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Houve um tempo em que os homens e mulheres que cometiam delitos contra
a sociedade eram condenados a longas penas de privação de
liberdade. Confinados a ambientes hostis, privados de luz, espaço,
amor e trabalho poucos se recuperavam durante a pena.
Uma grande e triste engrenagem .Mas houve um tempo em que se buscou uma
saída para esta longa e triste viagem. Uma saída para a
reabilitação pela porta do trabalho.
Este tempo é agora.
Não
é academia de dança porque quem dança aqui já
dançou. Mais do que malhar o corpo elas querem aqui é malhar
o espírito, fugir da solidão compartilhada que é
dividir o dia a dia entre quatro paredes. Dança como recreio do
trabalho ao qual elas se entregam todos os dias para esquecer que estão
privadas da liberdade. Cada três dias trabalhados é menos
um dia na pena. As dançarinas aqui são algumas das 435 mulheres
presas na Penitenciária Feminina do Complexo
do Carandiru em São Paulo.
Você
acha que vc dança melhor rap, por exemplo, do que house ?
"Bem melhor".
Por que você gosta mais de rap do que house?
"Ah, é o meu estilo de dançar.Identifica mais a
nossa situação,né?"

Por que identifica mais a situação?
"Porque fala tudo a respeito de cadeia. Qual música fala
a respeito de cadeia e da criminalidade a não ser o rap? É
só o rap".
Então o RAP tem a ver que....
"O Rap identifica com a gente. Com o universo que a gente tá
vivendo". - Mônica Rodrigues
"Eu
gosto porque assim a mente fica mais aberta entendeu? Fica assim porque
ás vezes o senhor fica assim, com saudade da rua, com saudade da
minha família, saudade de ver as coisas bonitasa lá fora...Eu
tenho que dançar, tenho quefazer ginástica, eu faz ginástica
. Tem que fazer ginástica. .. Muitas coisas para extrair a minha
mente". - Simangele Mikhinze
Para
extrair a mente a dança é apenas um dos quase segredos que
se escondem atrás das paredes dos pavilhões da Penitenciária
Feminina. Aqui a maioria das presas trabalha. Uma iniciativa da Funap,
Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso ligada à
Secretaria de Estado da Administração Penitenciária
do governo de São Paulo. Todas as ações envolvendo
o trabalho dos presos que você vai ver nesse programa tem por trás
a mão da Funap e suas parcerias.
"A
Funap é uma fundação
pública ligada à Secretaria Estadual de Administração
Penitenciária. Ela foi criada em 1976 e a lei que autorizou o decreto
que a instituiu é de 77. Atualmente ela tem como finalidade, não
atualmente, mas por estatuto. Ela visa a ressocialização
do preso através do trabalho e objetivando a sua reinserção
social com o trabalho, a cultura, a educação e o lazer".
- Dr. Feres Sabino - Dir. FUNAP
"Olha,
nós estamos mais ou menos com 85% da população engajada
em oficinas de trabalho. O trabalho é muito bom porque ele tira
a presa da osciosidade, né? E com o produto do trabalho elas compram
pequenas guloseimas ou até mandam, como é o caso da maioria,
que manda grande pparte do dinheiro para seus familiares, para seus filhos
ou para pessoas que quando, da vinda delas para a prisão, ficam
tomando conta dessas crianças". - Carmem Lúcia
dos Santos - diretora da Penitenciária Feminina da Capital

Para as que não tem onde deixar os filhos a Penitenciária
permite que no seu Pavilhão Saúde as presas possam ficar
com os filhos até os quatro meses de idade.

"Ah eu adoro a minha filha. Pra mim, cada dia que se passa assim,
todo dia assim, eu sento na cama, converso com ela e choro, porque eu
sei que ela tem que ir embora, né? E eu tenho que ficar. Pra mim
é horrível isso". - Lindamir Gonçalves
"Ah,
para mim é muito importante. No dia que eu ganhei ela e eles falaram
que eu ia poder amamentar, eu fiquei muito contente, muito. Eu acho uma
boa estar do lado dela. Vai doer depois que ela for embora né?
Aí depois dá prá gente superar, né, fazer
o quê? Pelo menos esse tanto eu pude ficar com ela, pude divertir
ela, curtir ela". - Selma Maia
Ela nasceu aqui dentro?
"Não, ela nasceu lá no presídio de Indaiatuba.".
A tua filha botou juízo na tua cabeça ?
"Ah, botou muito. Nossa Eu vou falar pro senhor. Aí minha
mãe me deu conselho. Minha família, minha mãe já
chorou, já sofreu no hospital por causa de mim. E não mudou
a minha cabeça do jeito que a minha filha mudou. Mudou mesmo, nossa".
- Selma Maia
Vocês
também acham isso, que o filho muda a cabeça da gente?
"Ah muda, bastante".
Por que você acha?
"Ah, porque existe um pouco mais de responsabilidade né
? A gente sabe que tem um anjinho que depende da gente né ? igual
o meu mesmo ... ele só tem a mim mesmo" - Janete de
Oliveira
"A
sociedade não dá chance pra gente. Inclusive eu procurei
empregos e quando eles tiram atestado de antecedência que dá
que você já esteve presa eles não aceitam em firma
nenhuma. E olha que eu tenho profissão. Sou overloquista, sou arrematadeira,
entendeu? Tenho carteira registrada e tudo mas a sociedade não
deixa". - Janete de Oliveira
"Eu acho assim: que se tivesse emprego pra ex-presidiário,
eu acho que jamais teria cadeia, gente na cadeia, entendeu? É porque
lá fora, quando a gente sai, a gente entra nesse lugar porque não
tem emprego lá fora" - Simone do Nascimento
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