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Rio de Janeiro (RJ) - segunda parte
Ricardo Soares
 



Rio de Janeiro, verão de 2000

Vida Nova é nome de outro projeto do governo que atua no Pereirão e outras comunidades carentes do Rio. Articula 13 secretarias responsáveis por um conjunto de nove projetos. Três deles de capacitação e prestação de serviços à comunidade. Forma jovens em agentes comunitários, especializados em noções de educação ambiental, jardinagem, situação de risco em saúde e práticas esportivas.


Para isso eles recebem um salário mínimo por mês e assistem aulas que incluem no currículo até noções de economia doméstica. O grupo de alunos do Pereirão, todos os meses, presta conta dos seus avanços e vai retirar o dinheiro em animada caravana até o Maracanã.



— Há quanto tempo você mora na comunidade Carla?
"Há 22 anos."
— Há 22 anos. Por que o Projeto Vida Nova é legal?
"Ah, porque dá uma chance pra gente terminar o nosso primeiro grau, fora disso a gente tem uma bolsa, entendeu? E ajuda no orçamento." - Carla de Jesus da Silva - moradora

Pereirão, outono de 2000

"A Pereira da Silva começou a ser uma comunidade modelo, uma associação modelo, então, depois disso muitas outras associações vêm aqui buscar informações, a gente está sempre trocando figurinhas, é uma troca de experiências. Tem um aluno do programa Vida Nova, que já fez parte indiretamente do tráfico, depois do Vida Nova ele passou a trabalhar na área de esportes e está super satisfeito, hoje ele trabalha com a criançada, ensina, passa as coisas de bom, até mesmo, de vez em quando em palestras que nós temos com as crianças, ele passa as coisas ruins que ele já teve, dizendo que hoje ele está com uma nova vida." - Sérgio Corrêa - coordenador comunitário


Para o Vida Nova engrenar e andar em todas as marchas no Pereirão foi fundamental a contribuição do pastor Éber Lenz César que cede salas da Igreja Presbiteriana Luz do Mundo para as aulas do projeto. A igreja fica na rua Pereira da Silva, em Laranjeiras, em cujo final está o Pereirão. O pastor também cede espaço para que ali se realizem aulas de um curso pré-vestibular para os jovens da comunidade além de abrigar o Balcão de Direitos ligado ao movimento Viva Rio. O Balcão auxilia juridicamente a população carente.



Pereirão, inverno de 2001

— Agora o segredo disso qual é, é manter a comunidade unida?
"Unida e com projetos que as pessoas gostam, que também é superinteressante, porque não adianta você trazer um projeto..."
— E não ir adiante, o Vida Nova continua?
"O Vida Nova continua."
— Porque o Vida Nova é um projeto muito legal, muita gente da comunidade se beneficiou.
"Essa, essa festa que vai ter no sábado é do Vida Nova." - Paulo Corrêa da Silva (Paulinho) - presidente da associação de moradores



Rola a festa na Vila Pereira da Silva



Morador de Laranjeiras, o professor Hjalmar Wolf Barbosa Rodrigues faz parte de uma rede de voluntários que trabalha para manter o Pereirão em paz. Dá aulas de inglês, sem nada receber, aos alunos do Pereirão em uma das salas da igreja do pastor Éber Lenz.



Rio de Janeiro, verão de 2000

"Pessoas morreram na frente do meu prédio e eu vi aquilo às 4 horas da manhã e foi um terror, eu sempre ouvia tiroteios, ouvia o barulho lá de cima, mas nunca tinha visto uma coisa tão próxima... aí alguns dias depois houve uma reunião, eu soube que haveria uma reunião para discutir este problema, então, chegou no fim perguntaram se alguém queria participar e eu falei , olha eu não sou político, eu não tenho dinheiro, mas eu tenho algo a oferecer à minha comunidade. Eu sou professor, eu posso oferecer os meus serviços de professor de inglês. Bom eu posso fazer alguma coisa. Eu acho que com educação a gente consegue mudar alguma coisa. Eu me sinto mais feliz, me sinto mais seguro, me sinto mais integrado, me sinto... agora dentro de um bairro que é meu. Não é uma coisa separada, não é uma parte da rua. É a minha rua." - Hjalmar Wolf Barbosa Rodrigues - professor



Rio de Janeiro, inverno de 2001

"As aulas continuam e até aumentaram, tínhamos um grupo só com adolescentes e agora temos três grupos: um para adolescentes, um com adultos e um com crianças. Fora estas aulas de inglês, nós temos outros projetos que não tínhamos: temos capoeira, temos aulas de artes plásticas para crianças, para adultos e também com a terceira idade, que nós não tínhamos nada com terceira idade. Aqui a gente está sempre receptivo, então, se alguém quiser ajudar de alguma forma nós vamos encontrar... até tem um projeto novo de um jornalzinho comunitário." - Professor Hjalmar

O professor não crê na divisão entre morro e asfalto. Não crê na cidade partida e não está sozinho em Laranjeiras. Vizinho do Pereirão, Nilton Cacheado , dono da Cara de Cão Filmes, que produz comerciais e institucionais, contribui todo mês com 500 reais para a Associação de Moradores e abre espaço para um curso para uma turma do Pereirão.



