Frutos Caminhos e Parcerias - Início Cria da Bahia
Salvador (BA) - primeira parte
Ricardo Soares
 


Aqui tudo se cria e pouco se copia. Coqueteleira de poesia, Portugal e África é a Bahia, cartão postal do Brasil em ritual de fantasia. Soluções criativas em meio a tanta alegoria aqui tudo se cria na mais fina companhia.

Imagem para exportação tá valendo, acarajé temperado com todo turista comendo aqui até a utopia continua acontecendo. Essa é a história que vem se sucedendo e é ela que vamos contar pra muita gente ficar vendo.

Multiplicar o bom exemplo para ver mais gente fazendo. Em terra que tudo se cria vamos saber de perto o que é o Cria da Bahia.

 

"O Cria é uma ONG, uma organização não governamental, sem fins lucrativos, que trabalha com arte educação. A gente começou em 94 e é resultado de um trabalho que eu já desenvolvia com os jovens, com teatro principalmente, em escolas e educadores também. Então, na verdade, em 94 eu consegui um apoio, uma bolsa da Fundação MacArthur, organizei uma equipe e a gente deu continuidade a um trabalho já desenvolvido nas escolas públicas e com o trabalho central no teatro feito com os jovens." - Maria Eugênia Milet

A indústria do turismo na Bahia, e especialmente em Salvador, têm-se revelado competente para atrair visitantes do Brasil e do mundo inteiro. Mas a capital dos baianos não é só a reunião de lindas paisagens, ladeiras históricas, aromas diversos, carnaval animado e baticuns. Há cenários dentro e ao redor de Salvador que escapam das teleobjetivas dos estrangeiros e revelam as mazelas comuns às grandes capitais brasileiras.Negativos de um filme que não interessa mostrar aos turistas e abriga toda sorte de contrastes, ausência de serviços básicos e abandono por parte do poder público. Ao multiplicar a consciência de cidadania o Cria pretende aproximar a Salvador oculta da Salvador visitada pelos olhares turísticos.


"Aqui falta muita coisa: a escadaria, a rede de esgoto, muita coisa, uma melhoria boa no bairro. Pra gente que tem criança, muita criança aqui, precisa muita melhoria mesmo, principalmente a escada, a escadaria está precisando." -
Antonio

 

Antonio é vizinho de Marileide no Sussuarana. Marileide se divide entre essa Salvador que ninguém vê e a capital baiana que todo mundo gosta de olhar. Funcionária do Cria, onde começou na limpeza, hoje ela e o filho Danilo tomam parte de um dos grupos de teatro e levam para a prática o conceito de multiplicadores, razão e objetivo principal do Cria.

 

"Eu trabalho no Cria, eu sou assistente administrativa. Quando eu entrei no Cria em 94, eu fazia a limpeza lá do Cria. Eu sempre tive muitas oportunidades no Cria, quando eu entrei no Cria eu ficava com medo de tudo, aí as pessoas de dentro do Cria foram mostrando pra mim que eu não era mais uma, entendeu? Que eu não era mais uma no mundo, que eu cheguei ali no Cria pra contar minha história e pra deixar minha história ali." - Marileide

Danilo e Marileide , filho e mãe em cena, não são exceção dentro do Cria. Um dos grupos teatrais é justamente composto por pais e filhos. E a peça por eles encenada leva o sugestivo nome de Diálogos.

"Eu era um cara fechadão, certo? Eu chegava em casa do trabalho e ia pro trabalho de novo, chegava cansado, ia só pra dormir, durante o dia descansar, e pra minha mulher eu dava o dinheiro pra comprar as comidas, os negócios, e não me preocupava com nada, reunião do colégio, esses negócios." - José

"Ele saia de casa e dizia: - Eu vou pro Cria. Eu dizia: - Que diabos esse menino faz tanto no Cria?. Eu perguntava pra mãe dele: - Você já foi lá saber que negócio é esse de Cria? Vou pro Cria. Vou pro Cria, todo dia isso? Aí quando foi o dia da reunião, falaram que pai podia aparecer; a mãe dele, ela é toda fechadona. Eu disse: - Eu vou. Pode ir? Pode, é pai pode ir. E, foi numa dessas reuniões que surgiu isso aí." - José

"Mudou completamente, hoje em dia ele escuta mais os meus irmãos, a gente fala mais das nossas dificuldades em família. Então, falamos das questões da adolescência, o que está vindo aí, o que tá pegando, ele ficou muito mais amigo também." - Joselino

Pais e filhos, mães e filhas compartilhando o mesmo palco. Outras mães mesmo não estando em cena e atuando em outros tabuleiros acompanham de longe e apoiam de perto.

