Frutos Caminhos e Parcerias - Início O Sol Não Nasce Quadrado
primeira parte
Ricardo Soares
 


Houve um tempo em que os homens e mulheres que cometiam delitos contra a sociedade eram condenados a longas penas de privação de liberdade. Confinados a ambientes hostis, privados de luz, espaço, amor e trabalho poucos se recuperavam durante a pena.

Uma grande e triste engrenagem .Mas houve um tempo em que se buscou uma saída para esta longa e triste viagem. Uma saída para a reabilitação pela porta do trabalho.

Este tempo é agora.

 

Não é academia de dança porque quem dança aqui já dançou. Mais do que malhar o corpo elas querem aqui é malhar o espírito, fugir da solidão compartilhada que é dividir o dia a dia entre quatro paredes. Dança como recreio do trabalho ao qual elas se entregam todos os dias para esquecer que estão privadas da liberdade. Cada três dias trabalhados é menos um dia na pena. As dançarinas aqui são algumas das 435 mulheres presas na Penitenciária Feminina do Complexo do Carandiru em São Paulo.


— Você acha que vc dança melhor rap, por exemplo, do que house ?
"Bem melhor".
— Por que você gosta mais de rap do que house?
"Ah, é o meu estilo de dançar.Identifica mais a nossa situação,né?"

— Por que identifica mais a situação?
"Porque fala tudo a respeito de cadeia. Qual música fala a respeito de cadeia e da criminalidade a não ser o rap? É só o rap".
— Então o RAP tem a ver que....
"O Rap identifica com a gente. Com o universo que a gente tá vivendo". - Mônica Rodrigues



"Eu gosto porque assim a mente fica mais aberta entendeu? Fica assim porque ás vezes o senhor fica assim, com saudade da rua, com saudade da minha família, saudade de ver as coisas bonitasa lá fora...Eu tenho que dançar, tenho quefazer ginástica, eu faz ginástica . Tem que fazer ginástica. .. Muitas coisas para extrair a minha mente".
- Simangele Mikhinze

 

Para extrair a mente a dança é apenas um dos quase segredos que se escondem atrás das paredes dos pavilhões da Penitenciária Feminina. Aqui a maioria das presas trabalha. Uma iniciativa da Funap, Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso ligada à Secretaria de Estado da Administração Penitenciária do governo de São Paulo. Todas as ações envolvendo o trabalho dos presos que você vai ver nesse programa tem por trás a mão da Funap e suas parcerias.


"A Funap é uma fundação pública ligada à Secretaria Estadual de Administração Penitenciária. Ela foi criada em 1976 e a lei que autorizou o decreto que a instituiu é de 77. Atualmente ela tem como finalidade, não atualmente, mas por estatuto. Ela visa a ressocialização do preso através do trabalho e objetivando a sua reinserção social com o trabalho, a cultura, a educação e o lazer". - Dr. Feres Sabino - Dir. FUNAP

 

"Olha, nós estamos mais ou menos com 85% da população engajada em oficinas de trabalho. O trabalho é muito bom porque ele tira a presa da osciosidade, né? E com o produto do trabalho elas compram pequenas guloseimas ou até mandam, como é o caso da maioria, que manda grande pparte do dinheiro para seus familiares, para seus filhos ou para pessoas que quando, da vinda delas para a prisão, ficam tomando conta dessas crianças". - Carmem Lúcia dos Santos - diretora da Penitenciária Feminina da Capital




Para as que não tem onde deixar os filhos a Penitenciária permite que no seu Pavilhão Saúde as presas possam ficar com os filhos até os quatro meses de idade.

 



"Ah eu adoro a minha filha. Pra mim, cada dia que se passa assim, todo dia assim, eu sento na cama, converso com ela e choro, porque eu sei que ela tem que ir embora, né? E eu tenho que ficar. Pra mim é horrível isso"
. - Lindamir Gonçalves

 

"Ah, para mim é muito importante. No dia que eu ganhei ela e eles falaram que eu ia poder amamentar, eu fiquei muito contente, muito. Eu acho uma boa estar do lado dela. Vai doer depois que ela for embora né? Aí depois dá prá gente superar, né, fazer o quê? Pelo menos esse tanto eu pude ficar com ela, pude divertir ela, curtir ela". - Selma Maia


— Ela nasceu aqui dentro?
"Não, ela nasceu lá no presídio de Indaiatuba.".
— A tua filha botou juízo na tua cabeça ?
"Ah, botou muito. Nossa Eu vou falar pro senhor. Aí minha mãe me deu conselho. Minha família, minha mãe já chorou, já sofreu no hospital por causa de mim. E não mudou a minha cabeça do jeito que a minha filha mudou. Mudou mesmo, nossa". - Selma Maia

— Vocês também acham isso, que o filho muda a cabeça da gente?
"Ah muda, bastante".
— Por que você acha?
"Ah, porque existe um pouco mais de responsabilidade né ? A gente sabe que tem um anjinho que depende da gente né ? igual o meu mesmo ... ele só tem a mim mesmo" - Janete de Oliveira


