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São Paulo (SP) - primeira parte
Neide Duarte
 


    

Cinza são as aves da cidade. Cinza a geometria. Cinza os bancos da praça. Cinza os canteiros onde imaginamos árvores.

Cinza vagão de trem, cinza bala de revólver, cinza de tantos ratos, cinza elemento vazado.

Tons de cinza para o nosso olhar. Uma plantação de orelhões. Um vermelho emergência. Um amarelo a indicar o caminho. A biruta que nos orienta.

Mensagens invisíveis estão no ar. Palavras, desenhos, sinais, tudo o que ainda não sabemos. Notícias passam por nós e não vemos.

Na grande cidade tudo é monumento.
Na grande cidade tudo é movimento, até mesmo quando estamos parados.

A grande cidade não planejou lugares acolhedores prá nós, não pensou nos nossos encontros, na nossa solidariedade.

Assim, tivemos que ser criativos.

Homem: "Eu estou precisando de uma perna mecânica."
Sara: "Presta atenção: se o senhor for até o serviço social, a assistente social da prefeitura vai cadastrar você para conseguir essa doação, o senhor sabia disso?(...).
Aqui na zona leste tem 4 mil vagas de telemarketing, se quiserem passo agora o telefone pra vocês."


Sara é advogada. O trem de subúrbio é o seu meio de transporte. Lugar de muitos apertos. Foi justamente por causa de tanta proximidade que ela, ouvindo a conversa alheia, resolveu um dia participar.

E assim inventou uma maneira de ser solidária.

"É sempre muito informal, os passageiros do trem não são meus clientes, eu não sou advogada deles, não conduzo causas, são informações do dia a dia. Desde instruções para as mulheres fazerem pré-natal, a importância de pré-natal, vacinação, até informações de como obter aposentadoria, os direitos trabalhistas que as pessoas desconhecem..." - Sara Bertolino - Advogada e voluntária

— Por que você resolveu fazer esse tipo de trabalho?
"Olha, eu sou bastante falante e eu sou uma pessoa que não gosto das coisas do jeito que elas são, eu gosto de mudar e de tentar fazer, de alguma maneira de transformar (...). Outro dia eu encontrei uma senhora que e ela tinha conseguido resolver um problema, ela falou: Ai que bom te achar, eu resolvi!!!"

— E o que você sente nessa hora?
"Dá uma emoção muito grande, tem uns que às vezes compram um refrigerante ou uma cerveja e vamos brindar no trem." - Sara

"A gente tem sempre esperança de que vai melhorar, vai melhorar, só que essa periferia é sofrida demais. Se você olhar pela janela vai ver as diferenças sociais, você vai ver que o povo mora mal, come mal, vive mal, o transporte é ruim, não tem acesso à saúde, não tem nada. Então, quando você olha assim você fala: meu Deus do céu é muita coisa pra resolver. (...) Uma vez me perguntaram: você não acha utópico isso que você faz? Eu falei não. Porque se de cada um milhão de pessoas eu conseguir minimizar o problema de uma, para mim já está bom. Eu faço a minha parte, se cada um tentasse, de alguma maneira, ajudar quem está próximo isso seria uma rede e a gente ia melhorando a situação". - Sara

 

Multiplicar a solidariedade. Foi pensando nisso que se criou o Centro de Voluntariado de São Paulo.

Ele foi criado a partir do Conselho da Comunidade Solidária em parceria com a Unesco, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Fundação Kellogs.


A sede funciona numa sala emprestada no prédio da Fiesp, e o Banco Itaú e o Mastercard dão apoio técnico-financeiro.

 

"O nosso objetivo maior é incentivar o trabalho voluntário e consolidar essa cultura do voluntariado no nosso país, especificamente na cidade de São Paulo. Nós não temos essa prática muitas vezes por não saber como fazer, aonde ir, qual a organização social idônea aonde eu possa dedicar o meu trabalho. Então, o Centro surgiu para que pudessemos orientar essas pessoas. Olha, a criatividade não tem limite, cada um tem que inventar um jeito de ser voluntário." - Maria Amália MUneratti - Coord. Centro de Voluntariado de São Paulo

Toulouse já está atrasado, amarrado no trânsito. Chiquinha está apressada para sair de casa. Eles estão indo para o trabalho: são cachorros terapeutas. A tarefa é divertir crianças doentes numa entidade assistencial.

