Frutos Caminhos e Parcerias - Início Um Sinal de Deus
Montes Claros (MG) - primeira parte
Ricardo Soares
 

 


Um sinal de Deus é um fim em si, seis dias da criação para um de descanso. Para o crédulo um sinal de Deus não é uma idéia abstrata e sim indivíduos que tem fome, sede, vontade de trabalhar.

 

Um sinal de Deus para os que crêem se manifesta em detalhes mínimos ou em provações máximas. Para o crédulo um sinal de Deus está acima e em todas as coisas. Já para o cético um sinal de Deus é o testemunho de que as injustiças apagam sinais divinos. Para o cético um sinal de Deus não deixa sinais. Para o crédulo e para o cético um sinal de Deus leva a caminhos distintos.

Mas ambos hão de concordar que há um sinal de bons homens e mulheres na ação que tenta nos transformar em seres iguais perante Deus.

Crédulos e céticos haverão de concordar que há bons sinais na ação da Pastoral da Criança que desde 1983 vem ajudando a reduzir a mortalidade infantil no Brasil. Essa ação está presente em todos os estados brasileiros, em 3277 municípios com quase 32 mil comunidades cadastradas e acompanha de perto 1 milhão 571 mil crianças. Isso graças ao trabalho solidário de 145 mil voluntários que a exemplo do que acontece na região de Montes Claros, norte de Minas, salva, alimenta, ajuda, ampara os mais carentes. Inegável sinal de Deus que significa que cerca de 5 mil crianças deixam de morrer todos os anos no Brasil graças a ação da pastoral da Criança.

"Hoje para a gente o mais grave é a desnutrição infantil, em conseqüência da fome e também da seca. Como o norte de Minas chove muito pouco, a essa altura a gente já tem mais de 180 rios completamente secos e as políticas públicas destinadas à essa região, elas são políticas emergenciais e assistenciais, então por não ter uma política de convivência com esta seca, acaba gerando uma migração muito grande, muita fome e sobretudo muita desnutrição" - Carmem Lucia Costa - coordenadora estadual / MG


"Em Minas Gerais, no todo, hoje nós já somos quase trinta e seis mil empenhados no acompanhamento dessas famílias, entre líderes, equipes de capacitação e entre grupos fortes de apoio que a Pastoral da Criança têm identificado por aí."
- Carmem


"Meu marido tem problema de diabete, mancha na coluna e desgaste de osso, ele não trabalha há 15 anos, e, eu vivo naquela batalha; um dia tem faxina, no outro não tem. A gente passa aquela vida difícil. Eu trabalho na feira livre, só no domingo."

— Você vende uma coisinha lá, o que você faz?
"Eu vendo só tempero, corante, é o que eu trabalho, mas agora tem muita concorrência e caiu muito a venda pra mim. Aí eu passo uma dificuldade muito grande, as vezes esses meninos mesmo, a gente tem vontade de ajudar, mas, a vida da gente é de muita baixa renda."

— Quantos filhos você tem?
" São oito."

— Oito? E netos você tem quantos?
" Neto são onze."

— E os filhos estão todos aqui em volta ou foram...
" Os meus filhos estão tudo aqui" - Maria Ferreira

"Nós somos sete comunidades, sendo três comunidades rurais e quatro comunidades urbanas." - Edite Silva - coordenadora paroquial

— Quantos voluntários trabalham com você?
"Trabalham conosco 32 pessoas voluntárias, entre líderes e coordenadores comunitários." - Edite



"Olha, o problema nosso aqui, além da desnutrição, que é o específico que a Pastoral da Criança tenta diminuir, corrigir, trabalhar; a causa principal é o desemprego."
-Edite

 

 

 


"Eu diria que a Sudene foi de início maravilhosa para Montes Claros, de repente, novas fábricas, empregos, muita coisa." - Dom Geraldo Majela - arcebispo metropolitano

 

"Esse inchamento, essa inchação, criou um número muito grande de favelas, de pessoas totalmente desinformadas, na sua maioria analfabetas, pessoas sem cultura, que vieram do meio rural e com isso o número de mortalidade infantil cresceu muito. A gente tem uma região que eu poderia citar, por exemplo, a Vila Castelo Branco, que nesse período, a cada mês a gente perdia uma média de três a quatro crianças de zero a um ano, e na sua maioria, doença facilmente previnível, por exemplo a desidratação" - Carmem


