Frutos Caminhos e Parcerias - Início A Porta de um Alto Paraíso
Alto Paraíso (GO) - primeira parte
Ricardo Soares
 




Porque Deus em suas infinitas perfeições inventou uma Chapada e nela colocou todos os seus seis dedos e o sétimo ele descansou. Porque aqui colocou seu povo crédulo que acredita em tantas formas do divino e nos permitiu sobre a chapada o olhar profano dos que por aqui desembarcam em busca de purificação.

Deserdados das grandes cidades, gente em busca de sossego. Porque aqui ele inventou de se dizer presente . Inventou de criar uma estufa onde se caminha, pensa , compõe. Onde se busca se acha, se perde. Um lugar onde se consagra, onde água, terra e verde formam a santíssima trindade da comunhão entre os elementos.



Pontos de fuga, de luz, pontos que marcam com pedrinhas o início de novas jornadas. Porque aqui é o começo de um grande e novo caminho. Uma bifurcação de muitas parcerias. Que começa na improvável parceria entre os homens e o seu criador.



Embora se chame Alto Paraíso, a cidade que é uma espécie de capital da Chapada dos Veadeiros já foi vista como um grande purgatório. Localizada em uma região que foi chamada durante muito tempo de "corredor da miséria" no nordeste de Goiás a 230 quilômetros de Brasília. O município ocupa uma área de 2429 quilômetros quadrados e é considerada uma das mais antigas formações geológicas do mundo com cerca de 1 bilhão e 600 mil anos.



Os primeiros habitantes da região de Alto Paraíso foram os índios goiases e os primeiros registros de colonização datam de 1750 com a chegada de três famílias que trouxeram gado e café.

 

A partir do final dos contestadores anos 70 deste nosso século começou a receber "alternativos"; e a partir do final dos anos 80 começou a receber os místicos e esotéricos que hoje fazem a boa fama da cidade correr o mundo. Muitos desses espiritualistas acreditam que Alto Paraíso representa o "chacka cardíaco" do planeta, um poderoso centro energético onde estaria o "coração da Terra".

Sol desenvolve um trabalho que se chama música e expansão da consciência. Mora na região conhecida como moinho.

— Sol, como você veio parar aqui nesse lugar paradisíaco?
"Ah, isso já tem algum tempo. Na década de 60, 70, a gente tinha muitas histórias de comunidade, de sociedade alternativa, todas essas coisas. Aí nós combinamos, tem um encontro de comunidades que nós realizamos já, uns vinte anos, ou mais até, e nós combinamos de reunir todas as comunidades para cá para o planalto central. E aí eu vim e fiquei até hoje." - Sotero Sol - músico


Renato era produtor musical e Nives produtora de moda.
Chegaram na região em 1998

"Viajava muito para vários lugares e tal, mas aí chegou aqui e falou diferente claro. Tudo diferente. Cachoeiras... O clima daqui me espantou. Essa variação de clima diferente, verão é inverno, inverno é verão. E todo o cerrado....O cerrado é muito forte, a vegetação do cerrado...Tudo muito diferente. Eu nasci em Ipanema, praia, tudo. Aí eu falei: nossa que lugar bonito, eu tinha uma idéia totalmente diferente de cerrado, achava que o clima era meio seco. Não é nada disso. Tem 80 e tantas cachoeiras em volta, a gente ficou espantado." - Renato Viola

— Que tipo de influência um lugar como esse exerce sobre o seu trabalho?
"É o silêncio, né? A gente busca muito o silêncio dentro da música..."
— A música do silêncio?
" É fabuloso. Morar num lugar onde o seu vizinho mais próximo é a raposa, o lobo, são os veadinhos. Acho que é essa a grande influência." - Sol


Incomum reunião de história, esoterismo e preocupação ambiental aqui foi criado em 1961 o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros que hoje tem apenas 65 mil hectares o que é pouco se considerarmos que foi criado com 625 mil hectares.





De certa forma foi o interesse ecológico pela região, que em meados dos anos 90 atraiu para cá das maiores ong´s do planeta, a WWF, responsável pelo Projeto Veadeiros.

 

"O Projeto Veadeiros é um conceito do WWF chamado projeto integrado de conservação e desenvolvimento. Esse projeto tá aqui por causa de uma proposta do estado de Goiás em criar uma reserva de biosfera do Programa Homem e Biosfera da Unesco. Esse conceito de projeto integrado de conservação e desenvolvimento econômico, social, é a missão do WWF e ele significa promover a conservação da natureza mas também promover o desenvolvimento econômico e social. É compatibilizar as duas coisas: desenvolvimento econômico, que a gente chama hoje de desenvolvimento sustentável e conservação da natureza." - Ricardo Mesquita da Fonseca (WWF)

PRESERVAÇÃO DA NATUREZA:
Parceria WWF / Estado de Goiás / Comunidade

Ângelo é mineiro de Uberlândia. Engenheiro agrônomo, trabalha no escritório da WWF. Está na região desde 1979

"Você tem que definir a área porque o que você pode fazer numa RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) é só eco-turismo. Hoje é só. Naquela época aqui nem estrada tinha. A única coisa que detonava a região era o fogo. Mas o fogo naquela época, tinha um manejo até razoável. Então a mata era bem preservada." - Angelo Testa - proprietário de uma RPPN



Bem preservada também é a flora e a fauna nos domínios do Ângelo. Mas nem sempre a fauna local é amistosa. A siriema (ave típica da região) bota Zé do Carmo nosso (nem tão valente) operador de aúdio para correr.

