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No poema
acima as preposições têm importância adicional na produção do sentido,
o que decorre do fato de que seu papel de mero conector está sendo
problematizado em certa medida:
Vem, carregando
o corpo
quebrado, sem brado, sem
dormência, pela colisão
com o simples
ar em torno, de
uma víscera e
outra adentro, do
(....).
A sintaxe
nos versos acima é cortada, quase sempre, bem em cima das preposições
[sem, de, e, do], ou outras palavras que estabelecem conexão, como
a conjunção e. Ou seja, as frases são desmembradas
num ponto que a poesia antes do século 20 jamais se atreveria,
com raras exceções, como é o caso de Friedrich Hölderlin,
poeta romântico alemão que viveu na primeira metade do século
19. Nesse poeta, não era difícil um verso terminar com preposições
ou palavras mais acessórias, como os advérbios e as conjunções.
Esse procedimento não seria mais "tabu" especialmente
na segunda metade do século 20, embora não deixe ainda de
causar estranhamento, sobretudo naqueles habituados a uma poesia por assim
dizer mais "melódica" e mais desprovida de arestas. Essa
palavra, aliás, é apropriada para descrever o poema em questão,
que é quase todo arestas. Estas são justamente as pontas
daquilo que perdeu a organicidade, que não se organiza mais em
um todo, em um sistema. O fato de a função conectiva das
preposições estar posta em xeque, como assinalamos no início,
também atira em crise a relação entre as palavras,
cuja ordenação deixa de obedecer a uma hierarquia. Pois,
se numa construção como "rebelde sem causa", a
relação entre termo regido, subordinado [causa] e termo
regente, subordinador [rebelde], é assegurada pela preposição
sem, nos versos
Vem, carregando
o corpo
quebrado, sem brado, sem
dormência (...)
essa relação
não é mais um dado inquestionável. A construção
"corpo sem dormência" leva três versos para se completar,
e o destaque a sem, no fim da segunda linha, desautomatiza o que seria
uma mera subordinação. A preposição, antes
que ligar o termo regente e o termo regido, se liberta de sua neutralidade.
Pois, se ela se torna um caco, um fragmento de uma relação
outrora harmônica e lógica, também os elementos cuja
articulação ela efetuava se tornaram cacos: corpo,
dormência, sem giram na mesma órbita, pois
foi dissolvida a diferença de classes gramaticais. O substantivo
não tem mais o monopólio do que é substancial; do
mesmo modo, a preposição não é mais uma mera
posição intermediária, depois da qual o sentido se
completaria.
A harmonia baseada nessa hierarquia se quebrou, aquilo que era dado como
natural mostrou ser pura engrenagem, cujo mecanismo é frágil,
pois pode parar a qualquer momento. A linguagem, assim, perde o fio da
continuidade porque a realidade também não é mais
um tecido coeso. Realidade e linguagem, mas também o corpo, estão
quebrados. Como o corpo, a frase não é mais organismo e
hierarquia de funções, mas um agrupamento caótico
e poroso, a que podem se juntar elementos estranhos, resquícios
de antigas relações de subordinação:
(...) pela
colisão
com o simples
ar em torno, de
uma víscera e
outra adentro, do
pensamento contra
o pensamento, e
num
lapso de
trégua (...)
Não
estamos aqui diante de um intrincamento sintático que fosse produzido
por uma estrutura de oração principal e subordinada e em
que houvesse diversas orações intercaladas. Nesse sentido,
Ronald Polito destoa muito de um poeta como Nelson Ascher:
Outra
Face
Faces
sem conta são
possíveis quando a face
perfaz, desfaz, refaz-se
na cristalização
efêmera
que, impasse
a impasse, implica, não
obstante a interação,
além de uma interface,
com
outras que, indevido
equívoco, depressa
reduzem-se a resíduo,
o
impulso que a arremessa
a um face-a-face assíduo
com sua face avessa.
