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A ONDA

a onda anda
aonde anda
         a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
         aonde?
aonde?
a onda a onda

Manuel Bandeira
 A Estrela da Tarde
(1963)

Sobre o autor

 

  O que mais nos chama a atenção já na primeira leitura do poema? Acho que é o uso de palavras muito parecidas entre si, ou seja, de paranomásias: onda-anda-aonde-ainda. A palavra que serve de base a essas variações quase minimalistas no som é "onda", que dá título ao poema. Este busca, por meio justamente do emprego de paronomásias, de anáforas e da combinação múltipla de um repertório pequeno de vocábulos, imitar o movimento da onda. As palavras vão descrevendo uma sonoridade arredondada, que produz uma espécie de letargia, de embriaguez. Se você o ler em voz alta, terá a sensação de estar recitando um "mantra" ou uma espécie de ladainha. Se você o ler muitas vezes, poderá cair num gostoso sono.
     
    O que se pretende realmente obter é uma fluidez sonora, um continuum sonoro, em que as palavras percam sua singularidade e se assemelhem cada vez mais. Mesmo que isso eventualmente "comprometa" a regência verbal: a
construção "aonde anda a onda?" talvez cause espanto. Não se deveria perguntar "para onde anda a onda"? Sim, essa seria a forma mais correta do ponto de vista gramatical. Acontece que a simples presença do "para" pesaria demais aqui, poderia quebrar a onda:"Para onde anda a onda?".

   A sensibilidade requintada de Bandeira não admitiria estorvar a música do poema para seguir o mandamento gramatical. A preposição para seria um corpo totalmente estranho nessa estrutura quase "desossada", ou seja, quase sem consoantes, a não ser o grupo nd, presente em todas as palavras do poema (anda,onda, ainda, onde), constituído quase só de vogais. Como se as vogais fossem mais leves e fluidas que as rígidas consoantes e por isso servissem melhor para exprimir as flutuações do mar, o ritmo da água.

   Temos de dar o braço a torcer para Bandeira: para traria duas letras muito exóticas a esse contexto: p e r. E isso seria um osso duro de roer num poema tão líquido e musical.

   Talvez ainda alguém perguntasse por que o poeta não preferiu "onde", afinal pode-se dizer tranqüilamente "Onde anda", equivalente a "por onde anda" etc. O problema é que "andar" aqui significa "encaminhar-se, dirigir-se a". Quer-se saber o destino da onda, e isso é enfatizado mais ao fim do poema, em que aparece duas vezes a interrogação "aonde", após o que, por uma espécie de quebra do continuum sonoro, podemos pressupor que a onda se quebrou também, que ela não tem uma "para onde":

       aonde?
aonde?
a onda a onda

    Reparem ainda no interessante paralelismo "ainda onda/ainda anda". A onda é onda quando anda; a onda é onda quando em movimento. Se ela pára, não é mais onda, não anda. A repetição final do poema "a onda a onda" parece dar murro em ponta de faca; ou melhor: a onda parece se quebrar no rochedo ou morrer na praia. E a repetição lingüística indica que a linguagem também já não caminha, não progride, mas está paralisada, como a onda, não mais onda porque não mais anda. É onda morta.

Manuel Bandeira

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasce no Recife a 19 de abril de 1886. Aos 10 anos vai com a família para o Rio de Janeiro. Em 1903, matricula-se na Escola Politécnica, em São Paulo, mas, pouco tempo depois, é obrigado a abandonar os estudos devido a uma tuberculose. Aos vinte e sete anos, interna-se em sanatório na Suíça a fim de tratar da doença. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o poeta retorna ao Rio de Janeiro. Seu primeiro livro, A cinza das horas, data de 1917. Em 1922, colabora na revista modernista Klaxon, mas não participa da Semana de Arte Moderna. Em 1938, é nomeado professor de Literatura do Colégio Pedro II e em 1940 é eleito para a Academia Brasileira de Letras. Bandeira publica vários livros e, aos oitenta anos, lança Estrela da vida inteira, uma reunião de seus poemas. Em 1968, falece no Rio de Janeiro e é sepultado no mausoléu da Academia Brasileira de Letras.