Frutos Caminhos e Parcerias - Início Desperdício (São Paulo - SP)
segunda parte
Neide Duarte
 


As vezes passamos agigantados, longas pernas, tudo alcançaremos. Outras vezes passamos aos pedaços, diminuídos na nossa humanidade. Os carros já não são o que eram, tecnologia desvirtuada. Os prédios da Paulista passam distorcidos na sua arquitetura, um traço oblíquo na América. E a cidade de tanto se espelhar, reflete o seu oposto. O contrário de tudo o que planejou.


Mais de 3 milhões de crianças brasileiras de 0 a 6 anos de idade têm pouco peso e pouca altura, capacidade mental inadequada.

3 milhões de crianças brasileiras não têm comida suficiente.



"E aí Mané? Tudo bem? Tem alguma doação prá nós hoje?"


"Para o Mesa SP? Tem sim, tem um pouco de mamão."
"Mamão, opa que beleza."



Pelo Ceagesp, onde circulam 10 mil toneladas de alimentos por dia, o Mesa SP cresce e espera dar frutos, servindo de ponte entre a fome e o desperdício.

"O que deseja o SESC é que isso seja reproduzido em todo canto do Brasil. Temos imensa satisfação em passar essa pequena experiência que nós temos, esse caminho que nós percorremos até hoje. Acho que o brasileiro tem sempre muita disponibilidade, um interesse em participar dessas coisas, em doar, em estar presente." - Efre Antonio Rizzo

"Para o banco de alimentos a senhora vai separar? Tá bom, daqui a pouco a gente pega."

"Eu tenho dó de jogar fora, então eu prefiro doar."
— Antes a senhora jogava fora?
"Jogava de quarta feira até domingo jogava, não tinha pra quem dar." - Nina Kokuba - comerciante


Suzete é nutricionista e junto com Valter e Marcelo trabalham na ONG Banco de Alimentos fazendo um trabalho semelhante ao Mesa SP.

É muito fácil esse contato com as pessoas que querem doar, todo mundo quer doar?
"Depende... verduras, legumes, esse tipo de coisa é mais fácil, você consegue chegar no sacolão, no mercado, é mais fácil. Mas, produtos não perecíveis, industrializados, próximos do vencimento, geralmente não são doados."
— Supermercado também não doa?
"Não doa, normalmente não, principalmente os grandes supermercados, os pequenos são um pouco mais fáceis." - Suzete Raimondi - nutricionista



Com apenas 4 funcionários, um furgão emprestado pela General Motors, o Banco de Alimentos distribui 10 mil quilos de alimentos por mês.




"Olha, eu gasto 5 mil reais por mês. Meu custo basicamente é de manter mão de obra, porque uma ong é uma empresa do terceiro setor, os meus funcionários têm carteira assinada, férias, 13O. (...) O SESC me passou essa tecnologia e economizou muito tempo, já fez com que a gente começasse a trabalhar num patamar bem profissional."
- Luciana Quintão - empresária
fundadora da ONG Banco de Alimentos

Você distribui em que lugares?
"São Paulo, apenas São Paulo, em 24 instituições. Essa é uma delas.
Casa de David
. Essa é a Fatiminha."
"Oi, tudo bem?"
— Há quanto tempo você mora aqui?
"Faz tempo."
Você veio pequenininha?
"Pequenininha."
E a sua família? Sua mãe?
"Minha mãe? Tá em casa."
Ela vem te visitar?
"Não."
Mas ela já veio te visitar uma vez?
"Veio."
Quantas vezes ela já veio?
"Faz tempo..."


Casa de David.

331 crianças vivem aqui.

São deficientes físicos e mentais.



"A casa existe há 27 anos, nós temos crianças que estão na casa há 27 anos e a média é 17, 18."

— Por que elas chegam aqui e não saem?
"É porque geralmente são aquelas crianças que, ou a família não tem condições de cuidar ou são abandonadas e vem através do SOS."

— Abandonada? Pela família?
"Pela família, pela família." - Alexandra Rodrigues - coordenadora Casa de David



— Faz quanto tempo que você não vê a sua mãe?

"Faz tempo. Ela não vem aqui." -
Osiel

 


— E a sua mãe?
"Morreu quando eu nasci."
E o seu pai?
"Está vivo."
Ele vem te visitar?
"Não, nunca veio?" - Cidinha





"O que eu sonho para o futuro?

