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Escoiceados

Meu pai e eu
nunca subimos
num alazão
que galopasse
ao vento.
Tínhamos
um burro
cinza-malhado:
o Ligeiro.
Foi apanhado
de um conhecido
por ninharia.
Chegou com fama
de sistemático,
cheio de refugos.
De trote tão curto
que dava dor
nas costelas.
De certa vez,
caímos do burro.
Meu pai e eu.
Eu e meu pai.
Embolados.
Joelhos esfolados
no pedregulho.
Levamos
bons coices.
Meu pai e eu.
Os dois
nunca subimos
na vida.

Donizete Galvão
Ruminações

(1999)
Sobre o autor

 

 

 

 

 

 

 

Esse poema que termina de maneira surpreendente é composto por versos pequenos, sem que tenham entre si regularidade métrica, pois o número de sílabas em cada um pode variar de um a seis. Este último é o caso de joelhos esfolados. De qualquer modo, trata-se de versos curtos, dispostos numa enfiada só, sem o uso de mais de uma estrofe.

Se não estamos em erro, poderíamos afirmar que existe uma relação íntima entre o uso do verso curto, bem como o uso de uma única estrofe, e o conteúdo do poema. Na verdade, a articulação entre forma e conteúdo é fundamental, e, quando não ocorre, estamos diante de uma obra mal realizada. Na peça que estamos analisando forma e conteúdo parecem se verificar de maneira recíproca.

O uso de versos curtos imita, sob certo aspecto, o trote miúdo e sistemático do burrinho, que, ao que tudo indica, era chamado de Ligeiro apenas por graça e ironia. Decerto ele podia ser tudo, menos veloz, no seu comportamento cheio de refugos, como diz o eu lírico. Animal ligeiro mesmo é aquele que o filho e o pai nunca puderam experimentar ou ter:

"Meu pai e eu
nunca subimos
num alazão
que galopasse
ao vento".

Galopar ao vento é quase correr ao ritmo deste, é quase alçar vôo, sem o constrangimento do passo pequeno. O alazão potente e desenvolto, que não empaca, solicitaria ritmo diverso daquele que fazem supor os versinhos meio atravancados sintaticamente, estacados, que são os que dominam, explorando bastante o uso de enjambements, ou cavalgamentos. O sentido se interrompe sistematicamente, à maneira do burrico caprichoso, que, sem mais nem menos, pára no meio do caminho. Tome-se como exemplo a seqüência:"Meu pai e eu/ nunca subimos num alazão(...)", correspondente a uma única oração :

Meu pai e eu nunca subimos num alazão...

O sentido, no poema de Donizete, vem aos soquinhos, distribuído de maneira bastante parcimoniosa, como quadrava àquela vida humilde, em que bens só são obtidos por ninharias. Do animal de trote tão curto se diz que "dava dor/ nas costelas". A cavalgadura a espaços tão exíguos de tempo leva a que o corpo sofra impactos continuados e impede o seu repouso. A leitura dos cavalgamentos sintáticos operados num campo diminuto nos obriga a uma experiência análoga: temos de desprender o ar aos pouquinhos, e não de uma vez, como numa longa frase. A dor, no caso, é no pulmão. Como leitores, temos de ser pacientes e econômicos, assim como o eram o pai e o filho se quisessem, com um meio de condução tão sistemático, chegar a algum lugar. O termo sistemático merece, aliás, um breve comentário.

Quem for de Minas Gerais, especialmente da região sul, estará em condição de apreender melhor o sentido dessa palavra no contexto do poema. Lembremos, a esse propósito, trecho de um depoimento de Donizete Galvão para a revista XILO, em que se dizia fascinado pelos "arcaísmos que encontro na minha região, sul de Minas, ou pelas palavras que ouvi na infância. Pelas diferenças de prosódia, pela riqueza vocabular".
O vocábulo sistemático tem, de fato, um sabor regionalista. Ele não diz respeito apenas ao que é metódico, ordenado. De um escritor, por exemplo, que rigorosamente divide seu dia em tarefas, com determinados intervalos para o repouso e que postula metas a ser cumpridas diríamos se tratar de um homem metódico; já daquele tio que, ao chegar em casa, não cumprimenta ninguém antes de ter lavado as mãos os mineiros diriam que é sistemático, de alguém que aplica sistemas às coisas mais banais, a ponto de beirar o idiossincrático, o maníaco. E, como acontece com as manias, quem de fora poderá entender?

O Ligeiro é dessa família esquisita de sistemáticos. Ele é "cheio de refugos", parecendo agir por desígnios estranhos a nós. Nem sempre obedece a ordem alheia, e quem nele montar pode correr o risco de levar uns tombos. Não há meios que dobrem "um sistemático". O filho e o pai tiveram de se adaptar às peculiaridades do burrico, que parece mais dotado de vontade própria que seus donos, tão socados pela vida. Essa é uma inversão daquilo que fundamenta o processo civilizatório, a evolução humana: a dominação da natureza, com sua cota não pequena de infelicidade. Mas a infelicidade, no poema, é sobretudo de outra ordem: em vez de submeter a natureza hostil, o homem é que foi submetido. No entanto a imagem do jumentinho derrubando os seus humildes donos não deixa de ter algo da primeira infelicidade, pois o animal intratável é o que lhes coube na divisão dos bens sociais: ele é o refugo, o que foi desprezado no processo de apropriação da natureza porque a vontade humana não pôde apresá-lo. Assim como as terras estéreis e ruins são rejeitadas por quem pode pagar por um sítio mais produtivo. O bicho de quase nenhuma serventia, como as terras infecundas, só poderia pertencer mesmo a homens que não tiveram como impor o seu desejo - no caso, o de um cavalo ágil como o vento.

