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primeira parte
Neide Duarte


 


Restaurante Cruzeiro do NordesteEstamos viajando de sertão para sertão.

Do sertão de Pernambuco para o sertão de Sergipe.

E no caminho de passagem tem um filme de cinema.

 


— Eles ficaram quanto tempo aqui filmando o Central do Brasil?

"2 meses. Chegou um monte de carro aí e ficaram filmando.
Chorei quando eles foi-se embora. "

Cena de 'Central do Brasil'

E nesse mundo da escritura, que é de alguns, mas não é de todos, vamos atrás das letras, das palavras, das sílabas que vão se formando no sertão, do bem escrever, do bem dizer, atrás de toda decifração.


Sala de aula na escuridãoPoço Redondo. Alto sertão de Sergipe. Até o ano passado esta era a cidade com maior índice de analfabetismo do nordeste. 62% de analfabetos. Agora o destino começa a mudar. A claridade ainda é fraca, acompanha o tom do lampião, mas é uma luz no meio da noite sertaneja.


Alaíde"Dô aula só com esse lampião, mas por enquanto, porque o outro lampião o vidro se quebrou, mas a gente já providenciou um vidro."

— Vocês conseguem enxergar direito?

"Consegue, alguém traz até um candieirinho pra ajudar." - Alaíde Martins - Professora


Alaíde sempre quis ser professora e nenhuma dificuldade parece diminuir a sua alegria de ensinar. Esta é uma das salas do Programa de Alfabetização Solidária. Um projeto do Conselho da Comunidade Solidária realizado em parceria com a Universidade Federal de Sergipe e a prefeitura de Poço Redondo.

Alaíde (de amarelo) e seus alunosAlaíde ainda estuda, está na oitava série, mas sabe entregar aos seus alunos a sua alma de professora.


"Eu me sinto muito feliz, eu fico muito satisfeita quando uma pessoa tá aprendendo, eu fico feliz, feliz, totalmente feliz." - Alaíde


Ovo, uva, asa, Ivo, ave, Eva.

Eva, professora da Universidade Federal de Sergipe, é a coordenadora do Programa de Alfabetização Solidária em Poço Redondo.

Eva e Neide
"Quando a gente chega em uma sala e vê o semblante dos alunos, o semblante do professor, dizendo que estão gostando, o próprio aluno achando aquilo maravilhoso, que nunca tinha ido para uma escola nunca tinha conseguido estudar e a gente vê que nós estamos fazendo alguma coisa." - Eva

 



Depoimento de aluno"Se naquela época tivesse escola, nós era outra pessoa. É, nós não vinha assim morta, sendo matada aqui no sertão, não." - aluna

"Minha vontade era aprender o nome. E achei muito bom. E agora faço meu nome em qualquer canto que chegue. É feio demais o cara, em todo canto que chegue, colocar o dedo, presta não." - aluno


"Canindé e Poço Redondo são os locais que tem o maior índice de invasões de sem-terras. Se existe um assentamento e tem necessidade de ter uma sala de aula lá, detectado pela prefeitura, então a prefeitura coloca uma sala de aula lá e a gente faz o trabalho." - Eva



"Já tá completando 2 anos que nós tamos aqui."
- sem terra

— Tá tendo comida?
"Tá graças a Deus."

— E tá bom de dormir, tudo?
"Tudo, graças a Deus."

— Qual a diferença, aqui tá melhor ou lá onde a sra vivia?
"Eu acho melhor aqui, porque tem mais cômodo, comida tá forgada, sabe?"
Maria Francisca da Silva - sem terra



Assim é a vida na terra dos sem terra.
As crianças pequenas vão chegando de manso.
Param a uma certa distância e esperam o primeiro contato.

E no encontro sem palavras espiam quem somos.




"Oh! Que nuvem tão bonita com vontade de chover, aonde anda Dazinha com vontade de me ver?"

"Na casa de Dazinha nem precisa ter candeeiro, só os olhos de Dazinha que alumia até o terreiro."

"No interior do Cachimbeiro nem precisa mais chover, só os olhos de Dazinha faz o mato enverdecer.'' - alunos


Versos pra Dazinha. A infância escolar revisitada.

Neste lugar onde o Brasil é grande. O pai do sertão se estende azul. E as mães tem o tamanho da terra.

"Eu tenho 10 menino nenhum eu chamo pelo nome.

É tudo por apelido.

É Renam chama Cuíba, Gilmaro chama Chu, Miúdo é Gilvan. Tenho um que chama Gilmar, Guiá e chama Pitonho. É uma embolada, nunca chamo certo."


— São quantas pessoas?

"Eu só conto bem quando estão dormindo, mas parece que é doze. Na hora que tá comendo é difícil contar, agora dormindo dá doze." - Antônio Bento

 

E no meio de tantos, cada sertanejo quer ter sua distinção, seu jeito de ser sozinho.


— E quando você aprendeu a escrever seu nome o que sentiu?

"Ah! Me senti alegre porque era muita coisa que eu não sabia, antes eu me sentia triste. Precisava assinar um documento, uma coisa e eu não sabia."


Tudo que é importante vinga. O valor seco da palavra do sertanejo. A cantoria que se ouviu no terreiro um dia. E outro cantou e outro ouviu e outro cantou e outro ouviu. Mais virá.


"Eu sinto que estou levando pessoas ao longe, ao conhecimento de alguma coisa que não tinha a se desenvolver, a ajudar o Brasil e saber que o Brasil é a nossa casa, o nosso mundo, e nós somos filhos do Brasil." - Alaíde

 



Veja a segunda parte do programa sobre Poço Redondo

 

 

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