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primeira parte
Neide Duarte
   



Tudo o que dificulta nosso caminho, esbarra nas nossas deficiências.

E é diante delas que aprendemos nosso melhor trajeto, a melhor maneira de encontrar nossas dificuldades e caminhar com elas.


"Vamos andando que eu vou te mostrar alguns obstáculos. Aqui eu já estou indo para a beira da calçada, deixa eu vir mais para cá... esse é o medo de trombar com um carro. É um dos medos de trombar nos carros . Por exemplo isso atrapalha o portador de deficiência, esses canteirinhos são coisas que as vezes o deficiente localiza muito pela parede onde ele vai, então isso aqui já atrapalha, as vezes ele pode tropeçar nisso, sem mais nem menos." - Sérgio Santos - Recepcionista Avape


Tropeçar faz parte da caminhada de todo mundo e Sérgio, as vezes, parece ver melhor do que os que enxergam. Sérgio é recepcionista de uma das unidades da Avape, uma entidade para pessoas com deficiência.

 


— Como é que você sabe quando se aproxima uma pessoa daqui se ela não falar nada?

"Ah, pelo próprio som, as vezes do andar da pessoa, a pessoa chega no balcão ela encosta a mão." - Sérgio


O caminho até o trabalho já é um obstáculo, mas para uma pessoa deficiente conseguir um emprego é preciso superar impedimentos muito maiores do que os degraus da escadaria do Metrô.

"A gente tem que querer muito voltar a vida de novo, senão você vai ficar em casa. Você não vai fazer nada. Tudo te leva a não querer sair de casa. Porque é muita discriminação , é em tudo..." - Nely Alves - Digitadora Avape


Eles são 16 milhões de brasileiros. Sonham com uma vida normal , casar, ter filhos, trabalhar. Mas as coisas não costumam ser muito transparentes para as pessoas portadoras de deficiências.

Algumas entidades tem um papel fundamental na colocação de empregos, mas normalmente o que conta é o esforço pessoal de cada um.


Silvia, advogada, trabalha como os olhos de Ricardo, promotor chefe da Justiça do Trabalho, em Campinas.

"Ah, foi uma epopéia, de fato quando eu me formei havia uma dificuldade muito grande em conseguir credibilidade dos eventuais empregadores, quer dizer, a tendência era achar que a deficiência visual impediria um trabalho de qualidade."
- Ricardo Fonseca - Promotor Chefe da Justiça do Trabalho de Campinas

 

Ricardo queria ser juiz. Estava prestando concurso, mas a sombra da sua condição física ocupou o espaço da sua capacidade.

 

"Estava inscrito no concurso, o tribunal havia concordado com a minha inscrição. O Tribunal Regional do Trabalho, segunda região aí em São Paulo. Foi antecipado só o meu exame médico, os dos demais candidatos seriam feitos depois do término do concurso. Anteciparam o meu exame médico e com base em um laudo médico que eu entendo incompleto, me excluiram do concurso. Alegando que um cego não pode ser juiz." - Ricardo Fonseca


"Eu quase desacreditei da Justiça no Brasil, mas o Ministério Público brasileiro, o Ministério Público do trabalho, o Ministério Público da União, resgatou a minha fé na justiça." - Ricardo Fonseca

 

O trabalho é quase um milagre nestes tempos de desemprego.

A Avape, uma entidade assistencial, prepara deficientes para o mercado de trabalho, mas muita gente passa anos na instituição sem conseguir uma colocação.



— Faz quanto tempo que você está aqui?
"3 anos."

— Você está aprendendo ou você já é funcionário?
"Não, eu estou aprendendo ainda, eu sou cliente."

— Você está aprendendo a fazer pão?
"Isso, eu sou cliente."

— Mas faz 3 anos que você está aprendendo?
"3 anos, 97,98,99." - Renato - Cliente da Avape


— Há quanto tempo você está aqui?
"1 ano e 3 meses."

— Você já é funcionária?
"Não ainda não. Sou cliente

— Eles não conseguiram arrumar um outro emprego pra você?
"Ainda não, tenho problema de epilepsia. Por causa do problema da epilepsia tá difícil de arrumar um emprego pra mim." - Ana Lúcia Leal - Cliente Avape


É como uma linha de produção. Eles trabalham oito horas e produzem 15 mil peças por dia.
Não ganham salário, recebem um prêmio de acordo com o desempenho onde conta pontualidade, comportamento, etc.Esse prêmio varia de 30 a 70 reais. Por outro lado, como eles estão aqui a título de aprendizado pagam 50 reais por mês.

   


— Mas vocês acham normal as pessoas trabalharem e não receberem?

"Não, não. Eu acho que quando você trabalha você tem que receber. Todo nosso processo de reabilitação profissional ele tem um caráter educacional para o trabalho, então nós não temos essa questão do vínculo empregatício. A gente procura ter o ambiente de trabalho mais real possível pra que quando as pessoas saiam daqui elas não sofram um impacto na sociedade." - Marcelo Vitoriano - Chefe da oficina-escola Avape


A Avape mantém convênios com grandes empresas como a Volkswagen e a Mercedes Benz. Numa estão empregados 26 deficientes e na outra 27.

