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CIDADE:
TANCREDO NEVES
CASA
DE FARINHA, DIA

"Prá tudo tem o dom, né? O dom de cantar ou o dom de
chorar, mas a gente tem o dom de cantar.
Então a gente fazia isso pros dias passarem assim, mais rápido".
- Valdomiro da Silva - fazedor de versos
Amassar, desfazer os nós, transformar o estado da mandioca.
O começo
da farinha que se anuncia.
Sua dança,
seus usos, sua casa entre as nossas casas.
Torcer pelo Bahia
e espiar a mãe como nos ensina: amassar a massa, de todo dia. A
mandioca na nossa vida. A nossa vida numa casa de farinha.
Quantos anos você
tem?
"Nove".
E
o que você faz aqui?
"Raspo a mandioca".
Você
vem sempre aqui?
"Venho".
Todo
dia?
"Sim".

"Aí, quando eu comecei a engatinhar pronto, desde um ano de
idade a gente já estava habituado ao plantio de mandioca. Como
diz o burro, eu nasci os dentes na casa de farinha, trabalhando".
"A
oportunidade de emprego aqui é pouquíssima, como a gente
aprendeu na oficina do Jovem Empresário, que emprego não
existe, a gente tem que fazer". - Cláudio Menezes

"A preocupação é organizar a cadeia produtiva
da mandioca, que é uma cadeia na qual todos vinham perdendo. Então,
com o trabalho da Aliança e dos parceiros, nós estamos começando
pela organização social. A partir dessa organização
foi criada a cooperativa". - Adonias de Castro
CIDADE: TANCREDO NEVES
ROÇA
DE MANDIOCA, DIA
"É
que pobre não pode armazenar nada, né? Porque o que fez
já é pouco e não pode armazenar, se armazenar a gente
vai ter falta mesmo".
"Vamos ter
fé que a cooperativa vai incentivar muita gente, eu ainda acredito
que a cooperativa ainda vai dar um ponto final em tudo isso".
"Eu pensei,
Valdomiro, se a cooperativa pra levantar tanta mandioca que a gente tem
ia perder tudo".
"Vamos arrancar
mandioca então, vamos lá".
A cooperativa fez
um contrato com esta indústria farinheira, que estava ociosa. Aqui
se faz cinco toneladas de farinha de mandioca por dia. Produção
de 150 lavradores associados, que assim evitam o atravessador. O trabalho
de transformar a mandioca em farinha é feito por 24 funcionários
da cooperativa. Eliane, essa garota de 21 anos é a presidente.
"O meu sonho
hoje é ver a população tancredense com uma vida melhor,
todo mundo ter seu direito reconhecido. Eu pretendo me formar e voltar
a morar aqui. Futuramente quem sabe ter um cargo político na cidade".
- Eliane de Oliveira - Presidente da Cooperativa
"Os
adolescentes com os quais nós estamos trabalhando se eles quiserem
sair dessa microrregião, que eles saiam por opção
e não por obrigação. Hoje esses jovens estão
sendo praticamente obrigados a procurar outras cidades para continuar
seus estudos. O que a gente espera é que esses jovens possam ficar
nesses municípios, nessas microrregiões, participar do desenvolvimento
delas e encontrar aí um futuro". - Márcia Campos
- gerente de projetos Odebrecht
Sábado,
dia de feira em Tancredo Neves. Por enquanto
Eliane, a presidente da Cooperativa, que sonha ter um cargo político
na cidade onde nasceu, ajuda a tia na barraca de roupas. Ela vai se formar
professora dentro de um ano. Enquanto isso vai levando a sua vida. Atravessa
um longo caminho de terra todos os dias até a estrada, depois espera
a lotação debaixo da jaqueira assombrosa.
Aqui tombou um pau
de arara e morreram sete pessoas. Desde então o lugar ficou conhecido
como a jaqueira do assombroso.
Você vai ser professora, então?
"É,
no momento, mas eu pretendo fazer faculdade futuramente".
Tem
muitos jovens na sua cidade que fazem faculdade ou que fizeram faculdade?
"Não,
hoje nós temos um jovem que conseguiu passar no vestibular, que
faz pedagogia em Valença".
Um só?
"Um
só, a população tem 20 mil habitantes na cidade,
só um jovem passou no vestibular".
E tem muitos
jovens que saem da cidade e vão para uma cidade maior?
"Sim,
no ano passado entre 1999 e 2000, saíram 63 jovens para São
Paulo".
- Eliane de Oliveira - Presidente da Cooperativa

"Eles acham que aqui a gente está no interior, a gente não
é valorizado, né? Eles ainda não têm essa consciência,
eles acham que na cidade grande eles vão ser valorizados, mas na
verdade depois que eu vivi isso eu descobri que eu posso ser uma pessoa
de valor aqui". - Eliane de Oliveira - Presidente da Cooperativa

Eu fui ajudante na tenda de Vulcano, eu viajei por detrás do oceano
e tudo isso eu faço sem trabalho. Pois como é que agora
me atrapalho com este pobre cantador pernambucano.
Isso é
seu?
"É, isso é da gente".
O senhor escreve
essas trovas?
"Não,
eu gravo na cabeça. Fica comigo
mesmo na cabeça". - Valdomiro da Silva - fazedor de
versos

"Eu fui ajudante na tenda de Vulcano, eu viajei por detrás
do oceano e tudo isso eu faço sem trabalho. Pois como é
que eu agora me atrapalho com este pobre cantador pernambucano".
- Valdomiro da Silva - fazedor de versos

Veja
a segunda parte do programa Uma cor no retrato branco e preto
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