
A
cruz marca o caminho do sertão.
A fartura dos coqueiros da estrada, a largueza do rio São Francisco,
suas águas, seus peixes, estão aqui apenas pra mostrar beleza,
pro nosso olhar de viajante.
Nada disso é para dar vida ao povo sertanejo.
"Não
acredito... é 9 quilos e 900. É 9 kg e 900, quer dizer..."
Quantos anos ela tem?
"Ela tem 4 anos e 2 meses, ela deveria pesar pesar 14, a 15 kg,
no mínimo."
É um caso de desnutrição de que grau?
"De 3o grau. É o grau mais grave de desnutrição."
- Maria da Paz - pesagem
Difícil
se criar nessa secura de roças que não vingam. Pouca comida,
quase água nenhuma.
São José da Tapera, sertão
de Alagoas.
70 % da população é analfabeta, 92% não tem
renda suficiente para se manter, mais de 60% vive sem luz e sem água.
Em 1997 das mil crianças nascidas vivas, 147 morreram.
Para a Organização Mundial de Saúde esse número
não poderia ser maior do que 10 mortes para cada mil nascidos vivos.
"Antes nasciam 1000 e morriam 140, hoje não, hoje melhorou,
estão nascendo 1000 e morrendo 80." - Edneusa - Prefeita
"Isso
me assustou bastante, porque eu vinha de uma região que não
tinha essa mortalidade, na Bahia. Então, quando eu vim, morrendo
essa quantidade de criança, rápido e quando eu vi que elas
tinham aquela fisionomia até esquelética, daquelas crianças
que existem na África, eu comecei a me assustar." - Maria
da Paz Pimentel - Gerente da Visão
Mundial
Maria
da Paz atravessa as estradas de terra do sertão todos os dias,
para acompanhar o desenvolvimento das crianças desnutridas.
Ela é gerente de projetos da ong Visão
Mundial, que resolveu trabalhar em São José da Tapera
por causa dos altos índices de mortalidade infantil na cidade.

"E aí a gente começou partir pro campo e como a
gente viu que só no momento a multimistura não resolveria,
a gente também resolveu incluir a cesta básica."

Desde junho de 99 a Visão Mundial cadastrou as famílias
e passou a distribuir cestas básicas e 1,5 kg de multimistura,
para cada criança desnutrida.
E o que vai nessa multimistura?
"Vai a casca do ovo, o pó da macaxeira, semente de girassol,
de gergelim, amendoim e painço e o pó do ovo."

Você que viu esse menino antes, ele está bem melhor?
"Bem melhor. Hoje ele está com 950g a mais do que quando
ele entrou no programa. Assim, segundo o médico, ele está
numa desnutrição que já é crônica. Então
pra ele se recuperar, vai ser necessário de 2 a 3 anos." -
Maria da Paz
Erinaldo
tem 2 anos, pesa 5 quilos e meio.
É menino, mas tem olhar de homem feito.
Pouco riso, nenhuma vontade.
Olha pro sertão, mas é como se olhasse pra bem longe dali.
"Toda
gravidez dele, quando estava com 5 meses começou, era só
passando fome. Eu não comia de jeito nenhum, do jeito que amanhecia
o fogo apagado... chegava a noite sem ter o que comer, sem ter o que botar
no fogo. (...) Fiquei muito acabada, nem barriga eu fiz dele, minha barriga
era bem miudinha, acabadinha mesmo." - Rosevan de Lima - mãe
de Erinaldo
E os meninos, a sua filha...
"Ah... eu tiro o leite dos meninos, faço de comer e dou
a ela, comem os dois. Quando dá pra dar, quando não dá...
é o dia de fome. Eles ficam o dia todo chorando pra comer.(...)
Tem vez que ela fica doidinha aqui pra comer. Pede comida, eu me aperreio,
saio pra fora, faço que não estou nem escutando. Aí,
entro pra dentro e ela no meu pé: quero comer, quero comer."
- Rosevan de Lima - mãe de Erinaldo
A
primeira vez que vi Rogério foi numa foto de família.
Oito irmãos no mesmo retrato.
Uma cisterna que nunca deu água e uma casa de pouca mobília.
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Fui
menino de zóio grande. Miúdo pro tempo que eu tinha.
Aqueles bracinho fino, as canelinha fina.
Menino de pouco corpo, nascido na grandeza daquele deserto nordestino.
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