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Guaraqueçaba (PR) - primeira parte
Ricardo Soares
 



  

Se o inferno são os outros, onde fica o paraíso ?
Se o inferno é aqui mesmo, onde fica o paraíso ?


O inferno não muda de endereço mas o paraíso pode ficar em muitos lugares. A mão do homem é que constroe infernos e, quando quer, preserva paraísos. Um deles fica na área de preservação ambiental de Guaraqueçaba, com 313.400 hectares, no litoral norte do Paraná, a 150 kms de Curitiba.



Ela foi criada por decreto federal em 1985 e é hoje a maior faixa contínua de mata atlântica do Brasil. Suas florestas, restingas e manguezais são as que se encontram em melhor estado de conservação de toda a costa brasileira.




À primeira e à segunda vista tudo é bonito na natureza num lugar como esse, a gente não sente pela televisão o mosquito, o mormaço e também não se vê nenhuma espécie de conflito em jogo, aqui numa área como essa a nossa tentativa é mostrar os interesses e conflitos numa área de proteção ambiental.


A APA (Área de Proteção Ambiental) de Guaraqueçaba tem como limites a divisa dos estados do Paraná e São Paulo, a estrada BR 116, a cidade portuária de Paranaguá e a Ilha do Mel. O único acesso por terra é a estrada Antonina-Guaraqueçaba / PR 405.


Nós estamos percorrendo aqui um dos trechos difíceis da estrada que leva do trevo de Antonina até Guaraqueçaba. A principal estrada aqui da APA de Guaraqueçaba tem 85 km e a gente leva duas horas e vinte em média para ir do trevo de Antonina até Guaraqueçaba.
A dificuldade de percorrer esta estrada dificulta o escoamento da produção, mas tem uma polêmica em relação ao assunto, o Ibama rejeitou quatro mudanças no trajeto desta estrada, porque o trajeto original dela são 85 Km e são muito difíceis, e trajeto modificado o Ibama não aceitou porque agrediria muito mais o meio ambiente.

Ao longo dessa estrada difícil ficam alguns dos projetos que tentam manter a preservação desse paraíso. Uma estrada difícil, que se estivesse mais fácil ajudaria a escoar melhor a produção mas provavelmente já teria trazido muito mais estragos a essa área de proteção ambiental. Contradição em que vive há quase três décadas o fazendeiro Ivo. Gaúcho radicado no Paraná, proprietário da Fazenda Ana Terra, ele cria búfalos respeitando a natureza, em um projeto em parceria com a Sociedade de Pesquias em Vida Selvagem e Educação Ambiental, a SPVS, sediada em Curitiba. Seu Ivo é um modelo para toda a região.


"A natureza retribui a gente na medida que também a gente trabalhe considerando e respeitando a natureza, porque se trabalhar depredando ela naturalmente ela reage e você sai perdendo"
- Ivo Almeida - pecuarista

 


"A fazenda são 200 alqueires dos quais tem 111 alqueires abertos, eu deixei uma percentagem bem superior da exigida por lei, os exigidos aqui seriam 40 alqueires e eu deixei 63 alqueires de reserva porque já é um terreno dobrado."
- Ivo


O contrato que nós estabelecemos para essa parceria, ele tem dez meses agora, faz dez meses que a SPVS e a fazenda Ana Terra trabalham juntos."
- Tom Grando - biólogo


"É importante saber o seguinte, os rios da serra do mar aqui no litoral do Paraná são rios de muita força, quando eles enchem, eles vêm com muita energia da serra e quando eles batem nas margens eles tendem a causar degradação, se a floresta estiver colocada na margem, estiver bem consolidada e estiver conservada naturalmente este fenômeno não vai ocorrer, mas em alguns casos, principalmente dentro das fazendas de búfalo, as margens dos rios não estavam protegidas e os búfalos acabavam por avançar na floresta. Não há orientação nenhuma, consequentemente há um desmoronamento, assoreamento do leito do rio e as vezes até da própria baía que vai receber esse rio no caso a baía de Paranaguá."
- Tom

"Deus perdoa sempre, o homem perdoa às vezes e a natureza não perdoa nunca." - Ivo


Com a natureza perdão é igual preservação. Isso é o que pretende a Fundação O Boticário de Preservação da Natureza, que mantém a reserva de Salto Morato, uma área de 2.340 hectares no coração da APA de Guaraqueçaba.

