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Xingu - primeira parte
Neide Duarte
 



Nossa Senhora da Estrada no caminho.
Dia de céu para os viajantes.

Estamos indo para o Parque Indígena do Xingu. Temos o olhar embaçado dos que vão ao encontro do desconhecido.

 

Poderíamos ter feito todo o trajeto de avião, mas de nada adiantaria, em algum lugar teríamos de esperar pelo nosso espírito, que costuma viajar mais devagar do que a nossa pressa.

Assim, aceitamos a estrada de terra, espaço de transição entre o que somos e o que seremos.

 


Madeireiras, vazios na floresta, garimpos, rios de mercúrio. Verdes terras.

Rio do espelho, rio das areias, rio dos índios, rio do céu . Estamos chegando debaixo de uma asa.

Posto Diauarum, esta será a nossa maloca nestes dias que passaremos na beira do rio Xingu.


O que nos trouxe aqui foi a linguagem, a escrita, as letras, as palavras deste Brasil de tantas línguas.

 

"Falo língua aruaque." - Raul Mehinako
"Falo língua tupi." -
Pauto Kamaiurá
"Minha língua é caribe." -
Tarrula
"Falo tupi-guarani." -
Diginai Kanauiuri
"Falo língua jê." -
Temiti Suyá
"Falo caribe, tupi, aruaque, português, tupi... e um pouquinho de espanhol."-
Korotohã



Todos eles são os nossos professores: 48 homens e 2 mulheres.

São índios que vivem nas 30 aldeias do Parque Indígena do Xingu, representantes dos 14 povos que moram no parque, numa área de 27 mil quilômetros quadrados.


Desde 1994 o Instituto Sócio Ambiental, uma organização não governamental, vem trabalhando com a formação de professores indígenas no Xingu.

"Então esse é um livro de alfabetização na língua kaiabi, nós montamos durante o curso, agora já está publicado..." - Professor Kaiabi

Linguistas de diversas universidades brasileiras trabalharam com os professores indígenas. Juntos eles criaram um alfabeto para cada língua e transformaram a milenar linguagem oral dos índios em linguagem escrita.

— Vocês acham que se isso não for registrado de uma maneira escrita essas línguas, essas histórias podem se perder?
"Eu acho que a longo prazo isso é possível de acontecer como a gente vê o que aconteceu com tantos outros povos no Brasil.(...) Então, a gente acha que a escola pode estar ao lado das lideranças para valorizar mais as próprias tradições, também." - Maria Cristina Troncarelli - Coordenadora Inst. Socioambiental




Hoje os suyá cantam e dançam longe de casa, longe da terra dos ancestrais.

Em 1884 eles tiveram o primeiro contato com os brancos quando moravam no Diauarum, hoje posto da Funai.



Nos anos 20 os suyá foram massacrados primeiro pelos txucarramãe, depois pelos juruna. Os sobreviventes fugiram em canoas e nunca mais voltaram para Diauarum, desceram o suyá-missu e formaram nova aldeia.

As guerras entre as tribos acabaram nos anos 60 e agora, antigos inimigos se encontram e se esforçam para entender a língua do outro, e quanto mais se conhecem, mais se respeitam.

Posto Diauarum. Dia de reunião das lideranças, vieram todos os caciques, os pajés, os agentes de saúde, todos os professores.

Kuiussi, o cacique suyá, veio com camiseta e calça jeans, mas não quis ser filmado como um branco, só na minha aldeia, vestido como um índio, ele disse.

A reunião foi convocada pelos brancos que coordenam o projeto de formação de professores, o pessoal do Instituto Sócio Ambiental, que mantém esse projeto com a ajuda financeira da Rainforest, uma ONG da Noruega.



"Esse é o livro que nós professores kaiabi fizemos, os desenhos foram alguns de nós que desenhamos e tem muitos alunos que desenharam nesse livro também."
- Professor Kaiabi

 

Aquele era o último dos 30 dias que os professores passaram no Diauarum, se aperfeiçoando para continuar o trabalho de alfabetização das crianças das suas aldeias. Dia de avaliação geral.

 

 



"Nesse curso aprendi muitas coisas, usar os verbos regulares e verbos irregulares. Aprendi também o que é trabalho de antropologia, aprendi como são as relações sociais de cada povo, na matemática aprendi os números com vírgula e porcentagens."
- Korotowi Ikpeng - Professor


No meio da avaliação do curso, Korotowi, um dos professores ikpeng, não esquece de destacar um motivo de constante preocupação na vida do índio: a comida.

