Frutos Caminhos e Parcerias - Início Levantados do Chão
Itapipoca (CE) - primeira parte
Ricardo Soares
 


Trecho inicial do romance "Levantado do Chão" - José Saramago


"O que mais há na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem duvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda."

 

Seu Zeca e família rezando o terço ...

Foi preciso muito terço, muito suor, mãos calejadas e disputas na justiça para que os levantados do chão do assentamento Maceió, perto de Itapipoca, interior do Ceará, tivessem direito a morar, colher, viver e morrer na terra onde nasceram. Uma terra antiga, de antigas lembranças onde gerações distintas tem o desejo comum de ficar e se multiplicar.

— Você nasceu aqui?
"Nasci." - José Auri

— E sua família?
"São todos do assentamento."

— Seu pai é pescador e você preferiu virar técnico agrícola, por quê?
"- Eu acho que é melhor. Porque pescador todos aqui são, e para trabalhar na agricultura talvez precisem de gente mais experiente para trabalhar na área."
— Você pretende morar aqui?
"Eu pretendo."
— Casar, ter filhos, tudo por aqui?
"Isso faz parte do currículo da gente."
— Já tem pretendente?
"Eu sou solteiro ainda, em busca de uma noiva ..." - José Auri

Mostra a família do seu Zeca.

"Eu nasci e me criei lá no Apiques. Me casei em 49. José Pedro de Souza." - seu Zeca

— Todos aqui conhecem o sr. como tio Zeca?
"Outros também me chamam de Zeca Lóra, porque minha mãe se chamava Laurentina, e aí o pessoal chamava de Lóra. O pessoal só me conhece pelo apelido."

— E sua mãe e seu pai também eram daqui?
"Eram."
— É tudo gente da roça?
"É."
— E o sr. mora com quem?
"- Com minha mulher."
— Toda noite o sr reza, o sr reúne a família e reza o terço?
"Sempre será aceita a pessoa que rezar o terço. Deus ouve o pedido do pecador." - seu Zeca

 

Apesar da fé, o milagre da multiplicação e propriedade da terra do assentamento Maceió não caiu do céu...

Além da devoção, luta... além da luta, perseverança... além da perseverança aprendizado.

Porque depois de muito embate judicial trabalhadores rurais que sempre dormiram empregados até 1985 acordaram patrões em uma área de 5.844 hectares desapropriada pelo Incra.

 

Ela abriga 632 famílias de assentados e agregados mais 3 associações, uma cooperativa, uma boa safra de problemas e outra boa colheita de soluções que se tornaram viáveis através de caminhos muitas vezes tortuosos e parcerias.

A primeira delas com o Cetra - Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria do Trabalhador, cuja ação foi vital no processo de desapropriação das terras do assentamento Maceió. O Cetra foi fundado em 1981 por um advogado e uma assistente social, ex- militantes da esquerda católica, para organizar e orientar trabalhadores rurais em relação aos seus direitos sobre a terra. O Maceió não é o único assentamento onde o Cetra atua no estado do Ceará.

"Eu sou fundadora do Cetra e nós fundamos em 81 a partir de um trabalho que fazíamos voluntariamente junto a agricultores a partir de 78, e o trabalho foi crescendo e se fundou o Cetra. Eu contribuía elaborando relatórios, fazendo projetos, articulando, esse era basicamente o meu trabalho, como diretora eu faço a mesma coisa, continuo articulando em nível regional, local e nacional, articulando com as agências de cooperação internacional, isso em função do Cetra." - Margarida Pinheiro

"Nós temos quatro organizações da cooperação internacional e estamos tentando, o que não é fácil, conseguir apoio em nível de Brasil. É complicado, mas mesmo assim nós conseguimos, fizemos uma parceria com o FAT, tivemos um projeto grande com a SUDENE, e tivemos um anterior com o UNICEF que resultou num equipamento social que tem lá na cooperativa onde vai funcionar a rádio e a biblioteca. Nós temos CCFD na França, que é o comitê católico contra a fome e para o desenvolvimento, temos no Canadá, temos também da Bélgica e temos a Aiko da Holanda." - Margarida

Na região de Itapipoca, nessa parte norte do Ceará a quase 140 quilômetros de Fortaleza, Maceió não quer dizer a capital de Alagoas. Aqui todo mundo sabe que Maceió é o assentamento que às duras penas vem tentando provar a muitos que não acreditam que é possível trabalhadores rurais levarem adiante uma bem sucedida experiência de reforma agrária. O assentamento Maceió se divide em 12 comunidades. Cada qual com sua história de trabalho, de batalha e de amor pela terra.


Os nomes das 12 comunidades onde vivem mais de 5000 pessoas no assentamento Maceió são: Barra do Córrego, Lagoa Grande, Jacaré, Mateus. Bode, Bom Jesus, Sítio Coqueiro, Córrego da Estrada, Córrego Novo, Humaitá, Maceió, Apiques.


"Eu nasci lá no Apiques, me casei em 49..."
- seu Zeca

"Aqui na comunidade eu sou o presidente da Associação dos Pescadores do Imóvel Maceió, a ASPIM.

Na associação nós temos 62 pescadores, a vantagem que o pescador tem de ser associado é porque eu estou regularizando essas pessoas, os pescadores profissionais que já pagam há três anos a carteira do Ibama com a colônia, ele é um assegurado do INSS, esses aí eu assino a ficha e vai encaminhado para ele receber o seguro." - Assis



"Meu velho bisavô é daqui, meu velho avô é daqui, meu pai é daqui e eu nasci e me criei nesse pedaço de chão."
- Assis





Mas apesar do esforço de Assis e seus associados a vida dos pescadores não é fácil na comunidade de Apiques. Por falta de energia que garanta a refrigeração da pescado, boa parte do lucro que o mar traz não pode ser conservado no assentamento e cai na mão dos tubarões atravessadores.

 

" Falta é um apoio do governo, uma ajuda pra que eles colocassem energia pra cá." - Assis

— Aí não precisaria passar pelas mãos dos atravessadores, né?
"É, e nós abasteceríamos nosso assentamento, porque a gente precisa muito." - Assis

"Aqui tem três qualidades de algas: o fino ou lodo como é conhecida aqui, o grosso e o palha. É muito barato, custa trinta e cinco centavos o quilo. A alga tem muita utilidade, serve para xampu, fazer adubo para as plantas, pelo que a gente ouve falar também dá pra fazer comprimido, macarrão, geléia, uma geléia de primeira, inclusive aqui no estado do Ceará, em Capuí parte da merenda escolar é feita de algas." - Vera Lúcia de Souza

 




Veja a segunda parte do programa Levantados do Chão

Tópicos Relacionados:
 

Saiba mais
sobre a região.

Conheça a atuação das entidades: Confira a manifestação cultural.


Envie seus comentários e sugestões para o programa: caminhos@tvcultura.com.br

| Caminhos e Parcerias | Frutos |