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primeira parte
Neide Duarte
 


Nessas águas cor de barro estão as montanhas da Cordilheira dos Andes, o nosso continente que passa, a terra do Amazonas.

O Solimões carrega dos Andes para o Oceano Atlântico 800 milhões de toneladas de terra por ano. Tudo cabe no Solimões. Só ele não cabe em si.

O rio com maior volume de água do mundo, não tem leito próprio. Nas cheias as margens se alargam em até 100 km. E nisso vive seu drama. O Solimões destrói o que construíra antes e ergue de outra forma o que já havia arrasado, num eterno ato de criação do mundo. O rio é uma espécie de tempo. O rio é o princípio. O rio é o verbo.

Estamos a 500 km de Manaus. No Amazonas nosso destino é Alvarães. Destino com vista para um braço do Solimões. Destino de ruas estreitas, poucas calçadas. Destino de pouca gente.

Alvarães é uma cidade de quatro mil habitantes. Foi este o lugar escolhido pelo Programa Universidade Solidária para que estudantes universitários se entregassem a vida amazônica de ser do rio, de ser da floresta.

 


— Vai levar isso pra São Paulo?

"Já tô levando. Isso é uma cabaça. Pra fazer... Acho que eu vou fazer uma cuia, um abajour, uma coisa assim." - Chico - Aluno UNIVAP

 

Para trazer 30 universitários paulistas para a Amazônia o Universidade Solidária fez várias parcerias: as Forças Armadas deram o transporte: o vôo até Tefé e a balsa até Alvarães. A prefeitura de Alvarães deu alojamento, alimentação e reuniu os professores rurais.

Os universitários e coordenadores foram escolhidos na UNICAMP em Campinas e na UNIVAP, em São José dos Campos.


"O Programa Universidade Solidária, a idéia dele é fazer uma integração entre a universidade e pequenas comunidades que sejam carentes.

Na verdade é uma troca: levar aos alunos o aprendizado do que realmente é o Brasil, como vivem as comunidades, cidades do norte e nordeste e, ao mesmo tempo levar a essas comunidades um pouco de conhecimento das universidades do sul." - Celso - Coordenador Universidade Solidária - Unicamp

 

"Eu tô iniciando o curso de geografia na UNICAMP e o fato de ter vindo pra cá, a gente está tendo contacto com outras realidades brasileiras.

E me impressionou muito essa vida na Amazônia." - Paulo Amaral


Fim de tarde na Amazônia.
Bumba meu Boi não é folclore, é brincadeira preferida.
Os mitos da floresta estão vivos nas vozes das crianças.
A Curupira, A Mãe da Mata, a que faz o medo.

"Todo dia posso te garantir que a gente aprende alguma coisa diferente.No relacionamento com as pessoas o seu potencial você se põe à prova toda hora. Então, essa viagem é uma das coisas mais ricas assim que eu estou tendo." - Chico


A Amazônia é um lugar onde mãe ainda canta para filho dormir depois do almoço.

"A maneira como eles vivem é fascinante. É muita simplicidade.

Eles não precisam de tanta coisa como a gente acha que precisa.

Eles vivem muito bem com as coisas que a natureza proporciona." - Érica - Odonto


A Amazônia é um lugar onde o dinheiro circula na mão de muito pouca gente.

— Essas cadernetas são o quê?
"São das pessoas que devem, que compram a prazo. Muita gente compra fiado aqui, gente do interior."

— Quer dizer que tem gente que te paga de ano em ano?
"De ano em ano. Quando não... mais de ano. Teve um senhor que apareceu que eu ainda nem encontrei o nome dele nos cadernos. Tem uns que comparecem de mês em mês, trazem seus produtos para abater a conta."

— Eles te dão os produtos ao invés de pagar?
"Eles entregam o produto pra abater nas contas. Trazem farinha e castanha e peixe liso também."

— Dinheiro mesmo eles não te dão?
"Dinheiro é difícil." - Teresinha - Armazém


"Tem coisas que te chocam. A saúde, o descaso com a saúde, a falta de assistência e como as pessoas aqui vivem sem saúde e encaram isso como uma coisa normal. Sendo que a gente sabe que não. Muitas pessoas morrem e sofrem sendo que se estivessem na cidade grande ou se tivessem uma assistência mínima não estariam sofrendo." - Taís Moreira


Todos os dias cerca de 40 pessoas procuram o posto de saúde de Alvarães para fazer o teste e descobrir se estão com malária.

Em 1997 foram 825 casos, 1998 foi um ano assustador: 4.500 casos de malária.


"Essa epidemia se expandiu muito porque acabou a medicação. A gente não tinha como fazer o tratamento, aí foi aumentando de uma maneira que ficou sem controle."

— E o que você é do posto de saúde?
"Eu sou auxiliar de enfermagem, do posto de saúde e sou vereadora e respondo pela direção. (...)