Priscila é zootecnista e adestradora de cães. Ela sempre quis fazer um trabalho voluntário e achou um caminho dentro da sua profissão.


"A gente está montando uma ong, a idéia é colocar todos os trabalhos que os cachorros conseguem fazer pela sociedade. (...) Por que os cachorros têm essa qualidade de estimular a socialização entre as pessoas que estão em volta, sabe? Você coloca um cachorro ou qualquer outro animal numa sala, as pessoas interagem mais." - Priscila Lotufo - zootecnista e voluntária


Enquanto Toulouse e a Chiquinha brincam lá fora, Maria Helena frita bolinhos de chuva.
Ela também é uma voluntária.

"Foi uma coisa útil, como eu fico sozinha o dia inteiro, eu procurei alguma coisa para fazer, então eu procurei ser voluntária." - Maria Helena Bernardes - voluntária

Maria Helena vem três vezes por semana cozinhar nesta casa. Aqui chegam, de toda parte do Brasil, crianças com câncer, que esperam tratamento em hospitais públicos.

"Eu perdi um marido com câncer, então eu achava que ele foi muito novo, com 55 anos e não é isso, tem criança mais nova que já foi embora. Então é uma coisa útil que eu achei. Eu tomava oito comprimidos por dia de depressão, aí eu comecei a frequentar aqui, agora eu não tomo nenhum, é um alívio sabe, é uma alegria..." - Maria Helena

 

Simba, Thor, Luna, Cocó, Batatinha, Cainá. É domingo e eles vieram visitar os idosos do asilo Ondina Lobo.

Luna anda pelo asilo procurando novos carinhos. Cocó está atordoada não encontra o colo que perdeu. Batatinha é resignada: passará de colo em colo e manterá a mesma tristeza.

"A gente sente a necessidade de fazer alguma coisa, esses nossos amigos aqui sentem falta de carinho, sentem falta de atenção, os cachorros são muito sinceros e eles proporcionam isso de uma forma bem carinhosa e também é um pretexto: o cachorro vem e a gente acaba ficando amigo deles também, então é uma união nós, donos dos cachorros, os cachorros e esses nossos amigos aqui." - Roberto Crivelli Jr - designer gráfico


"Tenho saudade do tempo da infância, né? Linda, linda, linda, é linda..." - Ana Pikchelis - contadora


Ana e seus dois irmãos moram no asilo para pessoas carentes há 16 anos.


"O plano Collor bloqueou o dinheiro da compra da nossa casa, era uma herança que nós tinhamos de receber, vendemos numa hora má. Ficamos sem casa, e eu, brasileira, sem casa, não me conformo." - Ana Pikchelis

"Se eu pudesse, teria todos os cachorros comigo. Adoro. (...) Não, eu não recebo visita de ninguém. Eu recebo vocês e outros acompanhantes que vem aqui visitar a gente. Mas da minha família não tenho ninguém pra vir me visitar aqui." - Maria do Carmo Fernandes



"O animal nada mais é do que uma ferramenta de vida da gente. Hoje em dia as pessoas estão percebendo que eles são parceiros de tratamento, parceiros de amizade, de solidão."

— Por que você acha que o encontro dos cachorros com os idosos faz bem?
"Muito bem, faz bem para o idoso, para o cão e para a gente que está trazendo o cão." - Jerson Dotti - executivo e voluntário

"A gente precisa carinho, né?, todo mundo precisa de uma pessoa, precisa de carinho, toda pessoa precisa de carinho, né?" - D. Balduína

      

 




Veja a segunda parte do programa Voluntário: Destino de Cidadão

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