Frutos Caminhos e Parcerias - Início Onde Existe Sombra, Existe Vida
São Paulo (SP) - primeira parte
Neide Duarte
 




Nos enviam sinais. Querem nos dizer coisas. Alguém tenta se comunicar. Grandes geometrias foram traçadas. Grandes recados estão pelo chão.




A água lavará nossa respiração. Nossa cidade de vidro, é de ouro, é de prata. Flores de ferro na estação.

     

Caminharemos num chão de vidro, pelo mapa de vidro que é São Paulo. E passaremos, ainda vivos, na nossa sombra. A geografia dos nossos dias. Onde existe sombra, existe vida.

— Você sabe quem mora nessa casa?
"Hum... É o Henrique."
— E ali?
"É de Marquinho e o Marcelo."
— E lá?
"Aqui? Aqui só mora o Santo."
— Como é seu nome?
"Jonas."
— Quantos anos você tem?
"Quatro."
— Qual é a sua cama?
"Minha cama é essa. E a cama do meu irmão é aqui. Ele sobe a escada..."
— E sua mãe e seu pai, dormem aonde?
"A minha mãe dorme aqui embaixo comigo e o meu pai dorme aqui embaixo." - Jonas


Jonas mora numa casa velha e grande. Jonas mora num corredor comprido.

Jonas ocupa muito pouco espaço. A sua casa cabe toda nesse quarto de três por quatro.


— Como é morar aqui?
"Ah... é triste."
— Por quê?
"É triste... eu moro aqui porque não tenho outro jeito. Eu sempre morei em quarto de pensão e cada um foi mais pequeno que o outro."
— Como seria a casa ideal para a senhora?
"Tinha que ser um pouco individual, um pouco mais distante de outra casa. Para que a gente não ouça a respiração um do outro." - Maria José Ferreira - mãe de Jonas

Somos trezentos, somos trezentos e cinquenta, somos 600, somos 600 mil.


"Na cidade de SP se fala em 600 mil pessoas na área central morando em cortiço. Esses 600 mil são pessoas que se submetem ao aluguel caríssimo e a condições precárias."
- Evaniza Rodrigues - coordenadora União Nacional por Moradia Popular

— Quanto vocês pagam?
"Aqui é 120 reais."
— E como é morar num porão?
"É perigoso, porque quando chove enche tudo de água, entra água bastante."
— Não tem janela?
"Não sra. Só tem essa portinha de saída mesmo." - Terezinha e José

"A gente pode dizer que depois da senzala - que foi a primeira moradia compulsória dos pobres -, o cortiço foi a alternativa que o pobre encontrou para morar na cidade. Existe cortiço em São Paulo desde o final do século 19." - Evaniza Rodrigues - coordenadora União Nacional por Moradia Popular

— E para vocês irem no banheiro como têm que fazer?
"Nós subimos por essa portinha aqui."
— Ah! vocês tem outra portinha aí.
"É pra subir prá lá. Quer entrar lá?"
— Podemos?
O Sr. pode vir pra cá? - Terezinha e José

Na busca de encontrar uma saída, para os que vivem nos cortiços, surgiram vários movimentos ligados a União Nacional por Moradia Popular.

Um dos seus principais objetivos é acabar com os velhos cortiços e fazer com que essas pessoas ocupem prédios vazios e abandonados do centro da cidade.

"Esses prédios estavam vazios há muitos anos e a gente vê aqui um potencial não de um novo cortiço, mas de uma moradia digna. Ao invés de botar no chão tudo isso aqui para construir moradia nova, que a gente aproveite o que a cidade tem desocupado e faça o que a gente chama de reciclagem de imóveis vazios." - Evaniza

— Kátia, que diferença tem morar num apartamento assim e morar na pensão onde você morava?
"Muita diferença, pra começo a individualidade de cada um, a privacidade de cada um, que no cortiço, no pensionato é muito misturado, tem muita gente que você não conhece, você não sabe o tipo de pessoa.(...) O que eu vejo dessa varanda? Ah... sei lá, as vezes até esperança de estar olhando e conseguir o meu lugar aqui nesse prédio com essa vista." - Kátia

Uma esquina com nome de Ana, uma travessia da avenida São João. Nos anos cinqüentas um prédio de apartamentos onde era quase chic morar. Nos anos noventas um vazio na cidade. Ninguém queria viver na avenida marcada pelo Minhocão.

O monstro na avenida das nossas vidas deixava claro: uma cidade estava sendo feita para o carro, não haveria espaço para nossa humanidade.

No ano 2000 as pessoas voltaram. Gente que pensa, antes de tudo, na importância de um endereço.

Ainda que o Minhocão seja a paisagem da janela.

 

"Eu falo pra minha irmã lá no norte: eu moro numa avenida, o meu terraço dá prá avenida mais famosa do Brasil, é a avenida São João, aquela que tem a música de Caetano Veloso. Isso me deixa muito honrada. (...) O meu endereço é rua Ana Cintra, 123, apto. 21..." - Sonia

"O centro não é ruim porque tem muito pobre, pelo contrário, a classe popular é que está ocupando e fazendo o centro girar economicamente. Então, qualquer proposta não pode ter exclusão, não pode pensar que para vir a classe média tem que sair o pobre." - Evaniza


Depois que cinqüenta e três famílias ocuparam o prédio da rua Ana Cintra o governo do estado, através da CDHU, comprou o prédio para ser reformado e vendido aos sem teto. Isso tudo é feito em parceria entre o governo do estado, o Movimento dos Sem Teto do Centro e a Associação dos Moradores da Rua Ana Cintra.