"A sociedade não dá chance pra gente. Inclusive eu procurei empregos e quando eles tiram atestado de antecedência que dá que você já esteve presa eles não aceitam em firma nenhuma. E olha que eu tenho profissão. Sou overloquista, sou arrematadeira, entendeu? Tenho carteira registrada e tudo mas a sociedade não deixa"
. - Janete de Oliveira


"Eu acho assim: que se tivesse emprego pra ex-presidiário, eu acho que jamais teria cadeia, gente na cadeia, entendeu? É porque lá fora, quando a gente sai, a gente entra nesse lugar porque não tem emprego lá fora" - Simone do Nascimento

 


"Então a gente não somo bicho. A gente não somo animal. A gente pode mudar de vida também, entendeu? A gente também somo gente. A gente pode mudar de vida se a gente arrumar um emprego um emprego e ver que a gente tá ganhando dinheiro, a gente pode ter certeza que aí passou pela cadeia não vai passar de volta, entendeu?" - Selma Maia


"Promove é um centro que nós estamos chamando agora de serviços comunitários. Ele começou como um centro de reabilitação. Ele é um centro de serviços comunitários. E aí, desenvolvemos por extensão esse programa das nossas oficinas de brinquedos dentro do Presídio Feminino. E a nossa proposta é um projeto que se chama "fabrincando". Porque á idéia não é só produzir brinquedos. A idéia é transmitir a essas mulheres a importância do brincar, do brinquedo como um formador de vínculo entre o adulto e a criança"
. - Marilena Flores Martins - diretora da Promove



"Aqui eu tô costurando um navio mas já fiz fantoche, borboletas..."
— O que você faz com a grana que você ganha aqui?
"Um pouco eu me mantenho, um pouco eu mantenho a minha filha".
— E o que você fez pra vim parar aqui?
"Tráfico".
— Por que você entrou nessa?
"A situação as vezes obriga".
— Por que vc acha legal trabalhar aqui ? Por que é importante ter uma atividade aqui dentro ?
"O importante é que ocupa muito a mente da gente e não dá tempo da gente ficar pondo besteira na cabeça, sabe? Fazer coisa errada mais do que já ffizemos. Então ocupa muito a mente da gente". - Maria da Conceição da Silva


"A gente mata vários coelhos com uma cajadada só, né? A gente atende a necessidade dos presos e a gente atende a missão da PROMOVE. Atrás desses impedimentos existem seres humanos com potencial, com capacidade, com sensibilidade, emoções e podem ser trabalhados de uma maneira construtiva e positiva".
- Marilena Flores Martins - Promove



"Então eu vim do Tremembé faz seis meses e quando eu cheguei aqui fiz uma proposta de posto cultural, de um projeto cultural pra FUNAP e pra casa. Foi bem acolhida e aqui estou. Sou contratada pela FUNAP pois coordeno o posto cultural. Tenho um coral que dirijo, um grupo de teatro que já são atividades estáveis. Faz um mês. Começamos com um grupo de dança... Tem sido uma batalha, mas temos sido apoiadas pela casa".
- Edith Salazar


— Rosa, de que lugar da Espanha você é ?
"Nasci em Barcelona mas nos últimos 5 anos estava morando em Madrid, por causa do meu trabalho. Madrid é a capital".

— E o que você fazia lá na Espanha?
"Desde que eu tinha 15 anos trabalhava na rádio. Eu sou radialista e comecei a trabalhar numa rádio pirata. Aí comecei a brincar e nunca pensei que seria a minha profissão. Eu fazia um programa para crianças. Aí com 17 anos eu já estava na primeira emissora legal e comecei a fazer rádio fórmula, ondas médias, programas. Aí já estava com 29 anos que foi a idade que eu tinha quando eu fui presa.
T
rabalho na lavanderia. Aprendi a passar roupa. Eu não sabia passar roupa. A minha família fica feliz por isso. A minha família nunca deixou eu pegar num ferro, nem fritar um ovo. Então aqui eu aprendi. Aprendi a me virar sozinha, a lavar a roupa, limpar a cela. Se é um trabalho que vc nunca fez pelo menos te mantém ocupada da cabeça. Isso é uma terapia. Fazendo o que seja . Eu já trabalhei em vários trabalhos aqui". - Rosa Maria Ramos


"Meu nome é Gracilene Pescuma, eu nunca conheci a minha mãe. Ela se chama Maria Leolisia Pescuma. Foi casada com Erivelton Pescuma e teve três filhos: eu, meu irmão Leandro Antânio Pescuma, que já faleceu e Luciano Angelo Pescuma, que foi adotado por uma senhora do interiorm de Garça. Me encontro presa, sou condenada a 14 anos e gostaria muito de conhecer a senhora, mãe. Um beijão". - Gracilene Pescuma



      

Através de gestos e sinais as mulheres da Penitenciária Feminina da Capital se correspondem com os homens da Penitenciária masculina logo ao lado. Pela nossa lente enxergaram muitos deles de perto pela primeira vez.

 




Veja a segunda parte do programa O Sol Não Nasce Quadrado

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