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primeira parte
Neide Duarte
 



Estamos passando. Deixamos tudo passar.

Quase um sobrevôo, um olhar de reconhecimento.

Favela de Heliópolis. Nós não somos daqui.

Somos estrangeiros de câmeras na mão.

 

"Olhando pra cá, curiosos, é lógico. Não, não é não, não é o zoológico, minha vida não tem tanto valor, quanto seu celular, seu computador "

Diário de um detento. Racionais.

 

Essa é a música dos adolescentes da favela de Heliópolis. O rap. A música em forma de conversa. Um protesto. Uma queixa. Fica aqui gravado.

Para ser criança e crescer numa favela é preciso ser maduro. A favela é um mundo inteiro, com seus códigos, suas palavras, suas leis, sua paisagem.

Mas quem vive aqui sabe: para que a vida seja melhor é preciso movimento: primeiro a união de todos, depois juntos olhar para fora dos limites da favela. E ali encontrar parceiros.


— Quando você não vinha aqui, aonde é que você ficava?

"Eu ficava na rua, zoando no Gonzaguinha, num monte de lugar, zoando. Xingando os outros, correndo, puxando briga. Cuspindo nos outros fora do ônibus."

— Você andava de ônibus pra cuspir nos outros? E agora, você não faz mais isso?
"Não, não tenho tempo." - Leandro

 

Parceiros da Criança. O Instituto General Motors queria fazer algum trabalho na favela de Heliópolis.

"A gente tem passado aqui diariamente, de São Paulo para a empresa, e a gente percebe que o quadro é realmente muito crítico, que vem aumentando esse quadro significativamente nos últimos anos então, se a gente não fizer algo rápido eu acho que nada vai ter efeito." - Antônio Carlos - GM

 

"Nós já tinhamos um contato com o Instituto GM e eles nos solicitaram que apresentássemos um projeto de educação para crianças. E aí, nós identificamos a favela de Heliópolis, Onde estão 70 mil habitantes e um nível de carência extremo. Através do contato com a UNAS, que são as lideranças locais da favela, estabelecemos contato e começamos a fazer um estudo da região." - Maria Teresa - Ação Comunitária do Brasil

 

Eles estão em todo retrato. Nas ruas. Nos becos, entre as roupas dos varais. Entre pneus, nos córregos, que são como quintais.



Mais de 30 mil crianças e adolescentes crescem em Heliópolis.

O projeto Parceiros da Criança atende meninos e meninas de 7 a 14 anos de idade.

 

"Então galera, como nós fizemos o planejamento a semana passada, o que a gente ia fazer quem decidiu foi vocês, então no primeiro dia vamos ver o 'Titanic'." - Marcelo - professor

Um navio imenso está de partida e leva o nosso adeus. Parece invencível como o mar.
Lá dentro orgulho e esperança de chegar.

"Esse projeto Parceiros da Criança, que é junto com a GM e a ACB, é um projeto que pode ser um laboratório no bom sentido. Pras escolas por exemplo, lá são 120 crianças, agora vai entrar mais 120, de 7 a 14 anos, que estão em 18 escolas da região. Olha que frente de trabalho a gente tem pra fazer, né?" - João Miranda

 

 

— O que voce quer ser?
"Professor de matemática, estudos sociais. Não, só pode ser um, né? Matemática."

"Isso é parceiro. Nós contamos com o parceiro, que faz o conteúdo pedagógico, no caso a ACB, a UNAS executa toda a parte de atividades na sala de aula. Então, tem que ser sempre em parceria, um time de trabalho realmente." - Antônio Carlos

— O que quer ser?
"Um policial."
"Jogador de futebol."
"Um trabalhador."

"Eu acredito que quando as pessoas estão envolvidas o projeto dá certo, o projeto consegue alcançar os seus objetivos. E não fica uma visão caritativa e assistencialista. Porque nós acreditamos em projetos de transformação social para transformar a criança, o homem e a mulher. Para isso é preciso envolver toda a comunidade. Se não ele não acontece, simplesmente a gente fica sendo só mais um dentro da comunidade." - Maria Teresa


Na favela todos os caminhos vão dar numa mesma estrada.

No lugar das lágrimas a salvação são os outros. Solange é a professora. Mora há 4 anos em Heliópolis.

Primeiro foi a Gisele, depois a Priscila. Aos poucos essas 6 meninas foram chegando pra ficar.

 

"Eu tenho um sonho, e lá na minha casa eu não podia realizar meu sonho de vencer na vida, dar uma vida melhor pra minha mãe."

— Como é a vida da sua mãe?
"Ela não trabalha, não tem um estudo, não tem como sustentar minhas irmãs. Queria poder construir minha casa onde minha mãe mora, ter um quarto só pra mim, essas coisas."

— E quando voce vai ver sua mãe o que sente?
"Só vontade de chorar, de ver minha mãe lá sem mim." - Priscila


"O que é mais sério no sentido do envolvimento da menina com as drogas, é quando ela está numa certa fase que quer o que é o herói. Aqui qual é o tipo o cara que é o herói, o cara que elas querem namorar, o cara que é legal? O traficante." - Solange


"Eu gostei de um menino que estava envolvido com drogas, achava o máximo." - Gisele

"Eu já me envolvi com um cara barra pesada. Que era traficante e mais umas coisas. Namorei com ele 6 meses. Aí ele morreu." - Priscila

 

Alguns lugares na favela são proibidos.

Pedimos autorização, mas não nos deram. Todo mundo sabe como são essas coisas por aqui.

 

— O que aconteceu com esse seu filho?
"Foi assassinado aqui dentro, lá no Heliópolis mesmo.(...) Eu acredito que seja por causa de drogas, porque ninguém vai tá matando os outros de graça. (...) Vieram me chamar aqui de madrugada, só que quando eu subi, a polícia já tinha levado o corpo. Eu fui tratar do enterro, fiz o velório, levei ele para enterrar e acabou o Wagner."


 



Veja a segunda parte do programa sobre Heliópolis

 

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