Frutos Caminhos e Parcerias - Início Um bosque no meio da floresta
segunda parte
Ricardo Soares
 



"A Escola Bosque é a principal ferramenta em todo esse trabalho que a gente está desenvolvendo. Nessa nossa ida ao Bailique agora foi justamente mostrar aos novos professores, a potencialidade do arquipélago e como eles podem trabalhar isso junto com os alunos, já que os alunos são das comunidades." - Marcio Sousa da Silva - Gerenciamento Costeiro - IEPA

Na verdade, segundo a direção da escola 22 das 32 comunidades do Bailique são atendidas pela Escola Bosque. Algumas distantes ficam a horas de barco. Para isso a escola contrata sete barqueiros para apanhar 283 alunos. Um deles, Edir Amanajás Barbosa, vai todos os dias até a comunidade de Marinheiro de Fora.


Edir também é titular de um horário na rádio Comunitária do Bailique onde apresenta o programa "O Passado é uma Parada".


"Estamos de vinte horas mais quarenta minutos aqui na Rádio Comunitária do Bailique com o programa "O Passado é Uma Parada" sempre levando o mellhor da música do passado pra você."
- Edeir Amanajás - Barqueiro e radialista


— Como é que é a Rádio Comunitária do Bailique?
"Olha ela funciona todos os dias, e a gente tá indo bem aí,né?"

— Que lugares do arquipélago você busca as crianças? Que comunidade?
"Marinheiro de fora e a Macedônia eu faço só a travessia."
— E Marinheiro de Fora fica a quantos minutos?
"Quarenta minutos pra ir e quarenta pra voltar." - Edeir Amanajás - Barqueiro e radialista



— Qual a principal diferença da Escola Bosque para os projetos educacionais padrões?
"Uma chave pode ser o conceito sócio-ambiental. Sócio-ambiental significa gente trabalhando e interagindo com a natureza e suas múltiplas formas. Então significa desde manter a floresta em pé. Significa manejo sustentável do açaí, palmito e tudo o mais. Significa pesca sustentável, significa pesquisa contínua, acompanhamento de técnicos e cientistas em conjunto com a população." - Nilson Moulin - consultor em Educação Ambiental


"Eu resolvi exercer a profissão aqui no Bailique porque é o meu lugar. Foi onde eu nasci e me criei eu achei importante eu poder contribuir com o lugar onde eu nasci. Eu conheço bastante a realidade daqui. Isso facilitou muito o meu trabalho aqui. A Escola Bosque ela foi implantada recentemente aqui. Ainda é um trabalho de começo ainda. Ainda não foi expandido nas nossas escolas. Mas já tem um pouquinho dela com certeza nas nossas escolas." - Renivaldo Pacheco - professor



"A proposta tem especificidades que respeitam os saberes tradicionais tanto aqui no Bailique como em outras situações, mas às vezes há choques também. Uma escola sempre traz propostas novas, conhecimentos diferentes. Houve problemas também por esse lado. Quando eu falo em falha coletiva e mais tempo e mais paciência nesse sentido. Deveríamos ter aprofundado o debate tanto localmente quanto na capital. Quando uma burocracia, qualquer que seja ela decide resistir, eles resistem e sabotam. Eu verifiquei isso na África, Rio de Janeiro, São Paulo e também aqui." - Nilson Moulin - consultor em Educação Ambiental




"Eu gosto da Escola Bosque porque tem merenda e bastante espaço pra gente brincar e fazer física."
- Michele Cordeiro Bruno - aluna

 


"Quando a gente acabava a quarta série, a gente tinha que ir para Macapá terminar o nosso ensino lá. Aí chegou a Escola Bosque e nós voltamos para o Bailique."

— O que você foi fazer em Brasília?
"Eu fui representar a Escola Bosque no Projeto Protetores da Vida." - Geiza Chagas Amanajás - aluna



"O alcance social que essas escola já trouxe pro Bailique é uma coisa assim fora do normal. Inclusive estrapolou a nossa expectativa do próprio governo em razão dos benefícios que essa escola tem trazido. Essa escola hoje tem proporcionado essa condição de aprendizagem num novo modelo de educação no país, como também tem propiciado a geração de trabalho e renda na comunidade." - Paulo Rocha - presidente do CCB - Conselho Comunitário do Bailique

 

— Selma, quantas pessoas trabalham aqui na fábrica de palmito?
"Olha uma base de quinze funcionários."
— E qual a produção?
"Uma tonelada diária."
— Quem é que compra palmito de vocês?
"Mercado interno e o pessoal do exterior, americanos, franceses, é mercado de exportação." - Selma da Silva - técnica

Pense nas mulheres rotas alteradas
Pense nas feridas como rosas cálidas
Mas oh, não se esqueça da roda, da rosa
Da rosa de Hiroshima, a rosa hereditária...

