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Ilustração:
Leopoldo Joe Nakata

Numa manhã

Vem, carregando o corpo
quebrado, sem brado, sem
dormência, pela colisão
com o simples
ar em torno, de
uma víscera, e
outra adentro, do
pensamento contra
o pensamento, e
num lapso de
trégua, esmerado
em apuros, quase
alheio, depõe
o peso, a pose,
a gana, a afasia,
e afaga
no fogo do sol
a ferida.


Ronald
Polito

De
passagem
(2002)

Sobre o autor

 

 

 

No poema acima as preposições têm importância adicional na produção do sentido, o que decorre do fato de que seu papel de mero conector está sendo problematizado em certa medida:

Vem, carregando o corpo
quebrado, sem brado, sem
dormência, pela colisão
com o simples
ar em torno, de
uma víscera e
outra adentro, do
(....).

A sintaxe nos versos acima é cortada, quase sempre, bem em cima das preposições [sem, de, e, do], ou outras palavras que estabelecem conexão, como a conjunção e. Ou seja, as frases são desmembradas num ponto que a poesia antes do século 20 jamais se atreveria, com raras exceções, como é o caso de Friedrich Hölderlin, poeta romântico alemão que viveu na primeira metade do século 19. Nesse poeta, não era difícil um verso terminar com preposições ou palavras mais acessórias, como os advérbios e as conjunções.
Esse procedimento não seria mais "tabu" especialmente na segunda metade do século 20, embora não deixe ainda de causar estranhamento, sobretudo naqueles habituados a uma poesia por assim dizer mais "melódica" e mais desprovida de arestas. Essa palavra, aliás, é apropriada para descrever o poema em questão, que é quase todo arestas. Estas são justamente as pontas daquilo que perdeu a organicidade, que não se organiza mais em um todo, em um sistema. O fato de a função conectiva das preposições estar posta em xeque, como assinalamos no início, também atira em crise a relação entre as palavras, cuja ordenação deixa de obedecer a uma hierarquia. Pois, se numa construção como "rebelde sem causa", a relação entre termo regido, subordinado [causa] e termo regente, subordinador [rebelde], é assegurada pela preposição sem, nos versos

Vem, carregando o corpo
quebrado, sem brado, sem
dormência (...)

essa relação não é mais um dado inquestionável. A construção "corpo sem dormência" leva três versos para se completar, e o destaque a sem, no fim da segunda linha, desautomatiza o que seria uma mera subordinação. A preposição, antes que ligar o termo regente e o termo regido, se liberta de sua neutralidade. Pois, se ela se torna um caco, um fragmento de uma relação outrora harmônica e lógica, também os elementos cuja articulação ela efetuava se tornaram cacos: corpo, dormência, sem giram na mesma órbita, pois foi dissolvida a diferença de classes gramaticais. O substantivo não tem mais o monopólio do que é substancial; do mesmo modo, a preposição não é mais uma mera posição intermediária, depois da qual o sentido se completaria.
A harmonia baseada nessa hierarquia se quebrou, aquilo que era dado como natural mostrou ser pura engrenagem, cujo mecanismo é frágil, pois pode parar a qualquer momento. A linguagem, assim, perde o fio da continuidade porque a realidade também não é mais um tecido coeso. Realidade e linguagem, mas também o corpo, estão quebrados. Como o corpo, a frase não é mais organismo e hierarquia de funções, mas um agrupamento caótico e poroso, a que podem se juntar elementos estranhos, resquícios de antigas relações de subordinação:

(...) pela colisão
com o simples
ar em torno, de
uma víscera e
outra adentro, do
pensamento contra
o pensamento, e
num lapso de
trégua (...)

Não estamos aqui diante de um intrincamento sintático que fosse produzido por uma estrutura de oração principal e subordinada e em que houvesse diversas orações intercaladas. Nesse sentido, Ronald Polito destoa muito de um poeta como Nelson Ascher:

Outra Face

Faces sem conta são
possíveis quando a face
perfaz, desfaz, refaz-se
na cristalização

efêmera que, impasse
a impasse, implica, não
obstante a interação,
além de uma interface,

com outras que, indevido
equívoco, depressa
reduzem-se a resíduo,

o impulso que a arremessa
a um face-a-face assíduo
com sua face avessa.


