Frutos Caminhos e Parcerias - Início Iguape, Cananéia - SP
primeira parte
Neide Duarte
 




Este é o caminho da mata. Atlântica mata que nos protege. Este é o lugar dos caboclos, dos caiçaras, dos caipiras de São Paulo. Este é o caminho da roça.

A dança de São Gonçalo era organizada pelos caboclos em sinal de agradecimento pela fartura da colheita. Dança antiga, do tempo em que havia roça e havia colheita, por este mundo de terra, sem porteira.


"Eu nasci na Juréia, lá era muito legal, a gente podia plantar, meu pai tirava o palmito, tinha o palmito, tinha caxeta, trabalhava lá direto. Fazia roça, agora não pode fazer isso. Então a gente veio para cá para a cidade." - Glória



Nós estamos na maior área da Mata Atlântica que ainda resta no Brasil. Uma floresta praticamente intocada. O Vale do Ribeira: a Reserva Ecológica da Juréia, e o Lagamar, o complexo estuarino - lagunar de Cananéia, Iguape, Paranaguá. Milhares de quilômetros de mangue. O lugar do nascimento. Onde praticamente toda a vida marinha do Atlântico Sul começa.

Este lugar onde a natureza parece bem guardada, sempre foi terra de muita gente. Os projetos governamentais pensaram em preservar a mata, o mangue, mas não planejaram nada para o povo que sempre viveu aqui.


"Nós vivemos em uma das regiões com índices sócio-econômicos alarmantes. Pode parecer incrível estarmos a 200 km de SP, 200 de Curitiba. Mas o fato é que os nossos índices sócio-economicos são muitas vezes inferiores ao do nordeste.(...) A gente parte do pressuposto de que vivem pessoas aqui, que têm de extrair daqui o seu sustento. Eles são responsáveis pela conservação da mata até agora, tudo que nós temos de mata nós devemos ser gratos a eles. Então, é preciso que nós devolvamos a essas pessoas o uso devido e adequado da mata para que eles possam extrair o seu sustento." - Wilson - Ibama


Jonas e Manuel estão atrás da caixeta, a madeira branca boa prá fazer lápis, tamancos. A madeira da viola caipira, a madeira da rabeca. A extração da caixeta tinha um papel significativo na economia da região. Assim como o palmito, a samambaia. Depois, leis federais e estaduais deixaram a Mata Atlântica intocável e todas essas atividades proibidas. E todos os caixeteiros de Iguape tiveram de mudar de profissão.


"Sempre fiz isso e eu acho melhor, né? A minha família também, sempre fez isso. Meu pai também, meu avô." - Manuel

— E quando parou a caixeta o que é que você achou?

"Eu fui fazer outra coisa, né? Meio difícil, mas... Não estava bem acostumado, mas fui obrigado a acertar. Não era de pesca, não era acostumado a mexer com pesca, fui obrigado a ir pescar." - Jonas

Ser a Mata Atlântica intocável tirou o trabalho e sustento de muita gente, mas se isso não acontecesse, hoje essa região poderia nos oferecer, em vez de abrigo, apenas perigo. Nos anos 80, o então presidente Figueiredo autorizou a desapropriação da área, onde agora está a Reserva Ecológica da Juréia, para a construção de seis usinas nucleares. Depois, imobiliárias planejaram acabar com a mata e construir na Juréia um balneário com prédios para setenta mil pessoas. A mata ameaçada foi salva com a criação da estação ecológica.


"Quando criaram a estação ecológica a gente foi obrigado a sair de lá. O trabalho que a gente fazia não pode mais fazer e criaram uma lei em cima da gente muito restritiva. A gente nem sabia o que era uma estação ecológica, e quando a gente percebeu estava tudo proibido, a gente era obrigado a ir embora de lá." - Dauro


"A escola era lá dentro. Fecharam. Caiu a escola, daí a prefeitura não deixou reformar aí, fechou a escola." - Elisa

Os jovens da Juréia ainda dançam. Tentam guardar a tradição da gente da roça. As músicas do roçado, o fandango. O baile caipira. E para sobreviver longe da reserva criaram uma associação e trabalham no artesanato de caixeta.