VINICIUS DE MORAIS

"A literatura é a arte da palavra. É quando o artista, o escritor, inventa ou recria a realidade". - Mauro de Farias - professor


"Eu tinha a maior vontade de visitar aqui. Mas eu não sabia como funcionava. Imaginava assim que se tratava de mais uma escola como qualquer outra. Mas chegando aqui no lugar, as coisas são completamente diferentes." - Mauro de Farias - professor

— Você está aqui há cinco dias. O que você está achando dessa experiência?
"Olha parece que são muitas experiências. E ensinar literatura parece que tem uma dimensão universal. Não importa o lugar. Os alunos tem uma pré-disposição para aprender. Então a literatura te dá uma dimenssão. Uma capacidade de refletir acerca daquilo que você é, daquilo que você vive, né?" - Mauro de Farias - professor


Júlio Queiroz Filho, Seu Julico.
Tradicional Carpinteiro Naval do Bailique.

"A minha profissão de novo era a de pescador. E pescar nas embarcações dos outros nunca tinha oportunidade. Até chegou o ponto de eu construir uma embarcação pra mim. Aquela primeira canoa velha foi a primeira embarcação que eu construi. Foi a primeira obra que eu fiz. Ninguém ainda fazia aqui." - Júlio Queiroz Filho, Seu Julico




— O que o senhor acha da Escola Bosque?
"Na parte do ensino, eu tenho um casal de filhos que estuda lá. Eu tenho um filho na sétima série e uma filha no segundo grau. O ensino é reforçado, é bom. O aluno aprende mesmo. Mas tá um pouco devagar." - Seu Julico



— Que tipo de ocorrência é mais comum na região que o senhor atende aqui?
"Bom a mais comum é a caça da capivara e a extração de palmito. A parte de madeira, as serrarias estão praticamente todas legalizadas. Devido a esse trabalho educacional que a gente tá fazendo sobre o meio-ambiente com o apoio das comunidades e das comunidades também." - Sargento PM Jackson dos Santos- Batalhão Ambiental


"Eu trabalho muito a parte dos valores ambientais que os índios passam. Todas elas tem um valor dentro da educação ambiental muito grande, porque a relação dos índios com a natureza é exemplar pra gente. A relação deles com a natureza, o cuidado. A natureza pra eles é quase sagrada e eu tento passar isso pros meus alunos." - Professor Cláudio César - Conhecedor das histórias e do folclore do Bailique


"O projeto Escola Bosque já tem três anos de funcionamento em sala de aula mas começou há cinco anos. Começou com os encontros comunitários, com as crianças e seus pais. Com os professores para discutir a implantação desse modelo alternativo de escola." - Fernando Ribeiro- Secretaria de Educação - Divisão de Educação Ambiental



Ao redor da montaria, a canoa típica o tempo e o rio vão passando nessa terra de palmeiras onde a água é o sabiá.

As águas que aqui chacoalham não chacoalham como as de cá. Nessa terra tem farinha, pesca farta e açaí. O pouco que a nós parece é muito para os daqui. Aqui encravada a floresta tudo é motivo pra festa.


Batizado, santo bom, boa pesca. Aqui no meio da mata uma utopia de ensino se ergue. Um bosque no meio da floresta abre enfim uma fresta em uma geografia que não conhecemos. Mas por não conhecer já sabemos o que perdemos.

 




Ficha Técnica e Discografia



Veja a primeira parte do programa Um bosque no meio da floresta

 

Tópicos Relacionados:
 

Saiba mais
sobre a região.

Conheça a atuação da entidade Confira a manifestação cultural.


Envie seus comentários e sugestões para o programa: caminhos@tvcultura.com.br

| Caminhos e Parcerias | Frutos |