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primeira parte
Ricardo Soares
 


Começar uma história pelo alto pode parecer comum. Mas só é comum quando a gente quer sobrevoar um problema e não aterrissar em uma solução.

Estamos em Goiânia, no meio do Brasil, cidade fundada em 1934 por Pedro Ludovico e projetada para 50 mil pessoas.


Sessenta e seis anos depois tem mais de um milhão de habitantes e muitos problemas comuns a outras capitais brasileiras apesar deles se orgulharem de ter quase 30% de sua área urbana arborizada.

Árvores à parte muitos galhos que incomodam os moradores daqui derivam da má distribuição de renda e ausência de infra-estrutura e educação ambiental.

Nos bairros Dom Fernando I e II, Jardim Conquista e Aroeiras I e II vamos aterrissar em algumas soluções que estão sob o telhado dessa Usina de Reciclagem de lixo e desse Circo Escola.


Elas beneficiam cerca de 15 mil pessoas distribuídas em 2 mil residências.

É parte do projeto Meia Ponte patrocinado pelo Instituto Dom Fernando, ligado à Igreja Católica.


"O projeto se chamou Meia Ponte pela razão de ele estar perto do Rio Meia Ponte e porque se pretendia construir metade da ponte simbólica para a cidadania e a outra metade a própria comunidade construiria. Em 95 quando o Instituto Dom Fernando foi criado, ele tinha como finalidade tratar fundamentalmente de meio-ambiente e desenvolvimento social, comunitário.

Então eu preparei vários projetos e quando estava cuidando desses projetos eu vi numa reportagem aqui de Goiânia, uma reportagem sobre os problemas sociais e ambientais das áreas do Jardim Dom Fernando I e II. Então resolvi propor um projeto para essas duas áreas já que tinham o nome do patrono do Instituto Dom Fernando, o antigo arcebispo de Goiânia. Aí fomos visitar a área e são dois bairros que nasceram de invasões em terrenos da Igreja e que a Igreja depois se propôs regularizar essas invasões" - Washington Novaes - Jornalista, ambientalista e idealizador do Projeto Meia Ponte

"O Instituto Dom Fernando é um instituto sócio-ambiental. Ele nasceu em 1995 criado pela Sociedade Goiana de Cultura, braço civil e social da arquidiocese de Goiânia com a função de atuar nas áreas de meio-ambiente, desenvolvimento sustentável. Geração de trabalho e renda, cultura, educação formal e não formal. Ele atua junto com o poder público e demais parcerias no sentido de transformar, modificar a realidade que nós temos" - Anderson Lima da Silveira - diretor geral do Instituto Dom Fernando



"Quando começamos a conversar com a comunidade, fazer reuniões, ficou evidente que os problemas ambientais eram muito graves ali principalmente no Jardim Aroeiras que é uma área de risco que foi invadida. Os problemas de lixo, de drenagem, erosão..."
- Washington Novaes


"Então foi feito um trabalho de educação ambiental de casa a casa , explicando como se faz a separação do lixo. E depois nós fazemos o trabalho de coleta, com nossa equipe de coleta é feito o trabalho nos 5 bairros, o pessoal coleta esse lixo e traz para o Núcleo Industrial de Reciclagem., e aqui ele passa pelo seu processo de reciclagem." - Emerson Pereira dos Santos - presidente da Cooprec




NIR - Núcleo Industrial de Reciclagem.
Funciona em sistema de cooperativa: a COOPREC (Cooperativa de Reciclagem) tem 60 cooperados.

 


"Bom pra mim foi uma boa né ? Porque eu tava desempregado. Às vezes o trabalho que eu encontrava, mas não dava pra me encaixar pela idade e o estudo. Aí esse projeto veio a calhar para mim. Eu começei a participar das reuniões. Aí eu fiz o curso de cooperativismo. Aí eu aguardei. Aí quando as coisas se ajeitou, eu entrei ....É uma coisa que pra mim parece que caiu do céu. Esse trabalho seria bom se não fosse só aqui. Essa façanha podia repetir em outras regiões. Isso faz com que a gente se sinta mais fortalecido. Porque isso aqui é uma cooperativa, aqui nós nos sentimos dono. " -
Rosalino Gomes



Um dos produtos da reciclagem do lixo que chegam na cooperativa é a telha de fibra asfáltica. A cooperativa fabrica 15 mil telhas por mês.

— Explica pra mim como funciona o processo de fabricação da telha de fibra asfáltica. O processo começa com as caixas de papelão que chegam aqui, é isso?

"Exatamente. Esse é o processo de descontaminação. As fitas adesivas e os grampos, pra logo em seguida o papel ser jogado no moinho, onde ele vai ser triturado com água.

Aqui é onde o papel vai ser triturado com água. Ele vira aquela sopa de papel. Depois quando o tanque enche ele vai pro reservatório de massa, ali embaixo. Você vê que a àgua desce e ele vai ser coado e a massa segue para o cilindro. A massa segue para o cilindro e se transforma na manta. Para saber a espessura certa para o corte é só esperar a rodinha girar.


Depois aqui no pátio é feita a ondulação da telha. Um processo manual. Esperamos de dois a três dias para que elas sequem e sejam retiradas do pátio para em seguida dar o banho de betume, que as impermeabiliza"
- Emerson Pereira dos Santos - Presidente da Cooprec

 


Além de serem mais baratas que as telhas de amianto, as telhas da cooperativa diminuem o calor e são mais resistentes. Elas são vendidas na rede das lojas Irmãos Soares, em Goiânia.



"Além das telhas nós temos a reciclagem do plástico. Do polietileno de alta e baixa densidade. O de baixa é produzido a matéria prima para fazer mangueiras, para saco plástico para lixo e outros tipos de materiais plásticos." -
Emerson - Cooprec

 



14 toneladas de grânulos de plástico são produzidos mensalmente na Cooprec.

 

 



O lixo orgânico separado pela população é coletado separadamente e se transforma em adubo orgânico. É a compostagem do lixo.


— Chegou um tratorzinho cheio de composto orgânico. O que acontece com ele quando chega aqui?
"Ele vai ficar alguns dias aí compostando. A temperatura dele vai subir até 65 graus. Depois que vai abaixando grade uns sessenta dias ele vai abaixar novamente a temperatura e quando chega aos 30 graus a gente vai colocar as minhocas. Elas comem o orgânico e transforma em humus" - Lúcia Ivan




Veja a segunda parte do programa Goiânia - Meia Ponte Inteira

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