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cortejo Monotonias
das minhas retinas... |
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O
livro Paulicéia Desvairada foi publicado em 1922, mesmo
ano da Semana de Arte Moderna. Trata-se do primeiro livro de poemas
modernista, cuja "confecção tumultuária"
Mário de Andrade descreveria muitos anos depois na famosa
conferência de 1942 sobre o movimento que transformaria o panorama
das artes no Brasil. "A poética está muito mais atrasada que a música. Esta abandonou, talvez mesmo antes do século 8, o regime da melodia quando muito oitavada, para enriquecer-se com os infinitos recursos da harmonia. A poética, com rara exceção até meados do século 19 francês, foi essencialmente melódica. Chamo de verso melódico o mesmo que melodia musical: arabesco horizontal de vozes (sons) consecutivas, contendo pensamento inteligível. Ora, si em vez de unicamente usar versos melódicos horizontais: Mnezarete,
a divina, a pálida Frinéia Fizermos
que se sigam palavras sem ligação imediata entre si: estas
palavras, pelo fato mesmo de se não seguirem intelectual, gramaticalmente,
se sobrepõem umas às outras, para a nossa sensação,
formando, não mais melodias, mas harmonias. Mário de Andrade, também professor e pesquisador de música, explora a afinidade entre música e poesia para cobrar desta os mesmos desenvolvimentos da primeira. Assim como a música, já na Idade Média, passara da melodia (a disposição horizontal de sons consecutivos) para a harmonia (a superposição vertical, a combinação de sons simultâneos), assim a poesia deveria passar do verso considerado como articulação lógica entre as palavras para o verso caracterizado pela combinação de palavras sem relações visíveis entre si. Ou seja, a poesia, aproveitando a analogia com a música, deveria se emancipar do verso melódico e desenvolver o verso harmônico, espécie de arquipélago sonoro, em que as palavras vibram, descoladas umas das outras, à espera de um completamento de sentido que, no entanto, não vem, como enfatiza o poeta. Na verdade, ela não vem no próprio texto, pois é o leitor quem é solicitado a refazer as conexões entre aquelas ilhas de som e de sentido. Assim, numa seqüência como Arroubos...Lutas...Setas...Cantigas...Povoar!... citada por Mário, a ligação entre os termos não está dada, embora caiba ao leitor imaginar as articulações, fornecidas pelo contexto do poema, que, por meios bastante sintéticos e telegráficos, mapeia a odisséia dos bandeirantes ao longo do rio que corta a cidade de São Paulo. Uma odisséia em que se misturam mortes, lutas, as "monções da ambição", as "gigânteas vitórias" e as cantigas de povoamento. Todo um capítulo da história brasileira o poeta pretendeu condensar em versos harmônicos. Se ele tivesse exprimido o mesmo conteúdo do verso acima em versos melódicos, poderíamos ter algo como: "Os arroubos dos bandeirantes, sua ambição de enriquecer os levaram a desbravar a terra selvagem, enfrentando todo tipo de hostilidade" "Lutavam com os índios na posse da terra e de riquezas naturais, e estes por fim acabavam ou apresados ou chacinados" etc. O
sucesso da articulação entre aqueles signos descolados (arroubos,
lutas, setas) será tanto maior conforme o conhecimento e a sensibilidade
de cada um. É requerida, portanto, uma operação da
inteligência.
Notemos que o poeta não faz aqui uso de verbos, a não ser no modo infinitivo e com função de adjetivo ["a se desenrolar" equivale ao qualificador "desenrolantes"]. Não estamos diante de orações, em que se exprime um pensamento lógico e encadeado. A ausência de verbo indica que estamos diante de frases mais marcadas pela efusão do sentimento. São frases não-oracionais, difíceis de analisar quanto à estrutura. Conforme a teoria poética de Mário, funcionariam como sons isolados e superpostos, produzindo a impressão de uma polifonia, na qual uma das várias linhas melódicas parece fazer as vezes de um monótono cantochão, repetido ao longo do poema: Serpentinas de entes frementes a se desenrolar... A cidade é vista como um amontoado de cortejos, que, conforme a perspectiva, podem ser tanto carnavalescos ("serpentinas") como funerários ("monotonias"). É curioso que a utilização da polifonia poética, recurso mais apropriado que o verso melódico para representar o mosaico urbano de trabalho, massas, bondes, agitação, esporte, vitrines, sirva aqui a exprimir o aspecto monótono que essa mesma pluralidade de elementos pode assumir. A cidade pode também matar a poesia: Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria! São Paulo se revela uma boca de mil dentes, uma língua trissulca, que morde e mastiga os homens "fracos, baixos, magros". Estes são "todos iguais e desiguais", assim como os cortejos podem variar conforme o ângulo de quem os observa. Nas retinas saturadas do poeta, eles parecem "...uns macacos, uns macacos". Se
a cidade moderna representaria, por um lado, a libertação
e a afirmação do indivíduo, a qual não se
daria no quadro de uma vida provinciana, por outro ela poderia achatar
e tirar a singularidade desse mesmo indivíduo, inserido na divisão
do trabalho e sujeito ao poder avassalador do dinheiro e do comércio.
Se os homens parecem desiguais ao poeta, com características étnicas,
sociais e culturais que os distinguem entre si, são também
iguais e anônimos no aglomerado urbano e no mundo do trabalho. São
nada mais que números. O excesso de estímulos visuais e
sonoros produzidos pela Paulicéia, que o poema apreendera de maneira
polifônica, não deixa de soar, no fim das contas, como uma
melodia única, monocórdica, que a repetição
no verso final enfatiza: uns macacos, uns macacos. Tais homens são
menos que homens, pois parecem agir meramente por reflexos condicionados.
Mário
de AndradeMário Raul de Morais Andrade, escritor e musicólogo, nasceu em São Paulo, em 9 de outubro de 1893. Diplomou-se em piano no Conservatório Dramático e Musical da capital paulista, onde foi professor de estética e história da música. Seu primeiro livro de poemas data de 1917, Há uma gota de sangue em cada poema, inspirada na Primeira Guerra Mundial e de forte influência parnasiana e simbolista. Considerado o "papa do Modernismo paulista", Mário de Andrade participou ativamente da Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal, em São Paulo, e que marcaria decisivamente o quadro das artes no Brasil. Paulicéia desvairada é o primeiro livro de poesia moderna escrito por Mário e deu azo a muitas polêmicas. Entre outras obras publicadas pelo autor, estão A escrava que não é Isaura (1925), ensaios-manifestos sobre a nova estética, Losango cáqui, poesia, e Primeiro andar, contos, ambos de 1926, Amar, verbo intransitivo (1927) e Macunaíma (1928), ambos romances, Contos de Belazarte (1934), entre outros. Paralelamente à confecção dos livros, Mário escrevia inúmeros artigos para jornais e revistas, em que exercia a crítica de música, de artes plásticas, de literatura. Seus trabalhos como folclorista e musicólogo não foram de menor importância. O escritor obteve cargos de grande responsabilidade na área da cultura. Foi diretor do então recém-criado Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de São Paulo, onde criou projetos culturais cuja audácia e espírito democrático raramente se veriam no país. Lira Paulistana e Carro da Miséria, publicados postumamente, são seus últimos livros de poemas, nos quais são flagrantes os temas sociais. Faleceu em São Paulo, em 25 de fevereiro de 1945. |