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Ayoyê - segunda parte
Neide Duarte
 



Antigamente o céu era bem perto das árvores, então os passarinhos decidiram levar o céu mais para cima.

Demoraram o dia inteiro nesse trabalho. Amarraram bem duro com cipó, muitas vezes, para durar muitos anos. É assim que o céu se mantém lá no alto até hoje.



"Quem foi o primeiro criador do povo ikpeng foi a cigarra." - Korotowi Ikpeng

No Xingu os mitos ainda estão vivos, servem de inspiração para a vida. Não viram estátua, estão sempre se transformando com o tempo, senhor das mudanças.

 

Antigamente não existia branco.


Tinha um homem que era grande pajé. Um dia, a mando do pajé, os brancos desceram do céu. Um barulho muito grande se fez ouvir. Barulho de trovão. Então o pajé falou: O branco não vai descer neste lugar, vai descer no outro lugar, no outro país. Nós não vamos ver, mas os nossos netos vão sofrer nas mãos deles.



Cada tribo tem uma história diferente para contar o aparecimento dos brancos: em quase todas elas, de alguma forma, os índios criaram os brancos.

Os índios não se sentem vítimas. São responsáveis pelo próprio destino.

 

Para cuidar das fronteiras e do entorno do parque do Xingu o Instituto Sócio Ambiental, em parceria com a Atix - Associação das Terras Indígenas do Xingu, Funai e a Rainforest, uma ong da Noruega, trabalham para que os próprios índios façam a proteção e a vigilância das fronteiras.

"O Xingu está sendo cada vez mais espremido. São madeireiras, são grandes latifundiários, plantando soja, desmatando. Isso põe em risco as nascentes do rio Xingu, dos formadores do rio Xingu. Então, daqui pra frente o pessoal vai enfrentar uma luta muito grande no sentido de cuidar do próprio território e manter a qualidade de vida que é milenar aqui." - Maria Cristina Troncarelli



A maloca que pegou fogo foi justo a do depósito de gasolina. Todos correram e conseguiram acabar com o incêndio em pouco tempo. Depois do fogo a calma de um dia sem vento na aldeia dos ikpeng. Melobô, o cacique pajé, vai nos apresentando a toda aldeia.


"Foram também os brancos que levaram sarampo pra esta comunidade. Quando chegaram lá fizeram briga, venceram a nossa sociedade, por que eles tinham armas de fogo, né?(...) Essa epidemia pegou na minha sociedade que acabou com a metade, a maioria e só sobraram essas 40 pessoas antes do contato." - Korotowi Ikpeng



Em 1964 os irmãos Villas Boas encontram os sobreviventes da tribo dos ikpeng. Eram apenas 40 pessoas. Os ikpeng são guerreiros. Se envolveram em várias guerras com tribos inimigas, que depois se uniram para atacá-los. Tiveram que enfrentar os garimpeiros e as doenças que eles traziam.

Quando chegaram nessas terras estavam doentes e famintos. Melobô viu um a um 4 de seus filhos morrerem de malária e outras doenças.

"Eu bravo, Melobô."
— Quando o senhor era bravo?
"Bravo guerreiro... rapaz. Mas, agora é muito velho, né? Eu tá velho, aí mudou o meu nome. Primeiro Melobô quando era rapaz, agora tomou meu neto, tomou meu neto meu nome."
— Ah. Pegou seu nome? E agora como é seu nome?
"Antenú." - Melobô - cacique ikpeng




Os nomes mudam como mudam os movimentos da vida. A mãe chama a criança por um nome, o pai por outro, quando viram adolescentes ganham novos nomes, na velhice outros, e assim são sempre os mesmos diferentes homens, renovados no tempo e nos chamados.





— Por que está escrito Bismarck no seu braço?
"Esse é meu nome. Meu nome apelido."
— Como assim?
"Meu nome apelido... esse Bismarck eu tirei do jogador do Vasco." - Poikô Suyá


— Como é que ele chama?
"Quem?"
— Seu filho.
"Juninho."
— Ele chama Juninho?
"É."
— Ele não tem nome indígena?
"Por enquanto não, só depois de um ano. Quem vai dar o nome é o avô dele, que é meu pai." - Tumai Kaiabi



Nomes de jogadores de futebol são os preferidos para serem usados como apelidos.

Cada vez mais os índios conhecem as coisas dos brancos. Admiram nossa tecnologia, mas não tem inveja da nossa cultura.