"Eu ainda não fui no Cria ver o trabalho dela, entendeu? Porque toda vez que ela tem reunião ou que ela está fazendo alguma coisa no Cria, justamente eu estou aqui trabalhando, é dia de semana, e eu não posso sair daqui em dia de semana. Aí ela chora e diz: - Ah minha mãe teve uma peça e a senhora nunca pode ir, todo mundo vai e a senhora não vai. Eu falei pra ela: - Você tem que entender uma coisa, que se eu sair daqui durante a semana me atrapalha." - D. Dete

"O meu objetivo de estar aqui dentro do "Pais e Filhos" é realmente isso, é trazer minha mãe, eu não tenho nenhum familiar de sangue aqui e tal, mas pra mim todos, todos aqui são a minha família. Mas, o meu objetivo é fazer com que minha mãe participe, venha me assistir, com que minha mãe participe do Cria, venha para as reuniões do Cria, meus irmãos, que os meus familiares sangüíneos estejam perto" - Ana Paula

 


"Bom, a gente tem uma faixa etária de 12 a 17 anos, tem que estar estudando, não importa a série, mas assim, a escola é fundamental, esteja a escola do jeito que estiver, é a escola que temos e nós precisamos dela. E acima de tudo tem que ser um adolescente inquieto, né? Inquieto com a sua situação, inquieto com o mundo, querendo saber mais e com uma disposição pra estar passando as coisas, porque o número de jovens que nós atendemos é pouco."
- Carla


Carla Lopes, hoje coordenadora do núcleo de teatro é uma cria do Cria. E assina a sua primeira direção teatral, justamente a peça Diálogos.

"Eu fui procurar um "que" a mais no teatro, então, eu fiz uma oficina de teatro com a Maria Eugênia, que é a coordenadora geral do Cria, antes dela criar o Cria e era um teatro diferente, porque a gente fala da gente, a gente fala da dor da gente e a gente aprende a transpor essa dor. E, nesse teatro eu me vi mulher, eu me vi negra, eu me vi cidadã, de belezas e feiuras, e me descobri educadora, foi a partir daí que veio a necessidade de fazer educação." - Carla

"Primeiro da gente estar aprofundando essa metodologia de arte educação agregada a uma pedagogia que vai sendo criada, né? Ela vai sendo construída, na realidade, por toda equipe do Cria, que é uma pedagogia que agrega o fazer coletivo, parceria entre o jovem e o adulto, e tá identificando os espaços de atuação do jovem dentro da própria instituição, garantindo esse espaço de atuação protagonista. E, também no que tange aos conceitos, a gente tem alguns eixos de trabalho, como: sociedade, trabalho, etnia, a questão da sexualidade. A gente já tem alguns conteúdos previamente, que são trazidos pela peça e são os conteúdos que são trabalhados na formação, mas é importante que esses conteúdos sejam renovados a cada ano, com novas abordagens, novas informações. São esses aspectos que eu vou buscando e incorporando na formação das assistentes e orientadoras para que elas possam trabalhar mais diretamente com os jovens." - Léo


Teatro, palavra, poesia. Dentro do cria cabem todas as manifestações poéticas para passar um recado ordenado ou desordenado sob a batuta do professor Zeca.