"Aqui a gente começou a trabalhar, roçar lote pra veraneio, ser caseiro, tomar conta de casa pra o pessoal de São Paulo.(...) Com essa marcenaria a gente pretende ter uma produção boa, com qualidade e achar um mercado mais fixo pra gente ganhar dinheiro, né?" - Dauro

 

 

Para criar essa marcenaria os Jovens da Juréia tiveram ajuda da prefeitura de ilha comprida e de organizações não governamentais brasileiras e alemãs.

"A gente não tem uma renda boa porque está começando agora, não tinha prática, agora está começando a pegar prática de fazer o banquinho de pintar direitinho, de entalhar direitinho..." - Gloria


Se para os caiçaras tudo mudou, no caixetal a vida é a mesma de sempre. O mesmo caminho difícil prá se chegar, a mesma procura pela caixeta no meio da mata inundada.

A caixeta só cresce se tiver todo o ambiente da floresta em sua volta.

O trabalho de Jonas e Manuel por enquanto é só uma promessa. Este caixetal faz parte de uma área de pesquisa da Universidade de São Paulo financiado pela FAPESP. Um projeto feito em parceria com as prefeituras locais, o IBAMA e a Associação dos Caixeteiros.

"Digamos que o principal objetivo do projeto seria a conservação desses ambientes, desse habitat, floresta de caixeta. Então, um dos objetivos é a conservação, um segundo objetivo seria dar mais uma forma de emprego em uma região que é carente de emprego." - Marcelo Marquesini - Engenheiro Florestal - Coordenador do Projeto

Marcelo é engenheiro florestal e desenvolveu com os caixeteiros uma nova técnica de manejo. Uma exploração mais racional. Antigamente quando se tirava a caixeta se destruíam todas as outras árvores que estavam em volta dela.

"Eu acredito que a informação que nós estamos gerando, vai ser muito útil tanto para técnicos, para os proprietários, como para os caixeteiros e para as florestas em si." - Marcelo

Dificilmente a caixeta vai voltar a significar para a economia de Iguape o que foi no passado. Hoje o mercado da caixeta é muito pequeno, nos anos em que a sua extração esteve proibida ela acabou sendo substituída por outras madeiras menos nobres.

Mas a caixeta será sempre a madeira da viola caipira, a madeira da rabeca.


— O senhor não está fazendo nenhuma rabeca agora?
"Não, porque não é dia de cortar, não é lua cheia."


— Se cortar agora, na lua nova, o que acontece?
"Racha, racha a madeira." - Seu Arão


Por causa da lua seu arão leva mais de um mês para fazer uma rabeca, se tanto lhe ajudar o engenho e a arte, até que ela tenha o exato som prá chamar a viola e começar o fandango.

É noite em Iguape. Noite de fandango no Sandália de Prata.

Três reais para entrar no baile. Mulher não paga. Eles vieram de sítios, de noites de sereno, de saudade da moda da roça.

 

Quem canta é Ditinho, varredor de rua em Iguape.

"'Tenho fama de modista que eu nem quero ser, quando cheguemos no baile que eu quero ver. 'A Lua nasceu tão clara entre nuvem se escondeu, apareça não se esconda amores que fores meu'. É tudo verso agrestiano." - Ditinho

"Desde criança pequeno ouvia os anteriores, mais velhos, né? Aí foi indo, foi indo até que também eu consegui, eles me ensinavam e eu tinha vontade de aprender."

— E vocês já ensinaram pra alguém mais jovem esse tipo de música?


"A gente cansa de querer ensinar, eles não querem. Meu filho, tem uma viola em casa, mas nem pegar nela ele pega.(...) Nosso tipo de viola vai acabar." - Ditinho


 



Veja a segunda parte do programa sobre Iguape e Cananéia

 

Tópicos Relacionados:
 

Saiba mais
sobre a cidade.

Conheça a atuação da entidade. Confira a manifestação cultural.


Envie seus comentários e sugestões para o programa: caminhos@tvcultura.com.br

| Caminhos e Parcerias | Frutos |