|
"Eu
falo pra minha irmã lá no norte: eu moro numa avenida, o
meu terraço dá prá avenida mais famosa do Brasil,
é a avenida São João, aquela que tem a música
de Caetano Veloso. Isso me deixa muito honrada. (...) O meu endereço
é rua Ana Cintra, 123, apto. 21..." - Sonia
"O centro
não é ruim porque tem muito pobre, pelo contrário,
a classe popular é que está ocupando e fazendo o centro
girar economicamente. Então, qualquer proposta não pode
ter exclusão, não pode pensar que para vir a classe média
tem que sair o pobre." - Evaniza

Depois que cinqüenta e três famílias ocuparam o prédio
da rua Ana Cintra o governo do estado, através da CDHU, comprou
o prédio para ser reformado e vendido aos sem teto. Isso tudo é
feito em parceria entre o governo do estado, o Movimento dos Sem Teto
do Centro e a Associação dos Moradores da Rua Ana Cintra.
"Nós
queremos uma garantia de que vamos sair e vamos poder voltar, porque nós
vamos desocupar o prédio."
Para reforma?
"Para reformar."
E vocês querem participar da reforma?
"Com certeza."
De que forma vocês vão participar?
"Nós queremos saber quem foi a empreiteira, quais as que
concorreram, por que aquela ganhou. (...) Todos querem permanecer, esse
é o objetivo."
E vocês querem participar da reforma, mesmo em mutirão?
"Não dá pra ser em mutirão porque o prédio
tem onze andares e você sabe que a maioria das pessoas que moram
aqui são mulheres sozinhas." - Jaira
Mulheres
se apresentam
"Ana Rodrigues, Elza, Maria Alves, Valda, Fátima, Arlete,
Lelice, Generosa...'
Essas mulheres
já podem imaginar os seus apartamentos neste ar. Aqui, onde ainda
é só um terreno da região central da cidade, elas
já conseguem ver no papel o que será, como será,
como serão.
"O prédio
vai ficar desse jeito assim, de tijolo à vista, né? E a
prefeitura aprovou cada janela dessa, além de ter a vista, vai
ter uma jardineira com as flores que existiam na época do casarão."
- Verônica Kroll
"Meu
sonho era digamos assim, morar no centro, num apartamento, mas eu nunca
tive condições. Realmente eu nunca tive e vou ter agora,
se Deus quiser. (...) A gente entrava aqui as 8 da manhã e saía
mais de 5 da tarde, uma hora de almoço, 15 minutos pra lanche.
Tudo como se fosse um trabalho normal com patrões."
Quer dizer foram operárias em construção?
"Com certeza." - Valda
Quem trabalhou no mutirão?
"Eu..." (todas respondem)
Todo mundo trabalhou?
"Todo mundo." (respondem em uníssono)
O que vocês fizeram?
"Ah... derrubamos a casa..."
"Cavocamos..."
"Carregamos tijolo, telhas..."
"Arrancamos as privadas..."
"Fechamos buraco..."
Todo mês os
futuros moradores se reunem para saber como caminha o processo de construção
do edifício.
A CDHU está em licitação para contratar a empreiteira
que realizará a obra.
Maria Isabel é a arquiteta que fez o projeto. Ela é uma
das coordenadoras da ONG Ambiente e foi procurada pelo Fórum dos
Cortiços, representante dos futuros moradores.
"Nós
falamos assim, olha Isabel, nós conseguimos ocupar o terreno, estamos
negociando, temos a possibilidade de comprar o terreno. Você quer
desenvolver um projeto pra gente poder ter alguma coisa concreta? Ela
falou, Tudo bem. Só que nós não temos dinheiro pra
te pagar Isabel. Ela falou assim, Vamos batalhar junto. Foi bem isso que
ela falou pra gente." - Verônica
"Nos
interessamos pela qualidade da habitação nessa faixa que
é uma faixa de baixa renda e pensando na cidade também.
(...) Eu acho que o centro da cidade pode se humanizar muito, não
só terminando na construção e jogando o povo lá,
aí é inviável. Tem que ter um trabalho também
da sociedade, um trabalho que o movimento faz, de pós-ocupação,
de não deixar jogado um monte de famílias e não virarem
outros cortiços." - Maria Isabel
"Isoladamente
parece ser apenas uma atitude pontual, mas se isso é colocado dentro
de uma política pública pensada para o centro como um todo,
eu acho que começa a fazer sentido e pode ser uma forma de recuperar
a dimensão humana do centro que é o que principalmente foi
corroído com essa invasão dos automóveis, da publicidade,
da exploração, da especulação." -
Nicolau
E os futuros moradores
do prédio que ocuparão o terreno traçam seus planos
nesse espaço de possibilidades.
"Achei maravilhoso.
Do jeito que eles falam que vai ter entrada, tudo... porque não
ia ter nem elevador. Agora vai Ter, vai ser uma coisa maravilhosa."
Aonde é que a sra mora?
"É um cortiço, infelizmente... Eles fazem muito
barulho. Eu como estudo, gosto de estar bem em silêncio, não
dá prá estudar, não dá prá fazer nada."
A Sra. estuda o quê?
"Eu estou terminando o colégio este ano."
Quantos anos a Sra. tem?
"Estou com 77." - Anna Rodrigues
E
quando vier a transformação da terra, madeira e tijolo em
um novo lar, aí virá a felicidade, o estudo, o latim. Um
lugar para abrigar a vida e a sua sombra.
Agora a senhora
sonha com o seu apartamento aqui?
'Ah! Eu sonho. Eu quero morrer aqui dentro, se Deus quiser."
- Anna Rodrigues

Veja
a segunda parte do programa Onde Existe Sombra, Existe Vida
|