 

"Quando a gente chegou aqui existia uma pressão muito grande para que não ficasse. As pessoas daqui não aceitavam as pessoas de fora. E é uma área que existe muito minério."
— E que hoje não é tão explorado?
"Não é mas pode vir a ser no futuro. Porque aqui é riquíssimo."
— Você tá falando da exploração do cristal que durante muito tempo teve aqui, né?
"Hoje o cristal não tem mais preço e tem o turismo. Ninguém mais se interessa pelo cristal. Foi por isso que a gente fez a RPPN, porque eu sozinho não tinha voz grossa. Então eu tinha que ter o apoio de alguém para segurar a área." - Angelo Testa - proprietário de uma RPPN

 

 

Atualmente existem 5 RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural) na região da Chapada. Outros 24 proprietários de terra aguardam o certificado. O fotógrafo goiano João Fernandes é um deles.

"Eu queria dar uma guinada na minha vida, nas minhas coisas. Eu levava uma vida confusa, de estúdio, publicidade. Adoro comunicação, mas já tinha passado aquela fase de aprender, de que tudo é maravilhoso. Aí vai ficando meio chato. Aí e fui me distanciando, mas continuo repórter fotográfico, só que com outra pressão. A idéia era ajudar as comunidades mais distantes e na época o nordeste goiano, era e ainda é, considerado muito pobre. Com o eco-turismo de dez anos pra cá, tá mudando esse quadro de miséria. Eu boto muita fé e acredito que o eco-turismo é isso. Você traz um público e você já tem o produto que é a exuberância da natureza " - João Fernandes - fotógrafo e proprietário do Santuário Ecológico do Raizama


O ecoturismo, em que o fotógrafo João Fernandes tanto acredita, é hoje quem mais absorve mão-de-obra na região da chapada. É através dele que ex-garimpeiros como Paulo conseguem ganhar algum dinheiro para se manter.

 



"Bom gente, este aqui é o condobá. Ela é uma planta comestível e ela dá um óleo que o pessoal usa como repelente. Mas pode manchar a pele."
- Paulo - Guia

 

"O nosso grande produto que eu acho que é o mais visível, que é o eco-turismo, são os condutores de viajantes. A gente teve sucesso aqui nessa atividade em parceria com o IBAMA e a Associação dos Condutores de Visitantes em transformar o minerador e o agricultor sem atividade, em condutor de visitante, em agente até de educação ambiental e proteção. É a nossa Associação dos Condutores de Visitantes lá no São Jorge conhecida aqui como ACV-CV" - Ricardo Mesquita da Fonseca - WWF

Capacitação Profissional:
Parceria WWF / Ibama / Associações Comunitárias


Não dá para falar no trabalho da Associação dos Condutores de São Jorge e nem da história da Chapada dos Veadeiros sem mencionar Luiz José do Rego da Cunha Lima cujo pomposo nome é pouco conhecido na região. Mas se o forasteiro mencionar o apelido Lula é difícil alguém por estas paragens não saber de quem se trata.

 

"Dentre os que chegaram aqui, os migrantes, os mateiros, uns batedores nativos que já eram guias, eu tive a feliz oportunidade de ser o primeiro, um dos primeiros a receber visitantes, conduzir os visitantes. Em pesquisa, em passeio. Até mesmo antes do surgimento do turismo. As primeiras visitas feitas no parque, quando as pessoas acampavam no interior do Parque Nacional, acarretaram lixo, degradação da natureza, corte de madeira, fogo no Parque. O Parque foi fechado por um ano. Resolveram criar uma equipe de guias patrocinado pelo IBAMA e pela Funatura. Isso foi em 91. No término do curso já foi formada a Associação. Naquela época nós éramos por volta de 30 e poucos guias. A Associação surgiu de uma necessidade de ordenamento, mas a meu ver, ela surgiu no sentido de estabelecer uma relação de integração entre a unidade de conservação, Parque Nacional e a Vila de São Jorge principalmente." - Lula - historiador e guia

Lula também é professor de geografia e história. Atualmente prepara um livro sobre a Chapada. Uma região que o encanta desde menino.


"Entre sinos nublados uma solidão selvagem para mim é a chapada. Ela caracteriza e corresponde muito à recorrência permanente da solidão do planalto central....Grandes áreas extensas, vastas, a perder de vista e sem nada, sem ninguém... Essa é a Chapada dos Veadeiros...." -
Lula




Veja a segunda parte do programa A Porta de um Alto Paraíso

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