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Baixo Mearim (MA) - primeira parte
Neide Duarte
 



Pode o céu ser mais azul.
Pode o céu ser mais de chumbo.
Pode o céu ser mais de ouro.

 



Minha terra tem palmeiras.
Minha terra tem palmeiras.
Minha terra tem palmeiras.

 

Foi nesse azul do princípio das coisas, no começo da noite do Maranhão, que foi nascendo esse destino: entre palmeiras ser e estar.



"Mas aqui tem coco demais, esse mundo inteiro aqui tem muito coco, só que o povo aqui, tudo sobrevive de coco. Tudo, tudo e aí essa criançada danada juntando coco para as mães em casa."
- Dió



"Quebra coco nega, eu não, eu não.
Quebra coco nega, eu to quebrando.
A palmeira de sabida botou coco nas alturas.
Ela pensa que eu não sei, quando o coco está maduro.
Quebra coco nega, eu não, eu não..."

 

A história do coco da palmeira do babaçu é a história de toda a vida dessas mulheres do sertão do Maranhão.

As quebradeiras de coco, as mulheres das palmeiras.



Toda menina de 9 inteirando 10, toda mulher de 20, 30, 40, de mais de 80. Toda mulher que nasce nesse sertão, com recurso de pouca valia, é ou foi ou será um dia; quebradeira.


Normalmente quanto que vocês juntam por dia? Quantos quilos?
"No máximo 5 quilos de coco. Eu da minha parte, né? 5kg de coco."

— Essa é a média ? 5kg dá quanto?
"Hoje dá 42 centavos, daria 2 e 10."

— O trabalho de um dia inteiro dá 2 e 10?
"Hum, hum." - Maria Regina


— O que o senhor trouxe aí?
"Coco do babaçu."
— Quanto?
"4 kg. ... Dá pra pegar um pacotinho de leite e uma caixa de fósforo."
Só isso?
"Sim. E uma balinha."

 

No Maranhão trezentas mil pessoas vivem do babaçu. Noventa por cento são mulheres.

"Não vai não Cissa? Vamos embora... cadê a Marilene, embora Marilene." - Socorrinha

 


Nesta região do rio Mearin fica a maior concentração de babaçu do Brasil: dez milhões de hectares. A imensa maioria dessas palmeiras estão em grandes fazendas, que cobram para deixar as quebradeiras tirar o coco, ou simplesmente barram a sua entrada.

 

"... e o resto é proibido entrar, por que isso aqui é uma empresa, isso aqui tem que produzir, tem que ter disciplina."

" Quando era outro dono, a gente quebrava coco livre, né? Ele não tinha... com as quebradeiras."

"É e agora tem, e agora mudou de dono, agora é outra empresa, aqui não é do governo, isso aqui é uma propriedade a parte, é uma empresa como outra qualquer, tem que funcionar como uma empresa."

"Mas o senhor sabe que tem município que existe a lei babaçu livre, mesmo em áreas privadas, é livre para as mulheres entrarem e coletarem." - Gerente Fazenda

 

 

 

Lago do Junco, comunidade de Ludovico. Aqui a palmeira do babaçu é livre. A terra não é das quebradeiras, mas elas podem entrar e sair quando quiserem.

E todos os cocos que pegarem será delas.

Quer dizer, quando ganham 42 centavos no quilo do coco, não precisam mais dar a metade, 21 centavos, para o dono da fazenda.

"Antes a gente era sujeito a quebrar e depois de quebrar ainda enfrentar o fazendeiro, enfrentar o vaqueiro, enfrentar. Ir lá fazer o empecilho das derrubadas, então para a gente é uma mudança muito grande, muito embora economicamente a gente não sinta grande evolução, mas só o fato da gente dizer a palavra babaçu livre, para entrar e sair, coletar e quebrar, já é uma mudança grande." - Maria Alaídes



A grande maioria dos fazendeiros dessa região não vive do babaçu. Muitos vão transformando suas terras em pastagens para o gado. E o babaçu, que brota naturalmente nessa paisagem, vai sendo expulso pelo capim.


O coco livre é hoje uma lei municipal em três cidades: Lago do Junco, Lago dos Rodrigues e Esperantinópolis.