Rio de Janeiro, verão de 2000

"O Trabalho da Associação que foi apresentado para a gente é um trabalho bonito e com esforço da comunidade, então, eu acho que as pessoas que trabalham e moram em volta não custa nada dar um pouquinho do que você tem a mais. O Pereirão já não é tão mal falado como era antigamente, hoje qualquer pessoa sobe a Rua Pereira da Silva a qualquer hora do dia ou da noite sem nenhum problema, na maior tranqüilidade. Eu acho que o pouquinho que a gente dá, é muito para eles." - Nilton Cacheado - produtor/CaradeCão Filmes

Inverno de 2001


 

"Em determinado dia eu cheguei para o Cacheado e falei que estava afim de conversar com o pessoal da comunidade para chamá-los para dar o curso usando durante dois, três meses pelo menos o curso inicial, usando a infra-estrutura da CaradeCão. Vamos entrar nessa?" - Rudi Lagemann - diretor de cinema



"Topei na hora, e dessa garotada a gente começa a tirar um, dois que são talentos e ajudar mesmo a colocar no mercado, dar oportunidade para eles."
- Nilton Cacheado

"Eu não acredito em nenhum país melhor, em nada melhor na nossa vida e nada acontecendo melhor se você não distribui o conhecimento e a informação." - Rudi



Acontece o curso na produtora CaradeCão e os alunos falam o que pensam:


"Eu me chamo Luís, tenho 25 anos, trabalho e eu me interessei pelo curso porque é uma área superinteressante, esta área de publicidade, televisão é uma coisa que me interessa bastante, tenho o maior prazer em querer aprender e espero que a gente consiga levar até o fim e tirar um bom proveito disso."
- Luís da Silva - estudante


"Acho que eu me liguei mais, fiquei mais interessada porque eu já fiz teatro e gosto muito disso, eu não gosto somente de assistir, eu gosto de estar ali, atuando, sempre gostei disso."
- Karina Nascimento - estudante


 





No verão de 2000 o grupo de Teatro do Oprimido de Augusto Boal fazia um fértil trabalho com os jovens do Pereirão. O projeto foi interrompido por falta de ajuda. Procuram-se parceiros.




Ai de ti Rio, partida cidade inteira, sinônimo de nossa bandeira, véspera de um feriado, lado avesso do pecado, dia quente de trabalho. Aí de ti Rio e do teu povo que padece, do mar que o horizonte emoldura, linha fina pra ruptura. Ai de ti Rio , a cidade que o mundo assiste mas que o mundo não conhece. Contramão da contradição. Por tudo isso cabe aqui a voz de quem pouco fala. A voz dessa outra cidade. A voz da comunidade . A voz do Pereirão.



Rolam depoimentos de moradores do Pereirão:

"A gente não quer sair daqui por nada, né, porque o visual melhor que tem é aqui de cima, porque lá em baixo o pessoal até vê, mas vê pouquinho, aqui emcima a gente vê tudo. Já imaginou acordar de manhã com aquele clarão do sol no rosto, o Pão-de Açúcar de um lado, aí a gente olha para cima e vê o Cristo. É legal aqui, é bom à beça." - Elenita de Jesus - moradora


"Olha, sinceramente, eu tenho uma paixão muito grande pela Laranjeiras, inclusive esta comunidade que eu aprendi amar."
- Wilton Alves da Silva - morador

"Estar morando aqui é muito bom porque hoje é um lugar muito mais calmo." - Rita de Cássia Pereira - moradora




"Eu nasci aqui, fui criada aqui, é muito bom. Tem uma coisa de bom em mim, eu sou pobre, mas esconder onde eu moro, quem eu sou, de onde eu vim, isso aí acho que é bobeira."
- Mônica Silva da Gama - moradora





Também foi para dar vez e voz a quem não tem, para o Rio de Janeiro deixar de ser uma cidade partida, que surgiu em 1993 o movimento Viva Rio, que também atua no Pereirão patrocinando o Balcão de Direitos na igreja do nosso já conhecido pastor Éber Lenz.