Receito remédios também, analgésico, alguma coisa assim, antibiótico talvez, no caso de sutura, né?" - Maria de Fátima Brito - Auxiliar de enfermagem

 


"Na área de saúde a carência é muito maior ainda. Nós esperamos nesses primeiros módulos que estão acontecendo aqui, que venha melhorias através das informações, dos estudos que foram feitos, do conhecimento da área.

Já que eles são pessoas que vão levar algum relatório para que outros tenham conhecimento lá de qual é a carência da saúde no município de Alvarães." - Sidônio Trindade - Prefeito de Alvarães


"Em relação a saúde tem muita coisa que precisa ser feita, a primeira coisa é montar faculdades, universidades aqui na Amazônia. Não tem universidade nenhuma, nenhum profissional de terceiro grau é formado na Amazônia, só em Manaus." - Taís



As dificuldades são enormes. Não existem bibliotecas, poucos livros circulam por aqui. Quando os rios saem das suas margens e invadem tudo, muitas comunidades fecham suas escolas.

Alunos são obrigados a mudar de povoado e abandonam as aulas. Nessa região 58% das crianças em idade escolar não frequentam a escola.


Os professores se esforçam. Eles são 60 e vieram de várias vilas vizinhas, das margens do Solimões e do Japurá.

E esse encontro com universitários tem o tom de uma reciclagem, de um refazer, de uma descoberta.

"Antes nós não tinhamos nem pra onde correr, lá na Secretaria de Educação tem uma biblioteca, mas a gente não pode ficar lá mexendo, metendo a mão, né? Agora, com essa idéia nós vamos ter a nossa biblioteca. Inclusive ela vai ficar um tempo no Solimões e outro no rio Tefé, que são duas áreas. Em cada comunidade passa uma semana, um determinado tempo." - Rosa - Professora rural


Desse encontro com o pessoal do Universidade Solidária nasceram três projetos: uma biblioteca flutuante, como tratar o lixo e a criação de uma associação de pais e mestres.


"Então nós achamos muito importante fazer com que os pais se interessem, e também trazer os pais até a sala de aula, até a escola. Porque queremos a união da comunidade com a escola." - Osmar

"A organização comunitária é uma coisa assim espantosa.

E tenho dito sempre pra eles, a primeira coisa que aprendi aqui é que é possível a organização comunitária e que quando ela acontece, eles conseguem tudo." - Nena - Coordenadora Universidade Solidária


"Com relação ao Universidade Solidária, é uma coisa muito boa, porque motiva a gente. Por exemplo, nós estamos fazendo nosso trabalho e é mais gratificante, porque tudo que nós resolvemos em grupo, o que nós pensamos, as soluções, tudo que nós fazemos eles copiam. Fica guardado com eles pra levarem. Então isso que a gente vê eles fazerem, a gente se sente mais orgulhoso." - Joni

"Aqui eles priorizam muito as relações, o papo, a conversa, o olho no olho. Muito mais do que saber quem é você, de onde veio. Ninguém fica perguntando: Você é da Unicamp? O que você é na Unicamp? Eles querem olhar você, saber se você respeita, se você escuta. Isso eu acho que é um aprendizado muito bom, nós estamos aprendendo isso. O que nós estamos oferecendo? Acho que estamos oferecendo o óbvio. Um pouco de conhecimento que a universidade pode proporcionar pra gente." - Sandro Tonso - Coord. Universidade Solidária


Falta muita coisa em Alvarães. Quem reza a missa dos domingos é o vice prefeito Delmiro, quem dá a hóstia é o pedreiro João Seixas.

O padre não é padre, o médico não é médico. Vivendo seu isolamento e abandono, as comunidades da Amazônia vão curando seus doentes, rezando suas missas.

E no meio desses rios, da violência das águas, só eles sabem o quanto custa estar vivo na Amazônia.


"Esse ano deu muita arara por aqui, Virgem Maria, minhas pupunhas eu nem pude amadurecer que elas comeram tudo, arara e papagaio."

— Todo mundo comeu arara por aqui ?
"A gente come arara. Você não comeu arara esse ano? Ele não comeu, eu também não, eu só comi papagaio." - Teresa - Moradora de Uarini



— E esse macaquinho, é um filhote?
"É, é um barrigudo."

— Como veio parar aqui?
"É o caboclo, eles pegam lá na mata."

— Não acontece muito de caçador matar a mãe, aí fica o filhote?
"Acontece, eles agridem, eles matam e fica o filhote. Eles matam pra comer, e aí sobra o filhote." - Prefeito Sidônio


Chiquinha é uma menina de 4 meses.

Conhece o medo, o tiro, a morte da mãe, o amor perdido.

É sobre-humano viver na floresta.

 



Veja a segunda parte do programa sobre Alvarães

 

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