"No curso comemos muito bem todos. Todo dia tem comida pronta. Mas para comer na aldeia é assim, depois do trabalho saímos para procurar comida, então eu me senti muito melhor no curso." - Korotowi Ikpeng - Professor


"Come, todos os bichos a gente come."
— E é bom? A carne do papagaio é boa?
"Come."
— É gostosa?
"Gostoso. Tudo gostoso, bicho cobra eu não gosto."
— Cobra gosta?
"Cobra não gosto, a gente tudo não gosta. Agora vai todo bicho, jacu, mutum, arara, papagaio, veado, porco, tudo bicho vai, tudo pra comer." - Melobô Ikpeng - cacique-pajé

Melobô o cacique - pajé dos ikpeng está voltando pra casa. Vai de espingarda na mão. Se encontrar jacu, mutum, uma anta pelo caminho...

Papagaio ele não verá, ainda não é tempo, só quando vier a revoada de agosto.


"Era outubro de 1996. Nesse mesmo ano a gente começou a trabalhar.(...) Minha escola é feita de sapé, não tem piso, só tem parede." - Airi Nafqüa - professor

Assim são os diários de classe dos professores indígenas: acontecimentos, necessidades, seus sonhos.



"Nós temos mapa do mundo, do Brasil, do Mato Grosso e do Xingu, mesas e bancos, tem muita coisa que está faltando na minha escola.(...) Nós já temos 9 alunos alfabetizados, estamos alfabetizando 13 alunos em língua materna e português oralmente." -
Airi Nafqüa - professor

No curso de formação de professores, entre 50, apenas duas mulheres.

"A maioria das índias não sabe falar português, nunca interessou de estudar e nunca interessou as coisas do branco. (...) Quando eu participei primeiro desse curso eles falavam que eu estava errada, que eu não podia participar desse curso, só os homens que podia fazer esse curso."

— Quem que falou isso pra você?
"Os índios mesmo que falaram isso." - Taualu Trumai - Professora

Taualu é mestiça, filha de cacique kamaiurá e mãe trumai. Tem 30 anos e é solteira, uma raridade entre índios.

"Os índios tem preconceito, né? Xinga muito as meninas, quando da minha idade ninguém aceita, falam que já tá muito velha. Então, todas as minorias são assim. (...) A importância é a minha cultura, né? Por que é a única língua que não tem povo que fala, só nós trumai mesmo. Nós somos poucos e muitos meninos já tá perdendo a língua, não falam mais na língua. Eles já estão perdendo a cultura e tá deixando prá trás, né? Eles estão pegando mais as coisas do branco." - Taualu Trumai - Professora


— As pessoas da comunidade querem que você ensine em qual língua?
"Português. Só português e a língua, eles dizem que a língua é a língua mesmo e só a língua não vai perder nada. A comunidade não quer que as crianças continuem igual ao pai, que o pai não fala, não sabe escrever, mas para mim é muito importante também ensinar a língua indígena." - Makaulapa Mehinako - Professor


"Será que é bom uma escola só trazer coisa de branco? A gente fala para os professores que eles têm que procurar o velho, saber o que aconteceu de importante naquela aldeia velha... (...) Então, a nossa idéia aqui no curso é de trazer sim o conhecimento do branco, mas é também, de que os professores procurem vocês, que os professores vão atrás do conhecimento de vocês, que eles vão trazer pra escola a sabedoria de cada povo." - Maria Cristina Troncarelli - Coordenadora Inst. Socioambiental

"E isso aqui é o bambu, né? Aí vem um bambuzinho que entra ali. Sem esse aqui o som é diferente, é diferente."
— Vocês que inventaram esse jeito de tocar flauta?
"Não, não é a gente que inventou não, foi um espírito que inventou prá nós."
— Que espírito?
"Espírito que a gente chama Canã. É o espírito da água." - Tamarikô Juruna - agente de saúde

O som das flautas é a música dos espíritos, os mamaés. Quando os homens tocam eles são a um só tempo homem e espírito, terra e água.

E naquela tarde de verão, tempo da vazante dos rios, quando o Xingu foi mostrando suas praias, depois que uma lua se passou, foi o sinal da volta prá casa.
Suyá, kaiabi, juruna, mehinaco, ikpeng, trumai, kamaiurá.

Cada professor na sua aldeia. Termina o tempo de aprender, recomeça o tempo de ensinar.

Luz demais no fim do dia, sinal do começo da morte na paisagem do rio.

O sol que se entrega ao espírito das águas.

 




Veja a segunda parte do programa Nossas Línguas Brasileiras - Xingu

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