A natureza para sempre rebelde, tal como o animal que ficou indomado, parece comunicar uma energia próxima à daqueles indivíduos orgulhosos e conscientes de seu valor, que jamais dobram a espinha. Ela compete com o homem que quer dominar, e só aqueles homens que foram dominados e subjugados socialmente é que se curvam a ela. Quando um não quer, dois não brigam...

Evidentemente há ternura pelo burrinho da parte do eu lírico, ternura que por certo vem aumentada na rememoração da infância, em que as coisas mais difíceis adquirem uma coloração idealizada. O nome Ligeiro com que se batizou a besta que anda aos trancos e barrancos revela certo humor da parte de seus donos, dispostos a brincar com a própria miséria e mesmo de se afeiçoar a ela. Não deixamos de ter carinho pelos objetos toscos, os únicos que pudemos adquirir. Eles são parte de nós mesmos, de nossa história. Mas, por outro lado, é na imagem do áspero animal que está condensado o segredo dessas vidas, melhor dizendo, o seu destino irretorquível:

De certa vez,
caímos do burro.
Meu pai e eu.
Eu e meu pai.
Embolados.
Joelhos esfolados
no pedregulho.
Levamos
bons coices.
Meu pai e eu.
Os dois
nunca subimos
na vida.

A queda do pai e do filho, transcrita por meio de um expressivo quiasmo, tem dimensão revelatória e simbólica. É a imagem de um momento fundamental, em que se decide o destino de ambos. Uma vez caídos no chão, ficarão no chão para sempre. Cair do burro passa a significar agora não subir socialmente, e aqui voltamos ao que dizíamos linhas atrás. A humilhação de se submeter a um animal adquirido por ninharia é reposta e produz mais humilhação: quem nunca subiu não subirá.Como diz a letra de uma música bastante tocada nas rádios: "O de cima sobe /o de baixo desce".

O poeta deu destaque ao sujeito da queda, fazendo-o constituir dois períodos sintáticos autônomos e operando o revezamento dos seus termos: "De certa vez caímos do burro. Meu pai e eu. Eu e meu pai". Isolados por ponto final, em vez de se articular com "caímos" numa oração só, essas palavras ganham em visibilidade e ficam como que girando no ar. A repetição dos termos, embora invertidos, tem algo de uma lembrança insistente, que se repete para ganhar forma. E, com efeito, ela se adensa cada vez mais, chegando a romper a distância entre o passado e o presente de quem rememora. Pois a surpreendente silepse do fim parece não só fundir verbo e sujeito de pessoas diferentes como temporalidades distintas. Enquanto diz "os dois", parece haver distanciamento entre o eu que recorda, já adulto, e o menino recordado. Contudo, a partir do momento em que diz "subimos", não parece ser mais possível o discernimento entre essas instâncias. Se tivesse optado por "Os dois nunca subiram", se tivesse optado, portanto, pela concordância gramatical e apenas pela terceira pessoa (a pessoa do ele, a pessoa que não está em cena), então poderíamos ficar certos de que o passado estava longe e de que o homem que fala agora não é mais o menino de outrora. Mas não é isso que ocorre.

A inserção da voz atual na referência ao acontecimento pretérito, que enraizou, não obstante, o presente, indica que a humilhação não é coisa superada. O passado não foi enterrado, sendo antes matéria de ruminação. Não é à toa que o livro de Donizete Galvão se chama Ruminações. Assim como nos bois os alimentos voltam do estômago à boca e são remastigados sem cessar, assim aquilo que deveria ter sido de uma vez engolido volta à boca do poema com um gosto de antigo e novo. Mas não se engole de uma vez porque também não foram dadas condições para isso: o filho não subiu na vida, não deu um passo à frente do pai. Ambos foram submetidos não só pelo burro como pelo mundo triste e injusto. Falar do pai é, de certo modo, falar de si mesmo também. Filho e pai estão igualados numa história que sempre parece se repetir:

quem é pobre fica pobre.
Fica pobre quem é pobre
.

Triste quiasmo.

Donizete Galvão
Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata, sul de Minas, em 24 de agosto de 1955. Atualmente mora em São Paulo. Publicou os seguintes livros: Azul navalha (1988), que lhe valeu o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de autor revelação e indicação para o prêmio Jabuti; As faces do rio (1991), Do silêncio da pedra (1996), A carne e o tempo (1997), com o qual mereceu mais uma vez indicação para o prêmio Jabuti. Ruminações é o último livro que publicou até agora.

Donizete Galvão é presença constante em revistas e eventos literários. Participou do documentário Versos Diversos, realizado pela Fundação Padre Anchieta/TV Cultura, sob a direção de Ivan Marques.