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Esse é
um dos cem sonetos
que formam
a primeira parte das Obras, publicadas em 1768, na cidade de Coimbra.
Para muitos críticos, a produção mais significativa
de Cláudio Manuel está de fato nessas composições,
que se dividem em pelo menos três
séries.
A primeira descreve as angústias amorosas e a morte do pastor
Fido; os poemas da segunda série tratam do dilema rústico-civilizado;
e, ligado às duas séries anteriores, aparece a terceira
com o tema da "tristeza da mudança das coisas em relação
aos estados de sentimento", conforme as palavras de Antonio
Candido.
A composição acima, uma das mais perfeitas do livro, pertence
sem dúvida à primeira categoria.
No estudo da poesia arcádica,
mesmo a realizada no Brasil, é imprescindível o conhecimento
de temas e formas legados pela Antiguidade. Cláudio Manuel da Costa,
conquanto tivesse nascido num país descoberto havia pouco mais
de 200 anos, estudara em Coimbra, onde se familiarizou com o gosto e a
norma literária européia então em voga e, portanto,
com os argumentos e assuntos transmitidos pela tradição
antiga. Em seus sonetos, são recorrentes os temas do desterro,
do carpe
diem,
do locus
amoenus, entre outros que circulavam na poesia neoclássica
portuguesa. Contudo, como esperamos mostrar, as regras, motivos e procedimentos
fornecidos pela tradição européia sofrerão
uma inflexão na poesia de Cláudio Manuel da Costa, que exprimiu
em sua obra o conflito típico do artista brasileiro, freqüentemente
dividido entre o modelo europeu e as solicitações da realidade
colonial.
Como aliar a experiência nacional a uma forma importada dos países
centrais, onde se verifica um outro tipo de experiência histórica,
constitui uma questão com a qual nossos intelectuais desde pelo
menos o século 18 têm de se haver.
No poema em questão, dispõem-se elementos para um quadro
que poderia ser bucólico: álamo, arvoredo,
Zéfiro, pastor, natureza. No entanto eles
não configuram de fato o "lugar ameno" (locus
amoenus), a tranqüilidade idílica, como vemos na poesia
pastoril do poeta latino Virgílio (70-19 a.C.) e na poesia pastoril
praticada no século 18 europeu. Por sobre tais elementos cai a
sombra da melancolia do pastor Fido. Afinal, o álamo é
sombrio, o arvoredo é fúnebre, e não
se ouve nenhum gemido de um suave zéfiro na escura noite. O
ar está parado, como que petrificado, talvez porque nele esteja
sendo gestada a imagem do segredo, conforme a expressão do poeta.
Mas que segredo é esse? Para tentar responder a essa pergunta,
é necessário insistir na imagem do pastor
melancólico. Em vez de tomar parte na confraternização
com a natureza, na sociabilidade amena entre os pastores, ele aparece
recuado e solitário:
Sentado sobre o tosco de um penedo
Chorava Fido a sua desventura.
O crítico literário Sérgio Alcides considera a posição
de estar "sentado sobre o tosco de um penedo" o avesso do estilo
"sub tegmini fagi", isto é, do estilo que caracteriza
a posição de quem está "à sombra de uma
faia", recostado a uma aprazível árvore. Essa imagem
se tornou modelar desde a abertura da Bucólica
I, de Virgílio. Trata-se do paradigma da vida
amena e natural, que comunga com a natureza e se opõe ao artificialismo
da vida urbana. No entanto o pastor de Cláudio não está
suavemente apoiado num tronco de faia; está sentado "sobre
o tosco de um penedo", isto é, sobre a superfície não
lavrada, não polida de algo já por si bastante duro, bastante
rústico. Além disso, ele não está em recreio,
mas antes lamenta as suas desventuras e chora copiosamente.
Já é possível constatar algumas dissonâncias
nesse soneto em relação ao que seria a convenção
da poesia arcádica européia: as imagens da escuridão
e a melancolia. Esta tira o pastor do convívio harmonioso com os
homens e aquelas impedem a pintura de um quadro realmente bucólico,
pois este exigiria tons mais claros e suaves. Dois ideais prezados pelo
Arcadismo são, portanto, contrariados nesse poeta que era dos mais
disciplinados e versados nos preceitos metropolitanos:
o campo como lugar de harmonia e felicidade e a visão simplificada
dos homens e das relações sociais. Ora, num soneto, (...)
