diana.

"Aqui é uma vila de caiçaras e, como todos os caiçaras, eles ficaram super fechados. A gente ficou um mês direto fazendo trabalho com eles aqui, então a aproximação foi bem aos poucos." Mariana Motta - arquiteta Instituto Elos



Dia da festa de Bom Jesus de Iguape. Há muito tempo esse andor não passava pela rua de terra da ilha Diana.
Esquecidos costumes, esquecidas vontades.




"A maré, quando vai enchendo, vai invadindo e estava começando a invadir as casas e eles não tinham uma solução, estavam sempre fazendo pedidos pra prefeitura. Foi aí que a gente decidiu fazer essa contenção junto com o atracadouro."
- Mariana Motta

 




Natasha também atravessou o mar , do outro lado da baía de Santos. Foi trabalhar com a comunidade caiçara da Praia do Góes. E foi recebida com um grande abraço.



"Ah, foi uma alegria. Ela parecia uma formiguinha aí trabalhando, não é, seu Catatau?" - Ruth Assumpção, 93 anos

"A partir desse trabalho de estar vindo aqui para conhecer os moradores mais antigos foi que eu me interessei pelo valor que tem essa comunidade e pela beleza natural que tem esta praia." - Natasha Gabriel - arquiteta Instituto Elos


— Tinha a pesca da tainha?
"
Tinha. Eu ajudei muitas vezes a puxar a rede. Então, eu ganhava tainha quando a gente ajudava. Era uma beleza, passava o boto ali, passava as tainhas. Era um montão. Agora morreu tudo." - Ruth Assumpção

"Teve um processo de descaracterização da frente da praia. Nesse espaço ficava o lixo da comunidade." - Natasha Gabriel

"Um dia chegou o grupo Elos. Os arquitetos começaram a fazer o trabalho, limparam tudinho aqui e deixaram a seqüência pra nós continuarmos." - João Carlos Freire (Catatau) - presidente Associação dos Moradores da Praia do Góes


— Como vocês resolveram o problema do lixo e agora em vez do lixão tem essa praça assim bonita?
"Nós começamos a colocar o lixo na praia no dia em que eles vêm buscar. A gente acabou com os latões."
— Quer dizer, foi só uma questão de organização?
"
E educação, e educação.." - Catatau

Lucas nos leva pelas trilhas da praia do Góes. Caminho estreito dos portugueses entre pedras, o morro e o mar. Paisagem do século dezoito. Destas alturas podia se ver com presteza, a entrada dos navios piratas na baía de Santos.

— Lucas, o que é isso aí?
"É a fortaleza da Barra. Fortaleza da Barra Grande."
— É muito antigo isso aí?
"É. O meu avô me contou que aqui havia canhões, que era para impedir a entrada de navios piratas."
— E tinha muito pirata por aqui?
"Vinha." - Lucas Barbosa, 13 anos

Forte da Barra Grande: construído por ordem do rei de Portugal em 1712.

E para proteger a baía dos piratas ingleses e franceses, os portugueses construíram duas fortificações: a da Barra Grande, e outra do outro lado da baía: o forte Augusto que cruzava fogo com o forte da Barra.

Hoje no Forte Augusto funciona o museu de pesca de Santos. E ali também os arquitetos colocaram o seu olhar.

E foram assim navegando por mapas, traçados, separação das terras, grandes navegações, desenho de tantas geografias, mar sem fim.

Atlânticas águas, atlânticas terras. O vento do sul. Calmaria num mapa antigo.

Numa sala azul revive o fundo do mar: um casal de cavalos marinho e seus filhotes translúcidos. Sargentinhos prateados na paisagem. Dois peixes brigam por causa de um ouriço. Um casal de polvos enamorados.



Desenhar o movimento do Atlântico outra vez.
Desenhar a América de novo.
Desenhar o mundo inteiro novamente.
Assim arquitetavam os arquitetos.




Veja a segunda parte do programa Olhar de Arquiteto

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