Trata-se da recuperação de uma forma muito típica
do período Barroco, o soneto desdobrado em apenas um período,
com um único ponto final. Na sua origem, essa estrutura elaborava
um paradoxo: as frases intercaladas, que em princípio serviriam
a aprofundar e esclarecer o tema principal, chamam a atenção
sobre si desgarrando-se de sua função primordial. Elas vão
compondo uma espécie de percurso autônomo e, isso em um grau,
que, quando de fato se completa a oração principal, não
parece estar nela o principal. É uma estrutura que no limite contradiz
a natureza racional do soneto pelo que nele introjeta de jogo e virtuosismo.
O andamento da razão é minado por uma economia poética
que fez concessões ao desenho mais livre das frases, cujo comércio,
feito entre vírgulas e travessões, ameaça criar um
sistema próprio.
Na recuperação que Nelson Ascher faz desse procedimento,
a irrelevância do tema principal [Faces sem conta são possíveis]
é um fato consumado, já dado como natural, e não
mais o produto de um processo contraditório. O tema principal já
é um arabesco, já é coisa nenhuma, o que, no relacionamento
com as demais orações, tem uma conseqüência curiosa:
a reposição da subordinação, da hipotaxe.
Pois as frases intercaladas reforçam, aprofundam o caráter
do tema central. Nesse sentido, não há choque entre o centro
e a periferia da organização sintática. O paradoxo
foi desfeito.
Voltando
à poesia de Ronald Polito, não há aqui, como dissemos,
um intrincamento de subordinadas, como em Nelson Ascher, mas uma reunião
caótica de antigos vínculos, de conexões residuais:
pela colisão/com o simples/ar
em torno, de/uma víscera e/outra
adentro, do/pensamento, e. Sabe-se apenas que se
pode carregar, numa manhã, um corpo quebrado ao fazê-lo colidir
com o ar em torno, que o pressiona; mais não se sabe. Com o que
se articulam de uma víscera e outra adentro, do pensamento?
As palavrinhas de e do são tudo o que
pode significar nesse momento, esmerado em apuros.
O poema se contorce em lapsos, ínfimas tréguas, mas é
na mais extrema falta e solidão que uma promessa cintila:
(...) quase
alheio, depõe
o peso, a pose,
a gana, a afasia,
e afaga
no fogo do sol
a ferida.
É
uma cintilação que obriga a um encadeamento sintático
e melódico que até então estava fora de questão.
Os versos finais não são mais encerrados por preposições,
mas por palavras que parecem reconquistar algum sentido: afaga, sol, ferida.
O movimento de recompor a linguagem, dando-lhe uma ondulação
sintática - até então inimaginável, como mostrava
sua estrutura quebrada - se precipita numa imagem poética que resulta
pacificadora, pois resolve de uma maneira um pouco abrupta o que não
parecia passível de resolução.
A forma do poema, cujos primeiros versos apontavam a impossibilidade de
toda articulação, é positivada nos últimos
versos, ritmados e aliterados.
A hierarquia e a harmonia impossíveis voltam, embora encubram uma
dissonância fundamental,cristalizada na metáfora da ferida.
Esta é o conteúdo negativo que lateja nessa harmonia precária,
a qual voltará raríssimas vezes no livro De passagem,
em que o mais humano pode ser, como lemos em outro poema do autor ("Falar
é fácil"), um homem olhar nos olhos de um cão
e "conseguir se comportar/por algum tempo/(olho no olho)/com alguma/renúncia".
Ronald
Polito
Ronald
Polito nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 5 de abril de 1961. Publicou
quatro livros de poesia: Solo (Rio de Janeiro, Sette Letras, 1996), Vaga
(Mariana, Edição do autor, 1997), Intervalos (Rio de Janeiro,
Sette Letras, 1998), De passagem (São Paulo, Nankin Editorial,
2002), além de uma plaquete com poemas gráficos, Objeto
(Mariana, Edição do autor, 1997). É historiador e
tradutor. Junto com o poeta Sérgio Alcides, traduziu o livro Poemas
civis, do poeta catalão Joan Brossa. Mora atualmente em Tóquio.
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