Frutos Caminhos e Parcerias - Início Um bosque no meio da floresta
primeira parte
Ricardo Soares
 


Essa terra tem palmeiras onde pousam as araracangas. As aves que aqui gorjeiam não o fazem como no sul. Essa terra tem mais águas, ao redor delas mais palmeiras de onde tiram o açaí. Beleza parecida, pode ser vista, mas nunca igual a daqui.



A terra tem clima quente, umidade superlativa do ar, fica mais no hemisfério norte, tem proximidade com o mar. Nos igarapés andam os búfalos, muitos peixes e o guará.

Aqui tem farinha amarela, um peixe chamado filhote, essa terra é o Amapá.


Que o Brasil não conhece o Brasil ninguém duvida. E Macapá, capital do Amapá, é a prova disso. Ausente da mídia e das verbas federais seus 250 mil habitantes sabem onde fica o Brasil da televisão. Mas o Brasil que vê televisão ainda não os descobriu.

Para sorte e para azar deles. Antes de nossos caminhos nos levarem ao Arquipélago do Bailique vamos a um rápido passeio por uma cidade que os brasileiros não conhecem. Macapá. Uma cidade cujo som que se ouve nas ruas pode ser tão inusitado quanto este que se ouve aqui.

Fortaleza de São José de Macapá - Iniciada em 29 de junho de 1764, durante a gestão do Marquês de Pombal, influente primeiro - ministro do reino de Portugal.

Era estrategicamente importante para garantir o domínio sobre as terras conquistadas na região norte da colônia brasileira. Inaugurada em 19 de março de 1782, dia de São José. Restauração concluída em julho de 1997.



Aqui passa a linha do Equador. Marca a latitude zero. No estádio Zerão um lado do campo fica no hemisfério sul e outro no norte, onde fica a maior parte do estado do Amapá.


Quilombo do Curiaú. 600 pessoas, área de 3600 hectares.

Sebastião Menezes da Silva, "Sabá", escreveu um livro sobre o Curiaú, onde nasceu e pretende morrer.

"Os nossos descendentes, a gente deve ter quase umas 1500 pessoas porque parte do pessoal ali do Julião Ramos, são tudo descendente do Curiaú. A comunidade é composta só de negros descendentes de escravos. Então nós viemos dessa geração, só que hoje já temos gente já de cor mais clara por causa que já tão misturando o sangue. Mas em princípio a maior parte ainda somos negros mesmo." -
Sebastião Menezes da Silva, "Sabá"

— E procuram manter as tradições....
"É, as tradições culturais, as religiosas, as nossas festividades que nós não devemos deixar terminar de jeito nenhum." - Sebastião Menezes da Silva, "Sabá"


Uma das meninas dos olhos dos moradores esclarecidos de Macapá é o IEPA, Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá. Antes de ser um cartão postal da cidade, é a partir dele que se pode ter uma visão detalhada do zoneamento ecológico econômico do Amapá, este quase desconhecido estado brasileiro de 143 mil quilômetros quadrados, que não chega a ter meio milhão de habitantes e mais de 90% de sua vegetação nativa preservada.


O IEPA é um dos parceiros que nós vamos encontrar hoje nos nossos caminhos que vão nos levar ao Arquipélago do Bailique, onde fica a Escola Bosque.

"Aqui é uma coleção científica de vertebrados e invertebrados, cujo objetivo é manter um banco de dados como referencial da biodiversidade do Estado do Amapá. Olha além dos 12 mil exemplares de insetos, nós temos também aqui uma coleção significativa de peixes exclusivas de ambientes de lagos...Temos também uma coleção científica de aves.