Essa conquista faz parte de um longo processo de luta das quebradeiras, que inclui a preservação da palmeira do babaçu, na paisagem do Maranhão.

Nessa luta fizeram várias parcerias.

Luciene é coordenadora da Assema - uma associação que trabalha na organização de novas alternativas de renda para quem vive de quebrar coco no Maranhão.

E é viajando no pau de arara que ela percorre as comunidades da região.

"Uma primeira coisa que a gente espera é que elas de fato consigam um livre acesso. Elas já têm conseguido algumas leis municipais... Então a gente espera que possa conseguir em nível do estado a lei de livre acesso aos babaçuais. Nossa esperança é que nossa sociedade brasileira conheça essa história, conheça essa realidade viva e possa apoiar essas mulheres a sair dessa situação de exclusão que é muito forte." - Luciene

"Ninguém escuta meu grito, desconhece o meu sufoco, escondida lá no mato, com fome quebrando coco..." - Dió



Essas mulheres quebradeiras de coco do município de Ludovico, além do coco livre conseguiram montar uma fábrica de sabonetes e através de uma Cooperativa, uma fábrica de produção de óleo de babaçu.


Para montar a fábrica de sabonetes elas receberam oitenta mil reais do Unicef, com isso construíram a sede da fábrica e compraram alguns equipamentos.

Babaçu livre, o sabonete. O melhor óleo, da melhor palmeira. Do Maranhão, para a Inglaterra, da Inglaterra para Paris, Nova York, Milão, para todo lugar elegante onde existir uma loja Body Shop.


A indústria de cosméticos Body Shop, com lojas no mundo inteiro, há cinco anos, compra vinte e cinco por cento de toda produção de óleo das quebradeiras de coco de oito povoados.



"Não fosse a compra da Body Shop a gente não tinha sobras que está tendo para ser repassada para a quebradeira todo final do ano. Antes da venda da Body Shop a cooperativa não saía do vermelho."
- Maria Alaídes

A indústria Body Shop paga para as quebradeiras do Maranhão o dobro do preço de mercado, pelo litro do óleo de babaçu. Isso faz parte da política da empresa que dá preferência a pequenos produtores que tenham história de luta no seu trabalho.

"Como é o caso do pessoal de Gana, é o caso das quebradeiras, é o caso do pessoal que trabalha com fibras, caso das indianas, que fornecem flores... São essas pessoas que enfrentam mesmo o dia a dia, enfrentam o fazendeiro, enfrentam a poluição, enfrentam derrubadas, desse pessoal que eles priorizam comprar a produção." - Maria Alaídes



A fábrica de sabonetes ainda está longe de dar lucro, é a fábrica de óleo, criada há nove anos, que garante uma renda maior para as quebradeiras. Em média cada uma das cento e trinta e oito associadas da Cooperativa recebe quinhentos reais por ano.



"A cooperativa mudou principalmente o nosso modo de viver, né? Antes, pra gente quebrar um quilo de babaçu era muito barato, não representava nada. Hoje representa, bem dizer, a economia da casa. É o babaçu." -
Antônio Firmo - Gerente


Para a reforma do prédio e a compra das máquinas as quebradeiras tiveram apoio do Ministério do Meio ambiente, e de diversas ongs estrangeiras: Miserior e Pão para o Mundo, da Alemanha, Terre des hommes, da Suiça, e Nuskin dos Estados Unidos.

 

"Olha, há oito anos atrás as nossas comunidades viviam como se tivessem adormecidas, né? Não tinham conhecimento de nada, de nada."

— Não tinha estrada?
"Primeiro é não tinha estrada, a estrada foi depois da Cooperativa para poder escoar a produção, né? Não tinha condição de tirar essa produção na estrada sem ter a estrada, né?"


"O meu sonho é que nós possam ter tudo o que gente pobre precisa, né? Nós somos pobres mas nós temos direito de viver uma vida digna e essa vida digna se encontra junto com todos, a gente sozinho não pode fazer nada." -
Sebastiana Ferreira - Moça

 




Veja a segunda parte do programa Quebradeira, Destino de Mulher

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