Nossas Línguas BrasileirasXingu - primeira parte Neide Duarte |
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Estamos indo para o Parque Indígena do Xingu. Temos o olhar embaçado dos que vão ao encontro do desconhecido.
Assim, aceitamos a
estrada de terra, espaço de transição entre o que
somos e o que seremos.
Rio do espelho, rio
das areias, rio dos índios, rio do céu . Estamos chegando
debaixo de uma asa.
São índios que vivem nas 30 aldeias do Parque Indígena do Xingu, representantes dos 14 povos que moram no parque, numa área de 27 mil quilômetros quadrados.
"Então esse é um livro de alfabetização na língua kaiabi, nós montamos durante o curso, agora já está publicado..." - Professor Kaiabi Linguistas de diversas
universidades brasileiras trabalharam com os professores indígenas.
Juntos eles criaram um alfabeto para cada língua e transformaram
a milenar linguagem oral dos índios em linguagem escrita.
As guerras entre as tribos acabaram nos anos 60 e agora, antigos inimigos se encontram e se esforçam para entender a língua do outro, e quanto mais se conhecem, mais se respeitam. Posto Diauarum. Dia de reunião das lideranças, vieram todos os caciques, os pajés, os agentes de saúde, todos os professores.
A reunião foi
convocada pelos brancos que coordenam o projeto de formação
de professores, o pessoal do Instituto Sócio
Ambiental, que mantém esse projeto com a ajuda financeira da
Rainforest, uma ONG da Noruega.
Aquele era o último dos 30 dias que os professores passaram no Diauarum, se aperfeiçoando para continuar o trabalho de alfabetização das crianças das suas aldeias. Dia de avaliação geral.
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"No curso
comemos muito bem todos. Todo dia tem comida pronta. Mas para comer na
aldeia é assim, depois do trabalho saímos para procurar
comida, então eu me senti muito melhor no curso." - Korotowi
Ikpeng - Professor Melobô o cacique
- pajé dos ikpeng está voltando pra casa. Vai de espingarda
na mão. Se encontrar jacu, mutum, uma anta pelo caminho...
Assim são os diários de classe dos professores indígenas: acontecimentos, necessidades, seus sonhos.
No curso de formação de professores, entre 50, apenas duas mulheres. Taualu é mestiça, filha de cacique kamaiurá e mãe trumai. Tem 30 anos e é solteira, uma raridade entre índios.
O som das flautas é a música dos espíritos, os mamaés. Quando os homens tocam eles são a um só tempo homem e espírito, terra e água. E naquela tarde de
verão, tempo da vazante dos rios, quando o Xingu foi mostrando
suas praias, depois que uma lua se passou, foi o sinal da volta prá
casa.
Luz demais no fim
do dia, sinal do começo da morte na paisagem do rio.
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