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Esse poema
que termina de maneira surpreendente é composto por versos pequenos,
sem que tenham entre si regularidade métrica, pois o número
de sílabas em cada um pode variar de um a seis. Este último
é o caso de joelhos
esfolados. De qualquer modo, trata-se de versos curtos, dispostos
numa enfiada só, sem o uso de mais de uma estrofe.
Se não estamos em erro, poderíamos afirmar que existe uma
relação íntima entre o uso do verso curto,
bem como o uso de uma única estrofe, e o conteúdo
do poema. Na verdade, a articulação entre forma e conteúdo
é fundamental, e, quando não ocorre, estamos diante de uma
obra mal realizada. Na peça
que estamos analisando forma e conteúdo parecem se verificar de
maneira recíproca.
O uso de versos curtos imita, sob certo aspecto, o trote miúdo
e sistemático do burrinho, que, ao que tudo indica, era chamado
de Ligeiro apenas por graça e ironia. Decerto ele podia
ser tudo, menos veloz, no seu comportamento cheio
de refugos, como diz o eu lírico. Animal ligeiro
mesmo é aquele que o filho e o pai nunca puderam experimentar ou
ter:
"Meu
pai e eu
nunca subimos
num alazão
que galopasse
ao vento".
Galopar
ao vento é quase correr ao ritmo deste, é quase alçar
vôo, sem o constrangimento do passo pequeno. O alazão potente
e desenvolto, que não empaca, solicitaria ritmo diverso daquele
que fazem supor os versinhos meio atravancados sintaticamente, estacados,
que são os que dominam, explorando bastante o uso de enjambements,
ou cavalgamentos.
O sentido se interrompe sistematicamente, à maneira do burrico
caprichoso, que, sem mais nem menos, pára no meio do caminho. Tome-se
como exemplo a seqüência:"Meu
pai e eu/ nunca subimos num alazão(...)", correspondente
a uma única oração :
Meu
pai e eu nunca subimos num alazão...
O sentido,
no poema de Donizete, vem aos soquinhos, distribuído de maneira
bastante parcimoniosa, como quadrava àquela vida humilde, em que
bens só são obtidos por ninharias. Do animal de trote
tão curto se diz que "dava dor/ nas costelas". A cavalgadura
a espaços tão exíguos de tempo leva a que o corpo
sofra impactos continuados e impede o seu repouso. A leitura dos cavalgamentos
sintáticos operados num campo diminuto nos obriga a uma experiência
análoga: temos de desprender o ar aos pouquinhos, e não
de uma vez, como numa longa frase. A dor, no caso, é no
pulmão. Como leitores, temos de ser pacientes e econômicos,
assim como o eram o pai e o filho se quisessem, com um meio de condução
tão sistemático, chegar a algum lugar. O termo sistemático
merece, aliás, um breve comentário.
Quem for de Minas Gerais, especialmente da região sul, estará
em condição de apreender melhor o sentido dessa palavra
no contexto do poema. Lembremos, a esse propósito, trecho de um
depoimento de Donizete Galvão para a revista XILO, em que se dizia
fascinado pelos "arcaísmos que encontro na minha região,
sul de Minas, ou pelas palavras que ouvi na infância. Pelas diferenças
de prosódia, pela riqueza vocabular".
O vocábulo sistemático tem, de fato, um sabor regionalista.
Ele não diz respeito apenas ao que é metódico, ordenado.
De um escritor, por exemplo, que rigorosamente divide seu dia em tarefas,
com determinados intervalos para o repouso e que postula metas a ser cumpridas
diríamos se tratar de um homem metódico; já
daquele tio que, ao chegar em casa, não cumprimenta ninguém
antes de ter lavado as mãos os mineiros diriam que é sistemático,
de alguém que aplica sistemas às coisas mais banais, a ponto
de beirar o idiossincrático, o maníaco. E, como acontece
com as manias, quem de fora poderá entender?
O Ligeiro é dessa família esquisita de sistemáticos.
Ele é "cheio de refugos", parecendo agir por desígnios
estranhos a nós. Nem sempre obedece a ordem alheia, e quem nele
montar pode correr o risco de levar uns tombos. Não há meios
que dobrem "um sistemático". O filho e o pai tiveram
de se adaptar às peculiaridades do burrico, que parece mais dotado
de vontade própria que seus donos, tão socados pela vida.
Essa é uma inversão daquilo que fundamenta o processo civilizatório,
a evolução humana: a dominação da natureza,
com sua cota não pequena de infelicidade. Mas a infelicidade, no
poema, é sobretudo de outra ordem: em vez de submeter a natureza
hostil, o homem é que foi submetido. No entanto a imagem do jumentinho
derrubando os seus humildes donos não deixa de ter algo da primeira
infelicidade, pois o animal intratável é o que lhes coube
na divisão dos bens sociais: ele é o refugo, o que foi desprezado
no processo de apropriação da natureza porque a vontade
humana não pôde apresá-lo. Assim como as terras estéreis
e ruins são rejeitadas por quem pode pagar por um sítio
mais produtivo. O bicho de quase nenhuma serventia, como as terras infecundas,
só poderia pertencer mesmo a homens que não tiveram como
impor o seu desejo - no caso, o de um cavalo ágil como o vento.
