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Lençóis (BA) - primeira parte
Neide Duarte
 


É uma luz de cegar. O diamante brilha para chamar seu dono. É destino. São as estrelas do céu que escolhem o homem. A pedra tem vida. Espia o caminhar do garimpeiro. Sabe se esconder, sabe se mostrar.




E quando o garimpeiro vê a luz correr na serra ele sabe: é o chamado do diamante. Ele foi escolhido. Homem, diamante e estrela: está fechado o triângulo da magia.

Nasce assim o encantamento.




Foi assim que a vida se criou em Lençóis: no encantado das coisas, no encantado das gentes. No século 18 começaram a chegar os aventureiros atrás de encontrar a pedra mais dura, o cristal mais brilhante. Mas diamante é pedra que pouco dura na mão de quem não tem fortuna.



O diamante é coisa de muita profundeza, por isso só um homem escolhido pelo céu pode ser dono de uma pedra como essa: veículo do tempo. Os diamantes são testemunhas da criação do mundo: conhecem a passagem dos dinossauros pela terra, a formação dos continentes, o mistério da criação dos homens.

Transparentes de tanta eternidade.

Místicos e religiosos, os garimpeiros, procuravam as velhas nagôs para saber, através dos orixás, se eles um dia teriam o merecimento de um diamante. E assim começa o Jarê na cidade de Lençóis, o culto dos negros. Costurada por toda religiosidade vinga a vida na Chapada Diamantina.





"Eu sou Sueli, filha de garimpeiro."
"Márcia, descendente de garimpeiro."
"Marilândia, descendente de escravo e de índia."
"Cristiane, descendente de garimpeiro e minha tia faz jarê."
"Perina, filha de garimpeiro, neta de garimpeiro."
"Rita Azevedo, descendente de escravo, participante de candomblé e a minha mãe faz mesa de São Cosme e São Damião."


Nós não somos só o nosso nome.

A nossa identidade é o nosso lugar no mundo, o que fazemos por destino e por escolha. Os professores de agora, as cidades de agora ainda se misturam com os diamantes que por aqui passaram.




Os diamantes que levaram 2 bilhões de anos para se formar, em 25 anos já tinham praticamente desaparecido da Chapada Diamantina. E foi a decadência dessa história brilhosa e passageira que criou essa cidade e essa gente que agora se apresenta.



Ainda que eu me atrase, ainda que eu não perceba, ainda que eu não me segure.

Caio tem dois anos, mas quer ser da turma, quer fazer parte, quer ser da escola, junto com seus irmãos mais velhos. A escola é a atração maior da comunidade do Remanso, ainda mais depois que o Griô chegou.



"O meu avô veio lá da África(...) É lá depois do mar, muito longe, muito longe. Lá era assim: tinha umas pessoas que gostavam de caminhar de lugar em lugar(...) O nome dessas pessoas, lá nos sertões da África é griô."
- Velho Griô




"O foco do projeto Griô é o professor, mas o professor na sua realidade, da comunidade e da sala de aula.(...) Aí, a gente resgata a brincadeira popular. Ela é super potente. Ela traz em si todo conhecimento, toda uma riqueza que dá forças para a relação do grupo. É uma visão do que é aquele lugar, do que é a vida naquele lugar, do que é construir a roda daquele lugar."
- Lilian Pacheco – coord. do Projeto Griô

 




"À benção Seo Manoelzinho, à benção Salvador, à benção Seo Aurino, à benção Seo Inocêncio, Dona Tonha, Seo Casemiro. Todo o povo do Remanso eu peço licença, minha viola estradeira quer pedir licença, para fazer umas brincadeiras com esses meninos que vivem hoje e com os meninos que já viveram nesse chão."
- Velho Griô

Você fica sentindo que é você mesmo ou uma outra pessoa quando está de griô?

"É um velho. É um contador, por que o griô se mistura de alguma forma, ele nunca está acabado, ele sempre está mudando, se transformando. - Márcio Aires – coord. Projeto Griô




O Griô, criado pela Ong Avante Lençóis, é um dos 127 projetos educacionais do programa Crer Para Ver da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, em parceria com a Natura cosméticos.


"Esse grupo técnico do Programa Crer Para Ver tem uma assessoria de grandes educadores do país que nos apoiam.
- Lilian Pacheco – coord. do Projeto Griô


No círculo está o caminho da história: professor, aluno e lugar.

Sala de aula da professora Marilândia. Comunidade do Remanso. Dia de estudar o descobrimento do Brasil.


Marilândia na aula:

"Depois da história que a pró falou, quem foi que descobriu o Brasil, quem foi?"
"Os índios!"
"Porque os índios?"
"Por que chegou primeiro!"



E essas mãozinhas pequenas vão desenhando o retrato do Brasil que acabaram de descobrir. Ao longe um canto se anuncia, vem misturado ao som dos nossos amigos, que não participam das aulas, mas nos esperam do lado de fora.



O círculo está traçado. O contato está criado.

"A proposta do griô nem é indicar uma única forma, mas apontar que existe outra forma, existem outras possibilidades e que a criança pode retornar a sua brincadeira, retornar a sua essência. - Márcio Aires – coord. Projeto Griô



"Aqui, os próprios negros tem hora que são racistas."
— Como assim?
"Tem uns que acham que por que são mais clarinhos são brancos, no entanto é um negro também e se acha que é branco."
Daqui do Remanso, mesmo?
"Daqui mesmo, das crianças para as crianças." - Marilândia – professora do Remanso



"Eu sou branco."
"Sou branco."
"Sou branca."
"Não me acho nem branca, nem negra eu me acho um pouco morena."


Na hora da merenda nova roda se prepara, no centro a mandioca, a cana de açúcar, o dendê.

Há 3 meses não tem merenda nas escolas da Chapada Diamantina, esta foi uma oferta especial da comunidade do Remanso para as suas crianças.



"O nome de Remanso segundo as histórias do pessoal, se dá por causa do encontro dos dois rios que temos aqui, logo ali embaixo. Que é o rio Tinga com o rio Santo Antonio. Quando as águas se encontram primeiro têm que fazer aquele giro, gira, gira, gira, para poder descer."
- Natalino



"Eu acho que o griô é uma busca de uma utopia na educação. (...) Quando um pai fala sua história na escola, a gente vê que essa é a verdadeira ciência e essa ciência precisa dialogar com a ciência que está escrita no livro, para questionar e rescrever a história."
- Lilian Pacheco – coord. do Projeto Griô

E o que a senhora acha da sua neta dar aula ali na escola?
"Ah... eu acho bom demais... quando foi uma vez que ela não pôde vir eu fiquei toda triste por que ela não veio. Quando ela está aqui eu ficou toda enfazeirada, meus netos eu gosto até mais do que meus filhos."
— Quando a senhora era criança não tinha escola aqui?
"Aonde? Eu não sei nem assinar o meu nome... aqui não tinha." - Vó de Marilândia


Na caçamba...

— O que aconteceu?
"Bateu na pedra. O pneu pegou na pedra ali do lado."
— Sempre acontece isso?
"Não, às vezes acontece de vez em quando bate nuns... É, tem que ter costume porque se não tiver..."






Imagem caminhão:
"Se Deus é por nós quem será contra nós."

 




Veja a segunda parte do programa Semente do Encantado

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