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Este
é o caminho da mata. Atlântica mata que nos protege. Este
é o lugar dos caboclos, dos caiçaras, dos caipiras de São
Paulo. Este é o caminho da roça.
A dança de
São Gonçalo era organizada pelos caboclos em sinal de agradecimento
pela fartura da colheita. Dança antiga, do tempo em que havia roça
e havia colheita, por este mundo de terra, sem porteira.
"Eu
nasci na Juréia, lá era muito legal, a gente podia plantar,
meu pai tirava o palmito, tinha o palmito, tinha caxeta, trabalhava lá
direto. Fazia roça, agora não pode fazer isso. Então
a gente veio para cá para a cidade." - Glória
Nós estamos na maior área da Mata Atlântica que ainda
resta no Brasil. Uma floresta praticamente intocada. O Vale do Ribeira:
a Reserva Ecológica da Juréia, e o Lagamar,
o complexo estuarino - lagunar de Cananéia, Iguape, Paranaguá.
Milhares de quilômetros de mangue. O lugar do nascimento. Onde praticamente
toda a vida marinha do Atlântico Sul começa.
Este lugar onde a natureza parece bem guardada, sempre foi terra de muita
gente. Os projetos governamentais pensaram em preservar a mata, o mangue,
mas não planejaram nada para o povo que sempre viveu aqui.
"Nós
vivemos em uma das regiões com índices sócio-econômicos
alarmantes. Pode parecer incrível estarmos a 200 km de SP, 200
de Curitiba. Mas o fato é que os nossos índices sócio-economicos
são muitas vezes inferiores ao do nordeste.(...) A gente parte
do pressuposto de que vivem pessoas aqui, que têm de extrair daqui
o seu sustento. Eles são responsáveis pela conservação
da mata até agora, tudo que nós temos de mata nós
devemos ser gratos a eles. Então, é preciso que nós
devolvamos a essas pessoas o uso devido e adequado da mata para que eles
possam extrair o seu sustento." - Wilson - Ibama
Jonas
e Manuel estão atrás da caixeta, a madeira branca boa prá
fazer lápis, tamancos. A madeira da viola caipira, a madeira da
rabeca. A extração da caixeta tinha um papel significativo
na economia da região. Assim como o palmito, a samambaia. Depois,
leis federais e estaduais deixaram a Mata Atlântica intocável
e todas essas atividades proibidas. E todos os caixeteiros de Iguape tiveram
de mudar de profissão.
"Sempre
fiz isso e eu acho melhor, né? A minha família também,
sempre fez isso. Meu pai também, meu avô." - Manuel
E quando parou a caixeta o que é que você achou?
"Eu fui fazer outra coisa, né? Meio difícil, mas...
Não estava bem acostumado, mas fui obrigado a acertar. Não
era de pesca, não era acostumado a mexer com pesca, fui obrigado
a ir pescar." - Jonas
Ser a Mata Atlântica
intocável tirou o trabalho e sustento de muita gente, mas se isso
não
acontecesse, hoje essa região poderia nos oferecer, em vez de abrigo,
apenas perigo. Nos anos 80, o então presidente Figueiredo autorizou
a desapropriação da área, onde agora está
a Reserva Ecológica da Juréia, para a construção
de seis usinas nucleares. Depois, imobiliárias planejaram acabar
com a mata e construir na Juréia um balneário com prédios
para setenta mil pessoas. A mata ameaçada foi salva com a criação
da estação ecológica.
"Quando
criaram a estação ecológica a gente foi obrigado
a sair de lá. O trabalho que a gente fazia não pode mais
fazer e criaram uma lei em cima da gente muito restritiva. A gente nem
sabia o que era uma estação ecológica, e quando a
gente percebeu estava tudo proibido, a gente era obrigado a ir embora
de lá." - Dauro
"A escola era lá dentro. Fecharam. Caiu a escola, daí
a prefeitura não deixou reformar aí, fechou a escola."
- Elisa
Os jovens da Juréia
ainda dançam. Tentam guardar a tradição da gente
da roça. As músicas
do roçado, o fandango. O baile caipira. E para sobreviver longe
da reserva criaram uma associação e trabalham no artesanato
de caixeta.
"Aqui a gente começou a trabalhar, roçar lote pra
veraneio, ser caseiro, tomar conta de casa pra o pessoal de São
Paulo.(...) Com essa marcenaria a gente pretende ter uma produção
boa, com qualidade e achar um mercado mais fixo pra gente ganhar dinheiro,
né?" - Dauro
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