Na Mercedes eles trabalham na limpeza da cozinha e na Volkswagen no departamento de computação. A maioria está empregada há muitos anos.



"Eu conheci a Avape quando eu estava procurando emprego, há 5 anos atrás, por um jornal. Eu vi um anúncio lá: 'vagas para deficientes físicos, a gente coloca em grandes empresas. É só mandar o currículo'." - Nely Alves


Maria Aparecida é a supervisora da seção, administradora de empresas, foi vítima de um erro médico, quando estava na faculdade. Desde então não pode mais andar.


— Vocês dão preferência para um deficiente físico trabalhar?

"Com certeza, se tiver um portador e um não portador habilitado para a mesma função a oportunidade é para quem tem deficiência física ou auditiva. Nós não encontramos com muita facilidade deficientes físicos para trabalhar. Dependendo da quantidade de portadores que nós necessitamos, por causa do grau escolar da pessoa e também das dificuldades que ela também encontra para ter a escolaridade adequada." - Maria Aparecida Videira - Coordenadora Avape - Volkswagem


— E como é que você conseguiu terminar o colegial?

"Como eu consegui estudar até o colegial?
Não tem professores especiais, eu fiz amizade com outras alunas da classe.
As pessoas ajudam... eu fico perdida. É bom colocar professor especializado na faculdade é importante para mim, para todos." - Gina Behn - Digitadora Avape


"Já tenho o segundo grau completo. agora falta fazer uma faculdade, mas é essa a minha dificuldade. Porque eu sei que lá não vou conseguir entender o que o professor vai falar. Porque muitos professores de faculdade falam muito rápido e as vezes ele está explicando uma matéria, aí de repente ele vira, fica de costas, aí não dá para eu entender. Tem que ser de frente mesmo." - Inês - Digitadora Avape


Inês, como qualquer deficiente auditivo não consegue assistir televisão e entender tudo o que é dito.


— Por que você perde a notícia na televisão?

"Porque não mostra o repórter falando. Por exemplo, plantão nunca mostra o repórter falando, só aquele plantão na televisão e o homem vai falando e eu não estou entendendo. E eu não vejo a hora de terminar para eu perguntar para alguém." - Inês


Inês trabalha na digitação da Volkswagen há cinco anos, contratada pela Avape, este foi o seu primeiro emprego.

"É importante pra mim o trabalho porque me ajuda muito. Pelo menos eu me sinto alguém.
Eu me sentia só. Além da mamãe e do meu pai me darem essa força para continuar lutando, eu me sentia muito triste, só. Eu falava assim, será que a minha vida vai ser sempre assim? Acordar, comer, dormir, assim? Eu quero fazer alguma coisa, eu quero sair de casa , ficar um certo tempo no serviço, voltar pra casa feliz por ter feito alguma coisa. Era isso que eu precisava e é hoje o que eu sinto." - Inês


— Há quanto tempo você trabalha aqui?
"9 anos. Todas as empresas lá fora não pegam mais pessoas, porque têm preconceito."

— Quem que tem preconceito?
"As empresas tem preconceito sim, eu já sofri no primeiro trabalho. Eu trabalhava, já sofri preconceito. Quando eu falava alguma coisa todo mundo se afasta." - Gina


Gina não escuta nada, não usa aparelho porque não aguenta o barulho do mundo. Mas ouve música da maneira mais natural, sentindo os instrumentos, descobrindo o desenho das notas.

"Não é falado, parece só instrumento...parece piano. Curvado, parece curvado." - Gina


Gina vive em São Paulo, mas é como se vivesse numa outra cidade. Os ônibus que passam pelas avenidas, as sirenes, nada disso faz parte da sua vida. Mas ela sabe o que são os bons e os maus sons.


— Motor de carro é um bom som?
"Não, é feio."

— Tem algum barulho que você tem medo?
"Trovão. Muito barulho, alto."

— Como é que você sente o trovão?
"Sinto no corpo todo."

— Dentro de você é só silêncio?
"Não, não é isso. Eu sinto o coração bater." - Gina


— Foi muito difícil pra ela aprender a falar?
"Foi, foi difícil, leva bastante tempo. É um processo lento, por que é letra por letra, palavra por palavra. E além de aprender a palavra tem que associar ao objeto."

— Qual foi a primeira palavra que ela falou?
"Batata! Foi mesmo, me emociono até hoje. Faz mais de 20 anos. Foi nesta cozinha. Ela era pequena, tinha 4 anos, parou, me chamou, chamou minha mãe e ela soltou, orgulhosa, porque ela venceu: batata, certinho. Não vou esquecer nunca." - Edna Giusti - mãe da Gina



Veja a segunda parte do programa sobre Deficientes

 

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