Que tenha muita fruta, melancia."
- Oswaldo




"Na época que eu entrei pro setor de nutrição há 9 anos atrás, a gente só servia polenta. A gente recebia de doação carcaça de frango, então a gente aproveitava os pedaços de frango das carcaças pra gente aproveitar."

— Era basicamente isso que eles comiam?
"Era." - Iracema Ferreira - nutricionista


Estão sobrando jacas no Ceagesp.

Luís e Paulo, do Mesa SP, vão carregar o caminhão e depois distribuir pelos asilos, orfanatos, albergues.

Eles moravam nas ruas, não tinham onde tomar banho, onde dormir. A vida em constante exposição. Intimidade revelada sem intenção.

Toda essa gente hoje vive junto de um castelo. História de princesa. Maria Eulina sonhava com isso.

Ela criou o Clube de Mães do Brasil, onde moram 70 pessoas que viviam nas ruas.Há vinte e cinco anos atrás ela era um deles. Essa sertaneja do Maranhão viveu quase 2 anos nas ruas, sem ter onde morar.


"Eu morei nas ruas e dormi muitas vezes no porão desse castelo. Então, aqui era onde eu conseguia delirar, vamos dizer assim, sonhar que um dia eu estaria montando uma obra social no meu país."
- Maria Eulina Hilsenbeck - presidente Clube de Mães do Brasil



O Clube de Mães do Brasil já conseguiu tirar 528 pessoas das ruas. Além dos que moram, eles oferecem um banho a quem quiser e servem almoço e jantar a quem passar por ali.

— Quanto tempo você viveu na rua?
"2 anos, morava ali no muro da Santa Casa."
— No muro?
"No muro, deitado no chão num papelão (...) A gente se sente só, parece que você não é humano(...) Eu vim aqui um dia tomar banho aí o Fábio falou, você mora na rua? Eu falei, moro, então ele falou, se quiser ficar aqui pode ficar." - Luciano Camilo Neto

"Aí, eu estava andando pela rua Apa e resolvi realmente entrar aqui dentro e eu entrei e procurei pela dona Maria Eulina. Ela veio gentilmente, me atendeu. Eu já sabia a história dela, conversei com ela. Então, ela falou assim: olha eu vou arrumar um cantinho prá você, pra ficar até você se estabilizar e um dia ter o seu próprio canto."

Mostra o seu quarto pra gente?
"Não, não pelo amor de Deus, não. Isso não Neide está muito bagunçado... em nome do pai, minha filha."

— Mostra só pra gente... Aqui mora quem?
"Aqui é o quarto da Rita esse aqui é da barrigudinha, Chiquita. Aqui é o da moça só que está meio bagunçado, aqui é o nosso banheiro. E aqui é o meu cafofo."

— Abre aí pra gente ver.

"Eu estou sem a chave, estou sem mesmo, estou sem a chave." - Bá - Maria Benedita Olímpio


"Na rua a gente ficava por aí, debaixo da ponte(...) A gente dormia na rua, não sabia se ia amanhecer vivo ou se ia amanhecer morto, nada disso."

"As vezes passava bastante, passava até demais e sobrava, mas as vezes não passava nada também, as vezes a gente passava fome."

"Tem muita gente que você pede e eles nem olham pra você, faz de conta que você é ninguém. Você é muito humilhado na rua."
- Roseni Abreu e José Carlos Araújo

"Antes de vir pra cá fiquei alguns dias passando necessidades, sem ter o que almoçar, sem ter o que jantar, mas em nenhum momento eu perdi a dignidade."

Você não chegou a pedir pra ninguém?
"Não, também não cheguei a pedir." - Cláudio




"Nós estamos matando os filhos dessa nação aos poucos porque qualquer pessoa que vai para debaixo de uma ponte, levando uma sopa, achando que aquilo está mudando a vida daquele cidadão, pois tenha certeza que não está.

Ele recebe a sopa, mas ele se sente impotente, incapaz.


Eu sou capaz de estar num chiqueiro e alguém vem me deixar comida, como aos porcos, mas ninguém é capaz de me tirar daqui.

E é isso que o homem de rua quer. Todo mundo um dia teve um lar." -
Maria Eulina



"Eu quero mandar um beijão bem grande para a minha tia Jacira Macedo, que mora lá no Rio de Janeiro.

Tia, estou morrendo de saudade da senhora.

Eu estou aqui em São Paulo no Clube de mães do Brasil, um beijo pra senhora."
- Bá - Maria Benedita Olímpio





Ficha Técnica e Discografia



Veja a primeira parte do programa sobre Desperdício (São Paulo - SP)

 

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