Trata-se da recuperação de uma forma muito típica do período Barroco, o soneto desdobrado em apenas um período, com um único ponto final. Na sua origem, essa estrutura elaborava um paradoxo: as frases intercaladas, que em princípio serviriam a aprofundar e esclarecer o tema principal, chamam a atenção sobre si desgarrando-se de sua função primordial. Elas vão compondo uma espécie de percurso autônomo e, isso em um grau, que, quando de fato se completa a oração principal, não parece estar nela o principal. É uma estrutura que no limite contradiz a natureza racional do soneto pelo que nele introjeta de jogo e virtuosismo. O andamento da razão é minado por uma economia poética que fez concessões ao desenho mais livre das frases, cujo comércio, feito entre vírgulas e travessões, ameaça criar um sistema próprio.
Na recuperação que Nelson Ascher faz desse procedimento, a irrelevância do tema principal [Faces sem conta são possíveis] é um fato consumado, já dado como natural, e não mais o produto de um processo contraditório. O tema principal já é um arabesco, já é coisa nenhuma, o que, no relacionamento com as demais orações, tem uma conseqüência curiosa: a reposição da subordinação, da hipotaxe. Pois as frases intercaladas reforçam, aprofundam o caráter do tema central. Nesse sentido, não há choque entre o centro e a periferia da organização sintática. O paradoxo foi desfeito.

Voltando à poesia de Ronald Polito, não há aqui, como dissemos, um intrincamento de subordinadas, como em Nelson Ascher, mas uma reunião caótica de antigos vínculos, de conexões residuais: pela colisão/com o simples/ar em torno, de/uma víscera e/outra adentro, do/pensamento, e. Sabe-se apenas que se pode carregar, numa manhã, um corpo quebrado ao fazê-lo colidir com o ar em torno, que o pressiona; mais não se sabe. Com o que se articulam de uma víscera e outra adentro, do pensamento? As palavrinhas de e do são tudo o que pode significar nesse momento, esmerado em apuros.
O poema se contorce em lapsos, ínfimas tréguas, mas é na mais extrema falta e solidão que uma promessa cintila:

(...) quase
alheio, depõe
o peso, a pose,
a gana, a afasia,
e afaga
no fogo do sol
a ferida.

É uma cintilação que obriga a um encadeamento sintático e melódico que até então estava fora de questão. Os versos finais não são mais encerrados por preposições, mas por palavras que parecem reconquistar algum sentido: afaga, sol, ferida. O movimento de recompor a linguagem, dando-lhe uma ondulação sintática - até então inimaginável, como mostrava sua estrutura quebrada - se precipita numa imagem poética que resulta pacificadora, pois resolve de uma maneira um pouco abrupta o que não parecia passível de resolução.
A forma do poema, cujos primeiros versos apontavam a impossibilidade de toda articulação, é positivada nos últimos versos, ritmados e aliterados. A hierarquia e a harmonia impossíveis voltam, embora encubram uma dissonância fundamental,cristalizada na metáfora da ferida. Esta é o conteúdo negativo que lateja nessa harmonia precária, a qual voltará raríssimas vezes no livro De passagem, em que o mais humano pode ser, como lemos em outro poema do autor ("Falar é fácil"), um homem olhar nos olhos de um cão e "conseguir se comportar/por algum tempo/(olho no olho)/com alguma/renúncia".


Ronald Polito
Ronald Polito nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 5 de abril de 1961. Publicou quatro livros de poesia: Solo (Rio de Janeiro, Sette Letras, 1996), Vaga (Mariana, Edição do autor, 1997), Intervalos (Rio de Janeiro, Sette Letras, 1998), De passagem (São Paulo, Nankin Editorial, 2002), além de uma plaquete com poemas gráficos, Objeto (Mariana, Edição do autor, 1997). É historiador e tradutor. Junto com o poeta Sérgio Alcides, traduziu o livro Poemas civis, do poeta catalão Joan Brossa. Mora atualmente em Tóquio.