A natureza para sempre rebelde, tal como o animal que ficou indomado,
parece comunicar uma energia próxima à daqueles indivíduos
orgulhosos e conscientes de seu valor, que jamais dobram a espinha. Ela
compete com o homem que quer dominar, e só aqueles homens que foram
dominados e subjugados socialmente é que se curvam a ela. Quando
um não quer, dois não brigam...
Evidentemente há ternura pelo burrinho da parte do eu lírico,
ternura que por certo vem aumentada na rememoração da infância,
em que as coisas mais difíceis adquirem uma coloração
idealizada. O nome Ligeiro com que se batizou a besta que anda
aos trancos e barrancos revela certo humor da parte de seus donos, dispostos
a brincar com a própria miséria e mesmo de se afeiçoar
a ela. Não deixamos de ter carinho pelos objetos toscos, os únicos
que pudemos adquirir. Eles são parte de nós mesmos, de nossa
história. Mas, por outro lado, é na imagem do áspero
animal que está condensado o segredo dessas vidas, melhor dizendo,
o seu destino irretorquível:
De certa
vez,
caímos do burro.
Meu pai e eu.
Eu e meu pai.
Embolados.
Joelhos esfolados
no pedregulho.
Levamos
bons coices.
Meu pai e eu.
Os dois
nunca subimos
na vida.
A queda
do pai e do filho, transcrita por meio de um expressivo quiasmo,
tem dimensão revelatória e simbólica. É a
imagem de um momento fundamental, em que se decide o destino de ambos.
Uma vez caídos no chão, ficarão no chão para
sempre. Cair do burro passa a significar agora não subir socialmente,
e aqui voltamos ao que dizíamos linhas atrás. A humilhação
de se submeter a um animal adquirido por ninharia é reposta e produz
mais humilhação: quem nunca subiu não subirá.Como
diz a letra de uma música bastante tocada nas rádios: "O
de cima sobe /o de baixo desce".
O poeta deu destaque ao sujeito da queda, fazendo-o constituir
dois períodos sintáticos autônomos e operando o revezamento
dos seus termos: "De certa vez caímos do burro. Meu
pai e eu. Eu e meu pai". Isolados por ponto
final, em vez de se articular com "caímos" numa oração
só, essas palavras ganham em visibilidade e ficam como que girando
no ar. A repetição dos termos, embora invertidos, tem algo
de uma lembrança insistente, que se repete para ganhar forma. E,
com efeito, ela se adensa cada vez mais, chegando a romper a distância
entre o passado e o presente de quem rememora. Pois a surpreendente silepse
do fim parece não só fundir verbo e sujeito de pessoas diferentes
como temporalidades distintas. Enquanto diz "os dois", parece
haver distanciamento entre o eu que recorda, já adulto,
e o menino recordado. Contudo, a partir do momento em que diz "subimos",
não parece ser mais possível o discernimento entre essas
instâncias. Se tivesse optado por "Os dois nunca subiram",
se tivesse optado, portanto, pela concordância gramatical e apenas
pela terceira pessoa (a pessoa do ele, a pessoa que não está
em cena), então poderíamos ficar certos de que o passado
estava longe e de que o homem que fala agora não é mais
o menino de outrora. Mas não é isso que ocorre.
A inserção da voz atual na referência ao acontecimento
pretérito, que enraizou, não obstante, o presente,
indica que a humilhação não é coisa superada.
O passado não foi enterrado, sendo antes matéria de ruminação.
Não é à toa que o livro de Donizete Galvão
se chama Ruminações. Assim como nos bois os alimentos
voltam do estômago à boca e são remastigados sem cessar,
assim aquilo que deveria ter sido de uma vez engolido volta à boca
do poema com um gosto de antigo e novo. Mas não se engole de uma
vez porque também não foram dadas condições
para isso: o filho não subiu na vida, não deu um passo à
frente do pai. Ambos foram submetidos não só pelo burro
como pelo mundo triste e injusto. Falar do pai é, de certo modo,
falar de si mesmo também. Filho e pai estão igualados numa
história que sempre parece se repetir:
quem
é pobre fica pobre.
Fica pobre quem é pobre.
Triste
quiasmo.
Donizete
Galvão
Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata, sul
de Minas, em 24 de agosto de 1955. Atualmente mora em São Paulo.
Publicou os seguintes livros: Azul navalha (1988), que lhe valeu
o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos
de Arte) de autor revelação e indicação para
o prêmio Jabuti; As faces do rio (1991), Do silêncio
da pedra (1996), A carne e o tempo (1997), com o qual mereceu
mais uma vez indicação para o prêmio Jabuti. Ruminações
é o último livro que publicou até agora.
Donizete Galvão é presença constante em revistas
e eventos literários. Participou do documentário Versos
Diversos, realizado pela Fundação Padre Anchieta/TV
Cultura, sob a direção de Ivan Marques.
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