Frutos Caminhos e Parcerias - Início Monte Azul, São Paulo, SP
primeira parte
Neide Duarte
 



Não viver nela. Passar e dar a ela pouco olhar. E acreditar que as favelas são todas iguais. Preto e branco. Negativo e sua sombra. A que está atrás. A última das cidades. A última das gentes. Mas quando atravessar os seus caminhos, perceber que a favela irradia, ultrapassa suas escadarias, suas ruas de fotografia, suas impressões, sua identidade. E o que devolve a cidade...

 

"Eu quero ser compositor e sair com o grupo tocando pelo mundo."

— Você sente que é um artista?
"É, sinto, acho que sim. Tem muito artista aqui na favela, tem bastante." - Eraldo de Jesus


Pelos bares, pelas vielas, pelos quintais, pelas suas cortinas de plástico, pelos varais, em tudo a favela Monte Azul está comprometida com a arte. Seus filhos sonham com isso. E essa ligação com a arte e a cultura começou com a educadora Ute Craemer.

 

Ute veio da Alemanha em 1971, dava aulas num colégio alemão e morava na frente da favela. Em 1980 abandonou o colégio e passou a se dedicar só a vida da favela, criando a Associação Comunitária Monte Azul.

"Toda favela se transformou. Agora, o que eu acho que aconteceu aqui, foi que esse lado mais artístico e também, mais espiritual foi levado mais a sério, tanto na educação, como na cultura.(...) O mais importante mesmo, nesse processo artístico é o processo, não o resultado. Porque é justamente dentro desse processo artístico que o ser humano se transforma. Ele vai ter criatividade, essa criatividade não vai servir só pra ele produzir uma obra artística, mas que vai servir pra vida." - Ute Creamer - Educadora

 

É popular o seu recado, mas dentro da casa no meio da favela, a dança é clássica. Sapatilhas usadas, duras pontas.

A vida de Ana Paula, a professora. A vida da favela segue em paralelas. Este é o lugar que inspira Claudemir a ser moderno, escrever um rap e este também é o lugar que inspira Ana Paula a ser clássica e dar aula de ballet.

"Eu já fui moradora e hoje eu ajudo elas a aprenderem um pouquinho do que eu aprendi.(...) Eu não posso dar um futuro, prometer um futuro, prometer um municipal pra elas, porque nem pra mim eu posso isso." - Ana Paula

Cada passo uma música diferente. A favela é muito segundas e sábados. E sábado é dia de rádio ligado bem alto. Assim são os sábados de Domingas.


"Vocês vão filmar minha casa sem arrumar, sem nada?"

— Que música é essa que você está ouvindo?
"É Adelindo Nascimento. Eu gosto de música romântica, eu gosto do Reginaldo Rossi também, eu adoro as músicas dele.(...) Minha casa tá muito bagunçada. Eu faço essas coisas pra botar de presente para o dia das mães. Esses daqui são os arranjos que eu faço, trabalho com papel de seda, né? Faço boneca, ponho dentro das caixinhas..." - Domingas Dias

Domingas Dias era metalurgica. Está desempregada há mais de dois anos.

 

— Você freqüenta o centro cultural?
"Não, eu não tenho tempo, quem vai é minha mulher, as vezes."

— E o que ela faz lá?
"É só ela que sabe. Oh Maria! O que você faz no centro cultural? O que você faz... Vem aqui!!!" - Antônio Vaz
"A minha filha é que faz teatro lá no centro cultural."

— Aonde que ela faz teatro?
"Anabela vem aqui!!! Ela que sabe explicar." - Maria Vaz
"Eu participo de um núcleo de jovens. Começamos agora uma peça chamada Submundo. 'Submundo de Teatro'."

— E o que voce quer estudar?
"Eu quero fazer artes cênicas, quero ser atriz." - Anabela Vaz

 


Em 20 anos o trabalho da Associação Comunitária Monte Azul espalhou pela favela a vontade de estudar, de buscar cultura, engenho e arte. Para realizar esse trabalho a associação recebe ajuda principalmente da prefeitura.


"A gente também tem parcerias com a Abrinq. Depois tem uma outra fundação que chama Amencar, ajuda o menor carente, desde 79 a gente tem uma parceria com ela, tem uma outra que chama Associação Tobias que ajuda mais nessa parte do ambulatório, e tem os sócios da nossa associação aqui no Brasil e outros amigos na Alemanha." - Ute


"O que eu falo? Que eu sou uma lavadeira de rio Vermelho. 'Vive dentro de mim a lavadeira de rio Vermelho, seu cheiro gostoso de água e sabão, o dia de pano, trouxa de roupa, pedra de anil, sou coroa verde de São Caetano', só isso." - Marie-lena Köhler - voluntária

 


O texto é de Cora Coralina, palavras que Marie-Lena e Claudia aprenderam e repetem em todas as apresentações do grupo de teatro do Centro Cultural.

Elas são alemãs e vieram como voluntárias trabalhar com a comunidade da favela.

 

A força cultural da favela ultrapassa os seus limites. A bateria de Pitu sempre atraiu a garotada da favela. Aos poucos eles foram chegando, fazendo amizade com o músico, até que criaram uma banda de lata.

"Todas crianças são da favela. Então, a gente sentiu que eles tinham um pouco de carência nessa parte cultural da música.(...) A gente montou uma oficina de música, porque a gente começa a elaborar instrumentos, a gente monta as latas, bota recheio nelas de madeira para não amassar muito. Porque a gente precisa de latas, cada apresentação que a gente faz, tem que trocar todas as latas, porque amassa tudo." - Pitu Batera - músico

Passarinho veio do nordeste, com a sanfona nas costas, logo lhe disseram que um bom lugar para encontrar artistas, trocar experiencias era na Monte Azul.


"Olha, eu vim parar na Monte Azul porque eu estava na Record, tentando ver se eu conseguiria algum programa e apareceu um moço que trabalha na Monte Azul. Aí a Ute, a diretora da coordenação do Monte Azul disse: 'Você fica aí até duas semanas'. Então completou duas semanas eu já consegui um barzinho pra tocar." - Passarinho - sanfoneiro

 

E os meninos das outras favelas também buscam aqui o que a arte pode lhes dar.

"Eu vim pra cá porque falaram que aqui é um lugar de arte, tem várias coisas que a gente pode aproveitar, aí eu saí do lugar onde eu moro, venho prá cá, lá é muito difícil ter coisas que a gente goste." - Alex


— Quando você está aqui tocando piano o que é que você pensa?
"Eu esqueço os problemas da vida e só fica eu e o piano. Nada mais existe, só depois que acaba a aula que volta o mundo de novo."

— E o mundo é duro?
"Difícil, é difícil, a vida é difícil, tudo é difícil nessa vida." - Bruno


 



Veja a segunda parte do programa sobre Monte Azul

 

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