 

Sabem ter pena de nós ao descobrir que moramos em São Paulo.



"E o Sol, tá fazendo Sol lá em São Paulo?"

— Faz tem dias que faz frio, tem dia que faz calor, né?
"É... já umas 4 vezes que eu fui... lá não faz sol, não." - Xupé Kaiabi


Nestes tempos de mudanças os índios, com ajuda do ISA, da Funai e da Associação Paulista de Apicultores vão buscando alternativas para viver melhor.



"Eu tô criando, né? As abelhas que eu tô aprendendo a criar com os brancos que os brancos que têm o costume de criar abelhas, né?" -
Kokoyatene Suyá

 


"Eles não acreditaram muito nesse trabalho a princípio. Eles me perguntavam se a abelha realmente iria parar na caixa, se ela iria acostumar nessa caixa.(...) Aí foi devagarzinho, eles foram vendo que realmente ela produzia mel dentro de uma caixa." -
Wemerson Ballester - técnico/ISA


"Além disso também estou ensinando na aldeia mesmo. Além disso, estou saindo pelo Parque do Xingu, estou ensinando isso daí."
— Tem muitos índios interessados em aprender isso?
"É tem muitos, tem uns... acho que 15 aldeias que estão criando abelha agora." - Kokoyatene Suyá


"O que eu falo é que eles não vão ficar ricos com o mel. Mas alguma coisinha dá pra comprar, chinelo, uma linha, uma munição."


— Como você se sente aqui?
"Me sinto em casa, a gente tem muito a aprender com eles. Eu nunca vi alguém bater numa criança, o respeito com os velhos é uma coisa muito grande..." - Wemerson Ballester - técnico/ISA


Korotowi, 28 anos dá aula com a neta no colo. No meio da entrevista ele interrompe a nossa conversa para dar atenção ao seu filho que queria alguma coisa.

A escola da aldeia dos ikpeng é das maiores do parque do Xingu. São 127 alunos divididos em 4 turmas, numa mesma maloca.


Hoje a continuação da aula foi diferente. Korotowi chamou seus alunos, para juntos com a nossa equipe ouvir a voz da tradição. Um dos velhos da aldeia, Opoekê vai contar uma história dos antigos. A história do trovão.

 

— Por que você gravou a história Korô?
"É porque a gente tem já muitas fitas gravadas de algumas histórias... Agora é difícil da gente estar ouvindo as histórias, né? Por causa da influência da televisão, então as propagandas de televisão é mais forte do que ouvir as histórias, né? Uma maneira de resgatar as histórias e registrar as histórias é esses momentos de estar pesquisando junto com os alunos, incentivando os alunos a pesquisar as histórias antigas dos ancestrais." - Korotowi Ikpeng

"Eu sei história de trovão, eu sei história de milho, fogo, história de mosca, eu sei tudo, eu sei nome, eu sei tudo. Antigamente pessoa contava sempre história e passa pra outro, aí passa pra outro."
— O senhor já passou pra outro?
"Eu nem meu tio, nem meu primo, nem passa pra neto e pra filho, história ficar comigo de novo." - Opoekê

Os velhos da aldeia vão cumprindo seu destino. De ser os que sabem, guardiões de significados. Opoekê vai contando suas histórias para meninos que escrevem, que transformam suas palavras em novos símbolos.

Wawaná é o que canta, só ele e as mulheres mais velhas sabem os cantos dos antigos, os jovens não conhecem velhas canções.

Melobô o cacique pajé, a nosso pedido, faz uma pajelança, uma cura para melhorar a gripe do seu neto. Ele é o último pajé dos ikpeng. Nunca mais haverá nenhum. São precisos 7 pajés para formar um novo, na tradição dos ikpeng.

"Eu sei tudo, eu sei fazer a chuva cair, chamar o vento forte, temporal forte, né? Sabe fala a língua dos peixes, rios. Sabe falar a fala deles os espíritos." - Melobô

E sem perceber a linguagem dos peixes, sem descobrir a história do trovão, sem compreender os cantos de Wawaná, mas com a alma atingida pela sabedoria dos mais velhos, nós fomos embora da nossa maloca, do parque do Xingu. Nos entregamos ao espírito da água, ao espírito do vento e com eles deixamos a nossa despedida.

Ayoyê, como se diz na língua tupi, eu estou indo de você.




Ficha Técnica e Discografia



Veja a primeira parte do programa Nossas Línguas Brasileiras - Ayoyê

 

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