Nós temos em torno de 5 mil eemplares de aves, divididas na mais variada ordem, sendo que os ecossistemas mais representativos onde foram coletadas essas aves, é de manguezais e ecossistema lacustre." - Nonato Souto - divisão de zoologia do IEPA

Mais do trabalho do IEPA nós vamos ver daqui a pouco no Arquipélago do Bailique para onde estamos indo agora, subindo o Rio Amazonas para encontrar a floresta e a Escola Bosque. Ela é um projeto educacional que faz parte do Programa de Desenvolvimento Sustentado do Amapá e visa, acima de tudo, integrar o homem com seu ambiente e cultura.

 

No Albatroz II, o barco que nos leva em uma viagem de 10 horas, vão também novos professores e técnicos que ajudam a capacitar os educadores da Escola Bosque, um projeto que ainda não navega a pleno vapor mas que tem muitos bons ventos a seu favor. A maresia e os ventos contrários ficam por conta da dificuldade em contratar e fixar a mão de obra.

"Então o que nos foi repassado foi que vários professores já e voltaram, não aceitaram. Não se adaptaram. Então a gente resolveu aceitar esse desafio né? Nós não vamos só ensinar. Nós vamos adiquirir conhecimento com eles também. A questão da floresta...Essas coisas.... A floresta sempre ela existe. Então na cidade ou em qualquer lugar que a gente estiver sempre existe esse contato com a natureza. Mas o conhecimento do povo daqui que já é maior do que o nosso também. O pouco conhecimento deles com o nosso a gente vai somar pra tentar desenvolver...." - Raimundo de Oliveira Silva - professor


Não dá para separar a Escola Bosque da geografia do Bailique, um conjunto de oito ilhas com 7000 habitantes e 32 comunidades.

A Escola fica na Ilha do Marinheiro, na Vila Progresso, na margem direita do rio de mesmo nome que é um braço do Amazonas.

Apesar dos problemas que enfrenta a Escola Bosque do Bailique é uma forte referência para a educação do Amapá. Foi inaugurada em junho de 1998. Seu projeto pedagógico foi concebido pelo educador Mariano Klautau e o projeto arquitetônico é de sua mulher, Dula Lima. Leva em conta a concepção espacial das aldeias waiãpi. A Bosque nasceu da mata e é voltada para a mata.

Foi erguida com a participação da comunidade através do Conselho Comunitário do Bailique que também aproveitou mão de obra local na construção da escola toda erguida com material disponível no arquipélago do Bailique.

Funciona em três períodos e recebe alunos da pré-escola, do primeiro e segundo graus.


"Aqui na escola nós temos hoje, matriculados na escola, 503 alunos aproximadamente. Nós temos uma parceria com a comunidade vizinha no fornecimento de energia. Temos a parceria com o IEPA, para a produção de plantas medicinais. Essas plantas serão vendidas, o nosso objetivo é vendê-las para gerar renda pra escola." - Leobino Almeida dos Santos - Diretor da Escola Bosque

"Essa aqui é a pata de vaca que hoje é a planta básica para o tratamento da diabetes."
— A gente tem aqui outra planta.
"Essa planta é conhecida como pirarucu"
— O mesmo nome do peixe?
"Isso, o mesmo nome do peixe. É uma planta para problemas intestinais. No tratamento da gastrite. Além desse projeto, temos o projeto da Inácia que é uma pesquisadora daqui que trabalha com a parte do camarão que é uma das fontes de renda do Bailique." - Márcio Souza da Silva - Gerenciamento Costeiro - IEPA


"Nós fizemos uma coleta hoje pela manhã e a gente está separando o produto da pesca do camarão, pra ver a proporção sexual nas pescarias, pra ver qual o gênero aparece mais: o macho ou a fêmea nas pescarias. E também pra ver se tem fêmeas ovadas. E esse projeto visa extatamente isso: contibuir para o ordenamento dessa pescaria. Porque atualmente não existe nenhuma portaria ou algo parecido que regulamente a captura dessa espécie no estado." - Inácia Maria Vieira - divisão de zoologia - IEPA

 




Veja a segunda parte do programa Um bosque no meio da floresta

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