"É, a desnutrição aqui é um dos quadros mais graves, talvez de toda Montes Claros, porque a pobreza ajuda, não é isso? E também a gente não tem esgoto, não tem nada disso."
- João Luiz Ribeiro - coordenador comunitário

— Você tem quantos casos de desnutrição aqui na Castelo Branco, hoje?
"Olha, registrado aqui no meu caderno tem 28 casos." - João
— Esta carteirinha que você está na mão é da...
"Este é o cartão de vacina e de acompanhamento da Aline Aquines Silva, que fez uma cirurgia recentemente, agora em novembro, em Belo Horizonte, com problema... - João

— Ô Maria, o que a Aline tem? Ela teve um problema do coração?
"O médico falou que ela tinha sopro, sopro é igual uma falha que ela tinha, a médica explicou." - Maria, mãe de Aline
— E ela nasceu desnutrida?
"Foi, ela nasceu desnutrida, desde que ela nasceu no hospital, na Santa Casa , as enfermeiras de lá me deram encaminhamento pra conseguir o tratamento dela. Aí eu fui seguindo o tratamento até hoje." - Maria
— Ele ajuda você?
"Ajudou e ajuda muito." - Maria
— E que idade a Aline está?
"Ela tem dois anos e sete meses." - Maria
— E que peso ela está?
"Oito quilos e meio." - Maria
— Ela tinha que estar com quanto, João?
"Para fugir desse quadro de desnutrição ela tinha que estar no mínimo com 14 quilos." - João


— Então, apesar dela estar melhor do que já esteve, ainda está bem longe do ideal.
" No final do nosso relatório de 2000, nós conseguimos recuperar o peso de 72 mil crianças" - Carmem

 

"Nas áreas onde a Pastoral da Criança já atua há mais tempo, a desnutrição é controlada, mas como a gente está sempre inovando, sempre buscando comunidade nova, implantando em outras regiões, eu acredito que ainda existe aí uma média de 22% a 25% de desnutrição" - Carmem



— Esse menino tem quantos anos?
"Ele tem um ano e três meses, e, tem mais um menino além desses três aqui. Eu tenho outro, mas, só que ele fica mais na casa da avó dele, lá embaixo"
— Quantos anos você tem?
"Eu tenho 23."
— E esse menino que você está esperando, você ainda não fez nenhum exame para saber se está tudo bem?
" Nenhum exame."
— Você está se sentindo bem?
"Eu tô, tem hora que eu sinto um estado de nervo, mas passa."
— E aí com o marido desempregado, como é que você dá de comer para as crianças? Como é que você está fazendo?
"A gente come o que os outros dá aqui. Um passa e dá, outro passa e dá, perguntam como é que a gente tá vivendo. Fala que o marido tá desempregado, que não arrumou serviço para trabalhar, né ? " - Rosimeire

"Um outro fator muito bonito da Pastoral, é que na metodologia de trabalho dela, ela não distribui alimento, mas como o quadro social era assim, grave, muita fome, muito desemprego, que claro, isso se repete ainda hoje, mas numa proporção menor, nós começamos a trabalhar os projetos de geração de renda como uma forma de integrar essas pessoas à sociedade." - Carmem



Daqui a pouco a pastoral da criança, como faz em todo o Brasil, sai da cidade e pega a estrada. E Zilda Arns conta seus caminhos e parcerias para fundar e levantar a Pastoral da Criança...


"A Pastoral da Criança teve início em 83 e, após Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo, participou de uma assembléia na ONU sobre a paz mundial, o diretor executivo do UNICEF disse a ele: a igreja poderia salvar milhões de crianças no mundo, se ensinasse às mães a fazerem o soro oral. E quando ele voltou ao Brasil, em maio de 82, ele falou comigo por telefone: -Olha, você não gostaria de pensar?" - Zilda Arns - coordenadora nacional / Pastoral da Criança




Veja a segunda parte do programa Um Sinal de Deus

Tópicos Relacionados:
 

Saiba mais
sobre a região.

Conheça a atuação das entidades Confira as manifestações culturais.


Envie seus comentários e sugestões para o programa: caminhos@tvcultura.com.br

| Caminhos e Parcerias | Frutos |