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Se
você considerar só o título "Domingo no parque",
pode achar que se trata de uma canção festiva, ingênua...
Mas não é bem assim, não. Você já viu
um jogo de capoeira? Aliás: um jogo ou uma luta? É, em geral,
usamos o verbo jogar nesse caso: "Fulano joga capoeira muito bem".
Mas a capoeira pode ser também uma luta, com um sistema definido
de ataque e defesa. Digamos que a letra de Gil de certa maneira se apóia
nessa ambigüidade da capoeira. O ritmo da composição
lembra em tudo o gingado desse jogo que se originou entre os escravos bantos
(de Angola) no Brasil colônia.
É, o que está literalmente em jogo aqui é uma luta
de morte. "Domingo no parque", à maneira das canções
de Chico Buarque, é fundamentalmente uma canção narrativa,
fazendo uso de um tempo verbal típico do gênero narrativo
(ou épico), que é o pretérito: "trabalhava",
"resolveu", "foi", entre outros. Os personagens são
dois amigos: José, o rei da brincadeira, e João, o rei da
confusão. O acontecimento trágico de que a letra dá
notícia ocorrerá justamente num dia em que esses personagens
contrariam, digamos assim, seus atributos: porque João escolhe
a brincadeira, José se encaminha para a confusão, para a
briga:
"A semana passada, no fim da semana,
João resolveu não brigar,
no domingo de tarde saiu apressado
e não foi pra ribeira jogar capoeira
não foi pra lá, pra ribeira, foi namorar".
Nesse trecho, aliás, notamos um recurso que vai ser usado em toda
a letra: a anáfora, a repetição de palavras.
Note que em "não foi pra lá, pra ribeira, foi namorar",
o verbo "ir" aparece ora numa frase negativa, ora numa frase
afirmativa, a qual é uma adversativa, com omissão do mas:
"não foi pra lá (...), mas foi namorar".
O nó da ação, ou seja, o seu ponto crítico,
que vai precipitar o acontecimento trágico, é favorecido
por esse desvio da rotina: João não vai brigar,(mas)
vai namorar. E José? Corte na ação, agora o foco
se concentra nele:
"O José como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
Lá perto da Boca do Rio
Foi no parque que ele avistou
Juliana
Foi que ele viu(...)'.
A reprodução do incidente se dá aos arrancos, por
descontinuidades sintáticas e repetições:"Foi
que ele avistou/ Juliana/ foi que ele viu Juliana na roda com João".
É como se a descoberta de José ocorresse por partes: ele
avista Juliana, mas ainda não vê tudo. O verbo
"ver" aqui ganha o sentido de abarcar o conjunto, a totalidade,
por oposição ao "avistar", que indica olhar
segmentado.
É preciso lembrar que não estamos diante de um poema, mas
de uma canção, em que letra e música se articulam
e que está sujeita a variações de improviso. Conforme
o arranjador ou o intérprete, algumas características podem
ser enfatizadas. Assim, quando ouvimos Gilberto Gil cantar, primeiro
temos "Ele viu", com o verbo "intransitivado";
depois temos "ele viu Juliana na roda com João",
em que o verbo volta a ficar transitivo. Essa descontinuidade, essa interrupção
da frase, expressa de alguma maneira a comoção de José
diante do quadro funesto: o amigo com a sua amada. O choque dessa revelação
se dá na linguagem também, que se torna impotente para dar
conta de toda a carga dramática da situação. Os objetos,
em si inocentes, que Juliana traz na mão, a rosa e o sorvete, vão
crescer e adquirir estatuto de símbolo. Já não serão
mais inocentes:
"O espinho da rosa feriu Zé
e o sorvete gelou seu coração".
Esses objetos, típicos de um alegre domingo no parque, ganham
contornos de pesadelo. São metonímias,ou seja, são
partes que valem pelo todo, são índices de algo maior. Lembra-se
daqueles sonhos em que um objeto aparentemente simples parece indicar
"algo mais" dada sua presença muito marcada e a insistência
com que ele fica em nossa memória? Algo disso acontece aqui. Essa
atmosfera onírica é intensificada com a repetição,
a anáfora:
"O sorvete e a rosa - ê José,
a rosa e o sorvete - ê José".
Temos aqui uma subespécie de anáfora: o quiasmo,
a repetição cruzada (formando X) de palavras:
sorvete e rosa
rosa e sorvete.
Veja outra repetição:
"Oi, girando na mente - ô, José
Do José brincalhão - ô, José
Juliana girando - oi, girando
Oi, na roda gigante - oi, girando
Oi, na roda gigante - oi, girando
O amigo João - João".
Tudo gira literalmente, inclusive a cabeça de José, que
vai deixando de ser brincalhão. Há uma relação
de proporção aqui: quanto mais brinca João, quanto
mais gira a roda-gigante, mais José vai se tornando sério
e mesmo beligerante. A seriedade de um aumenta conforme a disposição
jovial e brincalhona do outro. A repetição do verbo girar
mais o uso do gerúndio produzem um efeito hipnotizante. A roda-gigante,
rodando, põe a girar também a cabeça e as idéias
de José.
A visão terrível desencadeia a luta, toda descrita por
metonímias: a roda girando, a faca, o sangue, o sorvete
de morango, vermelho, como a prenunciar o desastre que advirá.
O ritmo da capoeira, mistura de jogo e luta, é glosado nessa canção.
Visualize um capoeirista jogando: é esse movimento gingado, de
avanço e recuo, que descreve o episódio de luta de morte
entre João e José. A segunda-feira é de cinzas: amanhã
não tem feira nem brincadeira. Nem João nem José.
Gilberto
Gil
Gilberto Passos Gil Moreira nasce em Salvador, Bahia,
a 29 de junho de 1942. Passa a infância em Ituaçu, interior
baiano, onte tem contato com sanfoneiros e violeiros. Ouve também
ídolos do rádio, como Luís Gonzaga. Em 1950 vai estudar
em Salvador e, enquanto faz o ginásio, estuda também acordeom.
Em 1960 ingressa na Universidade Federal da Bahia para cursar administração
de empresas. Em 1963 lança seu primeiro disco, Gilberto Gil
- sua música, sua interpretação. Participa
de alguns festivais de MPB. Em 1968 lança o disco Gilberto
Gil, ligado à tropicália, movimento que teve Gil
e Caetano Veloso entre as figuras mais exponenciais. Em dezembro desse
mesmo ano é preso em São Paulo, vítima do Ato Institucional
nº5. Em Julho de 1969, exila-se em Londres, voltando ao Brasil somente
em 1972. Lança vários discos, entre eles, Tropicália
ou Panis et Circensis (1968), Um Banda Um (1981),
Quanta (1997). Em 1990, é homenageado com o Prêmio
Shell para a Música Brasileira, pelo conjunto de sua obra.
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