"Começou com um curso de verão que no início desse ano eu vim fazer no Cria, o curso deu certo, foi legal e a gente viu que é muito importante para esse trabalho do Cria de informar cidadãos, essa busca, esse encontro com sua expressão poética. Aí começa um trabalho difícil porque a gente acha que forçadamente poesia é literatura, e aqui a gente vai fugindo um pouco disso, poesia é a expressão natural da sua sobrevivência, a literatura pode até acontecer, mas nós não temos aqui o compromisso de fazer literatura, nós temos o compromisso de descobrir qual a nossa expressão poética, qual a nossa maneira de se relacionar com o social da maneira que ele é." - Zeca

"Meu nome é Gutemberg, Gutemberg Santana, tenho 19 anos e já tem quatro anos que eu sou do Cria e, é assim a oficina de poesia está fazendo um ano agora, já teve uma oficina em janeiro no outro ano, eu participei da oficina , nem sabia muito o que era poesia, e nem sei ainda. Não me pergunte que eu não sei, porque poesia é pergunta, né?" - Gutemberg


"Faço parte do movimento hip - hop de Salvador e uma coisa que me estimula a escrever ... tenho uma banda de rap, eu e minha irmãzona aqui."

— Como é que chama a banda?

"Realidade à Vista. É uma certa necessidade, que nós adolescentes temos de estar falando da realidade da periferia" -
Jamile

 

"Eu sempre falo que eu ganhei um presente quando entrei no Cria, porque o Cria está sempre querendo renovar, tá sempre procurando coisas novas. Assim, como uma mãe, um pai que está sempre querendo o melhor para os seus filhos. Acho que foi um presente quando eu entrei no meio de uma seleção, que a filha do seu Zeca entrou. Quando o seu Zeca veio a gente acabou criando um novo ídolo, porque a gente sabe que ele escreve coisas maravilhosas e aqui a gente teve essa opção, tanto no Cria como na poesia de lidar com pessoas diferentes. Aqui tem gente que chora , tem gente que ri demais, e, lidar com o diferente é difícil." - Mirtes

"Coibi, Jacoreco, Iara, essa terra tem dono falava os Tapuias, os Tupinambas, os Tupis, os Tupiniquins, os Tamoios, os Botocuros. Veio a bandeira lusa seqüestrou a terra e misturou tudo e aí de repente a gente cai no Nordeste."- Zeca

"Conheci um trio de adolescentes do Cria que trouxe a face de um novo mundo, que realmente cria os adolescentes de uma outra forma, de uma forma não estereotipada, faz aquele lance do adolescente multiplicador e isso foi passando, foi passando e eu participei do Miac esse ano. O Miac é uma grande rede de comunicação e lá tinha uma oficina de palavra e, eu fui parar sem querer na oficina da palavra." - Sueide

"Amei porque aqui eles tratam os adolescentes de uma forma, aquela forma, se o adolescente faz uma coisa errada, a sociedade diz "pô que infantilidade, você é uma criança", mas se você faz uma coisa certa "pô parece com não sei quem que é adulto", mas aqui não, a coisa boa é do adolescente e a coisa ruim é também do adolescente. Então, essa forma de levar o adolescente, de acolher é muito importante, é muito legal e além disso é o fato de você estar levando a poesia para a rua, a poesia para a praça. Eu moro em Paripe e lá, é muito triste saber que eu venho pra cá, mas a minha rua toda não pode vir, é muito triste saber que em vez de poesia, eles estão ouvindo tiro. É muito triste saber que eu vou sair daqui correndo pra pegar um ônibus, demorar uma hora pra chegar em casa, e vou ter que entrar na minha casa correndo porque senão, não os marginais, mas a polícia pode me matar. Porque os marginais que moram lá, conviveram comigo, então, eu venho de uma vivência, que na semana passada duas pessoas morreram na minha porta. E, o fato de estar levando isso para as pessoas que estão do meu lado, com meus irmãos que não podem estar aqui é muito importante, isso é uma nova renascência da revolução, é isso, não é você ir pra rua matar. Essa é a minha guerra, a minha guerra é levar a educação, e, se aqui a gente tem esse espaço para multiplicação, pra levar para as pessoas que não sabem disso, então é a glória." - Sueide

— Quantos anos você tem?
"Dezesseis" - Sueide




Veja a segunda parte do programa Cria da Bahia

Tópicos Relacionados:
 

Saiba mais
sobre a região.

Conheça a atuação da entidade Confira a manifestação cultural.


Envie seus comentários e sugestões para o programa: caminhos@tvcultura.com.br

| Caminhos e Parcerias | Frutos |