Verão de 2000


"O balcão de direitos é um abc da vida legal, o balcão de direitos é uma clínica geral de apoio jurídico. Então, ele faz sobretudo a mediação de conflitos."
- Rubem César Fernandes - diretor do Viva Rio





Pereirão, inverno de 2001

"O balcão continua, agora o balcão é só um espaço, falta muita coisa. Eu acho que houve um progresso imenso, a olhos vistos a questão da segurança realmente foi uma virada, a gente temia muito que voltasse tudo para trás, há sempre uma desconfiança, mas não, continua tudo bem. Agora, mesmo na segurança de lá pra cá houve um passo grande no Rio de Janeiro que foi a criação de uma nova unidade da polícia, cuja missão é fazer policiamento de favela, policiamento comunitário em favela, chama GEPAI, isso aí era uma briga antiga, aquela época no Pereirão a gente propunha justamente isso, mas não chegou a ser formado, então aqui ainda continua o BOPE o responsável pela segurança local." - Rubem César Fernandes - diretor do Viva Rio



No dia 28 de dezembro de 2000 foi inaugurada a nova sede do Bope, no morro Tavares Bastos próximo ao Pereirão. Teoricamente representa mais segurança para a comunidade.



Se o visual do alto do Pereirão é deslumbrante para os moradores isso não basta.. Para deixar a casa mais bela, em parceria com a comunidade também atua a prefeitura do Rio através do projeto Bairrinho que vem a ser um braço do elogiado e premiado projeto Favela Bairro. O projeto que já andou com mais velocidade tem mudado aos poucos a cara do Pereirão.


— Paulinho, no verão de 2000, estava você e o Serginho aqui onde eu estou, e eu estava atrás da câmera, a gente estava mostrando aqui ao fundo apenas alicerces nessa área de risco, passou-se o tempo e o que aconteceu agora, estamos no inverno de 2001, o que temos aqui agora?
"É isso que você está vendo aí, quer dizer, quase todas as casas estão prontas, e pra gente é legal porque isso aí dá ânimo pra gente trabalhar mais pela comunidade."

— Quantas casas foram construídas aqui, Paulinho?
"Olha, tem dezesseis casas quase que prontas e faltam mais três."

— E vão abrigar quantas pessoas essas dezenove casas no total?
"São umas dezenove famílias." - Paulo Corrêa da Silva (Paulinho) - presidente da associação de moradores


— Você mora há quanto tempo aqui?
"Aqui vou fazer um ano."

— Não, mas na Pereira da Silva?
"Ah, já tem uns vinte anos, eu vim pra cá em 1982, eu tinha mais ou menos quinze anos. Aconteceu muita coisa boa depois que teve o projeto Favela Bairrinho, a gente conseguiu cada um ter sua casa e eu consegui a minha aqui em baixo."

— Você não teve que pagar nada por isso?
"Não, eu não tive que pagar nada?"

— Tiraram você da área de risco...
"Me tiraram da área de risco porque minha casa estava caindo mesmo, não tinha condições de eu ficar mais e aí rapidinho me passaram para esta casa aqui em baixo."

Aqui é um lugar legal para criar seus filhos?
"É ótimo, acho que não tem lugar melhor." - Maria do Carmo Terra - moradora


Se o Rio se partiu parece não continuar valendo a aposta de que a cidade permaneça sendo cenário de uma guerra da sociedade contra os bandidos. O Rio antigo, registrado em branco e preto parece não querer ser hoje apenas um soneto colorido e heavy metal. A cidade espera a banda podre passar. O Pereirão é a banda boa que deve continuar...



"Essa experiência do Pereirão, ela podia ser feita em outro lugar, o que falta é coragem. Esse projeto que nem o do Pereirão de repente foi interrompido, mas ele é em si um belo projeto, é um projeto de integração."
- Zuenir Ventura - jornalista



"O Pereirão foi o primeiro caso, um caso de sucesso e que eu sei, eu conheço, eu participei de uma ou duas reuniões e eu vi a comunidade francamente a favor da ocupação do Pereirão e depois foi tentado no morro Santa Marta, mas aí só entrou a polícia, a segunda parte não veio."
- João Salles - documentarista


"É possível se fazer isso, eu sei que é uma comunidade pequena, não é uma comunidade como várias outras do Rio, mas é algo que é factível, que é possível de ser feito. E, eu acho que se a gente encarar direitinho o que já foi feito aqui e levar para outros locais, eu acho que a gente tem chance de ter sucesso em outros locais também."
- Professor Hjalmar



Ai de ti Rio, civilização encruzilhada, passagem por baixo da escada na pressa de cortar caminho. Ai de ti Rio, paisagem emoldurada que ainda esconde sob o forro parte do seu tesouro. Aos poucos porém se aproxima a cena vista de baixo e a realidade vista de cima. Juntar metade com metade se aproxima de um sonho feliz de cidade. Por sorte tem gente que vem tentando.

 



Ficha Técnica e Discografia


Veja a primeira parte do programa Pereirão

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