"Nós queremos uma garantia de que vamos sair e vamos poder voltar, porque nós vamos desocupar o prédio."
— Para reforma?
"Para reformar."
— E vocês querem participar da reforma?
"Com certeza."
— De que forma vocês vão participar?
"Nós queremos saber quem foi a empreiteira, quais as que concorreram, por que aquela ganhou. (...) Todos querem permanecer, esse é o objetivo."
— E vocês querem participar da reforma, mesmo em mutirão?
"Não dá pra ser em mutirão porque o prédio tem onze andares e você sabe que a maioria das pessoas que moram aqui são mulheres sozinhas." - Jaira

Mulheres se apresentam
"Ana Rodrigues, Elza, Maria Alves, Valda, Fátima, Arlete, Lelice, Generosa...'

Essas mulheres já podem imaginar os seus apartamentos neste ar. Aqui, onde ainda é só um terreno da região central da cidade, elas já conseguem ver no papel o que será, como será, como serão.

"O prédio vai ficar desse jeito assim, de tijolo à vista, né? E a prefeitura aprovou cada janela dessa, além de ter a vista, vai ter uma jardineira com as flores que existiam na época do casarão." - Verônica Kroll

"Meu sonho era digamos assim, morar no centro, num apartamento, mas eu nunca tive condições. Realmente eu nunca tive e vou ter agora, se Deus quiser. (...) A gente entrava aqui as 8 da manhã e saía mais de 5 da tarde, uma hora de almoço, 15 minutos pra lanche. Tudo como se fosse um trabalho normal com patrões."
— Quer dizer foram operárias em construção?
"Com certeza." - Valda

— Quem trabalhou no mutirão?
"Eu..." (todas respondem)
— Todo mundo trabalhou?
"Todo mundo." (respondem em uníssono)
— O que vocês fizeram?
"Ah... derrubamos a casa..."
"Cavocamos..."
"Carregamos tijolo, telhas..."
"Arrancamos as privadas..."
"Fechamos buraco..."

Todo mês os futuros moradores se reunem para saber como caminha o processo de construção do edifício.

A CDHU está em licitação para contratar a empreiteira que realizará a obra.

Maria Isabel é a arquiteta que fez o projeto. Ela é uma das coordenadoras da ONG Ambiente e foi procurada pelo Fórum dos Cortiços, representante dos futuros moradores.

"Nós falamos assim, olha Isabel, nós conseguimos ocupar o terreno, estamos negociando, temos a possibilidade de comprar o terreno. Você quer desenvolver um projeto pra gente poder ter alguma coisa concreta? Ela falou, Tudo bem. Só que nós não temos dinheiro pra te pagar Isabel. Ela falou assim, Vamos batalhar junto. Foi bem isso que ela falou pra gente." - Verônica

"Nos interessamos pela qualidade da habitação nessa faixa que é uma faixa de baixa renda e pensando na cidade também. (...) Eu acho que o centro da cidade pode se humanizar muito, não só terminando na construção e jogando o povo lá, aí é inviável. Tem que ter um trabalho também da sociedade, um trabalho que o movimento faz, de pós-ocupação, de não deixar jogado um monte de famílias e não virarem outros cortiços." - Maria Isabel

"Isoladamente parece ser apenas uma atitude pontual, mas se isso é colocado dentro de uma política pública pensada para o centro como um todo, eu acho que começa a fazer sentido e pode ser uma forma de recuperar a dimensão humana do centro que é o que principalmente foi corroído com essa invasão dos automóveis, da publicidade, da exploração, da especulação." - Nicolau

E os futuros moradores do prédio que ocuparão o terreno traçam seus planos nesse espaço de possibilidades.

"Achei maravilhoso. Do jeito que eles falam que vai ter entrada, tudo... porque não ia ter nem elevador. Agora vai Ter, vai ser uma coisa maravilhosa."
— Aonde é que a sra mora?
"É um cortiço, infelizmente... Eles fazem muito barulho. Eu como estudo, gosto de estar bem em silêncio, não dá prá estudar, não dá prá fazer nada."
— A Sra. estuda o quê?
"Eu estou terminando o colégio este ano."
— Quantos anos a Sra. tem?
"Estou com 77." - Anna Rodrigues

E quando vier a transformação da terra, madeira e tijolo em um novo lar, aí virá a felicidade, o estudo, o latim. Um lugar para abrigar a vida e a sua sombra.

— Agora a senhora sonha com o seu apartamento aqui?
'Ah! Eu sonho. Eu quero morrer aqui dentro, se Deus quiser." - Anna Rodrigues




Veja a segunda parte do programa Onde Existe Sombra, Existe Vida



Envie seus comentários e sugestões para o programa: caminhos@tvcultura.com.br

| Caminhos e Parcerias | Frutos |