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Vocês
devem ter notado que quase todos os versos da letra fazem rima em "á":
cá, andá, apanhá, cantá e por aí vai.
Mas, você poderia se perguntar: está certo escrever "apanhá"?
O r não cai apenas quando o verbo se liga aos pronomes o
e a, que
assumem as formas lo e la? Sim, é verdade. Rigorosamente,
no padrão culto da língua, apenas nesse caso o verbo "apanhar"
assumiria a forma "apanhá". A composição
não pretende ser escrita na linguagem culta, mas numa espécie
de dialeto que é a língua dos africanos trazidos para o
Brasil e de seus descendentes. É a língua dos escravos,
a mesma que nos deixou o delicioso sinhô no lugar de senhor,
por exemplo. É esse idioma que vamos encontrar na literatura que
tematizou o negro e as perversidades a que foi submetido pelo branco dominador.
Assim, no famoso poema "Essa
negra Fulô" (1928) e nos "Poemas Negros"
(1947), ambos de Jorge de Lima, vamos encontrar uma dicção,
uma fisionomia parecida com a que vemos em "Upa,neguinho",
que faz parte da peça Arena conta Zumbi.
A
canção é aparentemente jocosa, leve, cheia de graça,
como é essa língua meio portuguesa, meio africana. A interjeição
"upa", tantas vezes repetida ao longo da música,
dá ainda um ar brincalhão e mais graciosidade a essa fala
de alguém que vê uma criança negra ensaiando os primeiros
passos e as primeiras decepções. Repare que é
de longa data o trabalho infantil neste país, onde o crioulinho
sai do ventre da mãe direto para o mundo do trabalho forçado.
Mas o eu da composição, que, como vamos saber mais
ao fim, é um negro adulto, que veio de tanta desgraça,
de alguma maneira se alegra e se reconforta
na visão do neguinho. Só o pequeno escravo pode
fazer com que seu sofrimento tão grande desapareça por um
momento. Sabe-se que, quando se é intensamente explorado e humilhado,
a auto-estima é a primeira coisa que se perde. O explorado, de
tanto ser explorado, acaba pensando como o explorador, ou seja, acaba
achando que ele próprio não vale grande coisa e que merece
o desprezo dos outros. O explorador faz que o explorado, de tanto ser
explorado, pense que ele, explorado, só merece ser explorado. A
coisa é redundante mesmo. É um círculo vicioso. Mas,
nessa canção, o escravo adulto adquire um grãozinho
de auto-estima ao ver o negrinho. Ele se dá conta de que pode ensinar
algo a ele, que possui um saber que vale a pena ser transmitido: capoeira,
ziquizira,
valentia... O escravo adulto conhece formas de luta e brincadeira (a capoeira),
conhece artes curandeiras (ele pode tirá a ziquizira) e
tem na valentia sua forma de
dignidade. Mas essa dignidade é ao mesmo tempo limitada. Ele não
tem o principal: a liberdade, que é o que faz um homem ser homem.
Esse escravo tão humano e sensível, sabedor de tantas artes,
é tratado de forma infra-humana: liberdade só posso esperá...
Sem liberdade, não há auto-estima que se sustente. A auto-estima
do negro adulto é capenga como os passos do negrinho, cujo desenvolvimento,
muito paradoxalmente, se acompanha de mutilação: ele começa
a andar, a se desenvolver, e já começa a apanhar. Mas ainda
assim existe graça, poesia, em seus passos desajeitados, de criança
que mal consegue se equilibrar ainda: essa é a graça da
música, que trata no entanto de assunto tão grave, tão
espinhoso como a escravidão, a opressão social. Afinal,
era preciso sobreviver de alguma maneira, era preciso fechar um pouco
os olhos e cantar em meio a tanta desgraça.
Gianfrancesco
Guarnieri
O ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri nasce
a 8 de agosto de 1934, em Milão, na Itália. Sua família
muda-se para o Rio de Janeiro em 1936, onde Guarnieri faz seus estudos
até 1953, quando decide ir para São Paulo. Em 1955, funda,
com Oduvaldo Viana Filho, o Teatro Paulista do Estudante. Estréia
como dramaturgo em 1958, com a peça Eles não usam
black-tie. A montagem tem grande êxito e ganha vários
prêmios (em 1981, a adaptação para o cinema ganharia
o Leão de Ouro no Festival de Veneza). Entre suas principais peças,
estão Arena conta Zumbi (1965), na qual teve como
parceiros Augusto Boal e Edu Lobo, Castro Alves pede passagem (1968),
Um grito parado no ar (1973). Por esta última obteve o
"Prêmio Governador do Estado" como melhor autor brasileiro.
Trabalhou como ator e diretor em cinema e televisão.
Edu
Lobo
O compositor Eduardo de Góis Lobo nasce a 29 de
agosto de 1943, na cidade do Rio de Janeiro. Seu primeiro instrumento
é o acordeom, que estuda dos oito aos 14 anos. Aos 16 anos começa
a estudar violão. Mais tarde cursa até o terceiro ano de
Direito na PUC. Em 1962, lança seu primeiro disco, um compacto
duplo. Participa de vários festivais de música popular brasileira,
vencendo, em 1965, com a música Arrastão (composta
em parceria com Vinícius de Morais) e, em 1967, com a música
Ponteio (composta em parceria com Capinam). Realiza diversos
trabalhos com Ruy Guerra, Gianfracesco Guarnieri, Vinícius de Morais,
Capinam, Chico Buarque e Tom Jobim. Faz trilha sonora para cinema, teatro
e TV e lança vários álbuns. Em 1994 recebe o Prêmio
Shell pelo conjunto da obra.
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