 

 



A cachoeira de Salto Morato que fica dentro da reserva de 2.340 hectares, a reserva de Salto Morato que pertence à Fundação Boticário talvez seja o exemplo mais evidente dos motivos que devem continuar levando o homem a ficar longe daqui.


"Na APA de Guaraqueçaba, a Fundação trabalha basicamente com essa reserva aqui e também com a comunidade do entorno da reserva. A idéia é essencialmente manter aqui uma unidade de conservação modelo, segundo o conceito técnico e legal de parque, embora seja uma RPPN - Reserva Particular do Patrimônio Natural, nós trabalhos com o conceito de parque e, dentro desse mesmo contexto, trabalhamos com a comunidade do entorno, promovendo o desenvolvimento sócio-econômico integrado e totalmente casado com a idéia de conservação."
- Miguel Milano - Diretor da Fundação O Boticário


"A reserva se encontra na Floresta Atlântica, é um dos biomas mais ameaçados que a gente tem aqui hoje no Brasil e é um dos mais ricos também, você encontra por hectare um número maior de espécies neste tipo de floresta do que na Floresta Amazônica, por exemplo"
- Zé Aurélio - Gerente da Reserva de Salto Morato


"Além disso, especificamente com a comunidade vizinha, iniciamos um programa de artesanato que passou por várias fases, artesanato de marionetes, artesanato de bambu e no final artesanato de fibras e cestaria, que é o Boticário o principal cliente até o momento. Sabemos que esse é um mercado limitado, vai ter um tempo que vai deixar de existir, por isso estamos nos preocupando em transformar essa atividade numa coisa muito mais rentável, criando e ajudando, na verdade, a comunidade a criar uma cooperativa de artesãos aqui da comunidade e com isso dar um passo comercial pra fora do Boticário."
- Milano

— Em quantos vocês são?
"Somos uma comunidade de trinta e poucas famílias."
— E todas as famílias fazem esse trabalho?
"Todas as famílias trabalham neste trabalho aqui."
— Quantas peças vocês produzem por mês?
"Por mês varia, dá umas 900, 800 peças."
— Com o Boticário vocês garantem a compra da produção. 900 peças por mês, é uma produção grande, então?
"900, 600, é uma produção variada, é uma produção grande sim." - Juvelino Constantino - Associação de Artesanato / Vila Morato




Não muito longe dali, na cidade de Guaraqueçaba...





— Qual é a restrição que vocês têm em relação ao trabalho da Fundação O Boticário?
"Nós aqui, os associados, envolvemos o município todo, então nós temos artesãos que moram em Salto Morato que antes de fazerem artesanato para o Boticário faziam na associação aqui e hoje eles não estão mais participando da associação produzindo artesanato para o Boticário em grande escala, que acaba fugindo do plano de manejo e leva também ao extrativismo, em excesso pode faltar algum material." - Gilson Anastácio - artesão


"Bom, antes daqui o nosso serviço era trabalhar em tudo quanto é coisa, era com lavoura, era com palmito, que antes tinha fábrica em Guaraqueçaba, por aí, porque não tinha a reserva aqui, então tinham as fábricas por aí e a gente trabalhava, tirava os palmitos, levava de canoa mesmo para Guaraqueçaba, né."
- Anésio


"E a Fundação nasceu essencialmente voltada para fazer financiamento de projetos de pesquisa e conservação em todo o Brasil. Esse é o projeto principal da Fundação, sempre foi e, através desse programa, nós já financiamos até hoje mais de 700 projetos em todo o Brasil, em todos os estados brasileiros."
- Milano



"Criamos um centro de capacitação, que vem trabalhando com capacitação de pessoas nos últimos três anos, dois anos e meio. Mais do que meio ambiente, essencialmente voltada para a questão de parques e reservas nas unidades de conservação em todo o Brasil."
- Milano

 




Veja a segunda parte do programa Caminhos Atlânticos

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