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O
tempo passa barroco.
Tudo é demais, tudo é excessivo, um sol tardio entre montanhas
que conservam, seguram, contêm.
A paisagem não facilita a comunicação.
As montanhas limitam, impõe barreiras, isolam.
"Eu não falo com meu pai. Desde uma vez que ele me bateu
a toa, me machucou muito... não conversei mais com ele."
Faz quanto tempo que você não fala com seu pai?
"Uns dois anos." - Rosângela Cristina
"Eu morava
em Ouro Preto sozinho. Eu e meu irmão gêmeo, com 14 anos."
Por que vocês não moravam com a sua mãe?
"Porque ela veio pra cá,conheceu um cara e ficou com o
cara." - Paulo Cota
"Aí,
ficou eu e o meu pai bebendo.
Ele comprava pinga,
porque ele é viciado em bebida alcoólica, então ele
comprava litros. Deixava lá e eu bebia." - Viviam Montebeller
"Meu
pai e minha mãe trabalhavam em carvoaria na roça, eles sempre
brigavam. Um dia minha mãe resolveu sair de casa e colocou veneno
para o meu pai. Eu e meu irmão sabíamos do veneno, então
na hora que ele chegou do serviço nós avisamos. Ela ficou
chateada por nós termos avisado, então ela pegou as irmãs
mais velhas e saiu de casa com elas, deixando os mais novos. Eu devia
ter no mínimo uns 6, 7 anos de idade."
- Geraldo Ferreira
Rolar
pedras entre montanhas. O ofício da cantaria.
Aprender restauro,
um pouco marceneiro, um pouco pedreiro. Construir, conservar, recuperar.
Esses são os
verbos no Oficina Escola.
"Eles
estão num país que pode ficar sem memória. Um país
que caminha largamente a perder a memória. Se tratam o jovem assim,
imagine o nosso patrimônio cultural! E é um país que
se deslumbrou com a tecnologia e esqueceu dos ofícios e precisamos
desse trabalho feito com as mãos.(...)
Eles têm curiosidade, pela curiosidade você leva à
história. A história é importante, porque eles começam
a entender da política, da sociedade." - Júlio
Barros - coordenador do Oficina Escola
A
neblina é densa como uma coberta, as casa são pequenas para
não chamar a atenção.
Lavras Novas.
Antigo quilombo de escravos fugitivos, lugar ideal para se esconder dos
brancos ricos de Ouro Preto, distante 50Km do povoado.
Você nasceu aqui?
"Nasci."
E o seu pai?
"Também."
E o seu avô?
"Também."
E o seu bisavô?
"Nasceu aqui também." - Ednílson Lessa
- Instrutor do Oficina Escola
Ednílson,
junto com Adão e Cabeludo são os mestres da obra da igreja
de Nossa Senhora dos Prazeres.Igreja
dos negros.
No lugar do anjo barroco,
a proteção de outro ser: um pouco sereia, um pouco Iemanjá.
"Tem
um ano que eu faço curso na Oficina Escola, na parte de alvenaria.
Essa é a primeira obra que eu estou pegando como instrutor.(...)
Aqui nós chegamos a fazer essa pintura e o passeio do lado.agora
vamos pintar por dentro, mexer com parte de dentro." - Adão
de Oliveira - instrutor do Oficina Escola
Uma
congada se ajeita e se levanta. Um conto de escravos. Um ponto tão
negro. E a Minas Gerais africana sai e se conserva.
Virgem Santa do Rosário.
Viva Maria no céu com seu terço na mão, contemplando
o mistério.
"Aí, o Chico Rei fêi essa língua, ele falava
tudu atrapaiado, purque os iscravo, num tem um qui ocê intendi a
língua deles."
Como é que o Sr. que é branco aprendeu a essa dança
e essa língua dos negros?
"Eu não sou branco! Eu sou negro! Eu sou sangue de negro.
Não adianta, eu sou amarelo assim,
mas não sou branco, eu sou sangue de negro mesmo. Eu sou do
sangue dos escravos."
Quem era negro na sua família?
"Meu bisavô era negro escravo." - Antônio
de Paiva Seo Carbonato - Chefe da Congada
Orgulho
de tanta memória. Das senzalas e de cantos, de ferros e de vozes,
de santos e de minas.
Do negro mais distante,
do Brasil mais esquecido.
Orgulho de ser negro por herança.
"Caminhemos, caminhemos lá na pia de Belém. A visitar
menino Deus e Santa Maria também." - Maria do Carmo
- lavadora
O que mudou no comportamento deles, desde que vieram pra cá?
"Primeiro, eles te olham no olho e conversam com você, contam
as coisas, conversam com dignidade. Eles não têm vergonha
do que aconteceu com eles. A gente fala pra eles que a história
da vida deles é a história da vida deles e é dura,
então eles têm que ser fortes." - Júlio
Barros - Coordenador do Oficina Escola
Você nunca mais viu sua mãe?
"Eu vi, sempre vejo ela."
Você nunca falou pra ela o que você sentiu quando ela
foi embora?
"Não, nunca parei pra falar, falta coragem. A gente chegar
perto de uma mãe e cobrar uma coisa dessa, tem que ter muita coragem."
- Geraldo Ferreira
"Eu acho
que foi uma perda de tempo, perdi bebendo, fazendo coisas que não
têm significado para mim." - Viviam Montebeller
"É
uma passagem, todo mundo tem uma passagem." - Rosângela
Cristina
"É tipo um deserto. Você planta e aos 18 anos, vira
um deserto. Aquilo que você plantou você colhe."
- Paulo Cota

Veja
a segunda parte do programa sobre Oficina Escola (Ouro Preto - MG)
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