Em que apenas distingue o próprio medo / Do feio assombro a
hórrida figura(...), é justo dizer que a natureza não
é espaço de serenidade, mas de imagens horripilantes. Do
mesmo modo, a presença poderosa da melancolia indica precisamente
o contrário de uma simplificação das relações
humanas. Para a alma melancólica o burburinho humano pode trazer
um terrível desconforto. Na verdade, as imagens sombrias do poema
são projeções de um eu que não vê
nem mesmo na natureza conforto para seus flagelos. Não estamos,
portanto, diante da harmonia com a natureza e os homens tal como é
estilizada em Virgílio e mesmo em tantos poetas europeus contemporâneos
de Cláudio. Estamos diante de um paradoxal pastor reflexivo, pois
a melancolia costuma se associar à reflexão pelo ensimesmamento
continuado.
Por que é paradoxal a figura de um "pastor reflexivo"?
Ora, porque a convenção pastoril servia ao ideal de naturalidade,
que pressupunha uma sociabilidade mais agradável entre os homens,
e a melancolia introduz uma nota dissonante, que impede a formação
dessa feliz comunidade. Os pastores de Cláudio não são
muito sociáveis e afeitos ao trato com as pessoas, pois muitas
vezes se afastam das brincadeiras e das festas campestres e se isolam
num canto, sentando-se sobre um penedo, sobre uma pedra, e desfiando os
seus infortúnios. Isso indica que as relações humanas
foram perturbadas.
Nessa poesia vemos um topos
característico da literatura culta européia: a metamorfose.
A transformação de homens em plantas, minerais e animais,
e vice-versa, era um lugar-comum
transmitido pela literatura
greco-romana. Mas em Cláudio, assim como
a figura do pastor foge um tanto às normas estabelecidas no Arcadismo,
assim também a metamorfose parece adquirir uma feição
singular. Vejamos as últimas estrofes do poema analisado:
Às lágrimas a penha enternecida
Um rio fecundou, donde manava
D'ânsia mortal a cópia derretida;
A natureza em ambos se mudava;
Abalava-se a penha comovida;
Fido, estátua da dor, se congelava.
A pedra, comumente ligada à idéia de fixidez, de alicerce,
daquilo que não se altera, é aqui, no entanto, abalada.
Enquanto Fido chora a sua desventura e tende para a petrificação,
tal é a dor que nele se desata, a rocha, comovida, tende a ganhar
a mobilidade própria dos homens. Fido se congela, e o mineral se
derrete. Daí o poeta dizer: "A natureza em ambos se mudava".
O pastor se mineraliza, e a pedra se humaniza, numa manifestação
do abalo que tomou conta dos elementos da paisagem. Ocorre, portanto,
metamorfose em mão dupla.
Ora, um pastor transmudado em mineral indica que o ideal arcádico
de uma idade de ouro, na qual se restabeleceria a convivência
pacífica entre os homens, foi deixado de lado. Pois aqui se regride
a um estágio anterior ao humano, a um estágio anterior à
sociabilidade.
No "Prólogo ao leitor" que antecede os sonetos de Cláudio,
lemos:
Não permitiu o Céu, que alguns influxos, que devi às
águas do Mondego, se prosperassem por muito tempo: e destinado
a buscar a pátria, que por espaço de cinco anos havia deixado,
aqui entre a grossaria dos seus gênios, que menos pudera eu fazer,
que entregar-me ao ócio, e sepultar-me na ignorância! Que
menos, do que abandonar as fingidas ninfas destes rios, e no centro deles
adorar a preciosidade daqueles metais, que têm atraído a
este clima os corações de toda a Europa! Não são
estas as venturosas praias da Arcádia, onde o som das águas
inspirava a harmonia dos versos. Turva e feia a corrente destes ribeiros,
primeiro que arrebate as idéias de um poeta, deixa ponderar a ambiciosa
fadiga de minerar a terra que lhes tem pervertido as cores.
Aqui está formulado claramente o drama do poeta, que teve de retornar
à pátria e reafinar a lira conforme a "grossaria dos
seus gênios". Os rios daqui, turvos e feios, não são
as "venturosas praias de Portugal". A atividade da mineração,
então sustentáculo da economia em Minas Gerais, implicava
por certo um arruinamento da paisagem. O Brasil, na condição
de colônia de Portugal, adquiria para a sensibilidade aguçadíssima
de Cláudio Manuel da Costa o ar de uma terra devastada, para a
qual se encaminhavam levas
de europeus, especialmente portugueses, com a ambição
de enriquecer o mais rápido possível. Isso mais o fato de
que a capitania de Minas Gerais tinha de repassar para a Metrópole
a maior parte de sua riqueza na forma de impostos indicavam ser a região
mero lugar de passagem, enfeado como costumam ser aqueles sítios
voltados apenas para o lucro e nos quais a beleza é vista como
inútil. Minas Gerais era um pouco a Serra Pelada daquele período.
Se a convenção pastoril e o cenário campestre previstos
na literatura culta da época pareciam, num primeiro momento, apropriados
para um lugar em que, ao contrário da Inglaterra, não houvera
revolução industrial, saíam ao mesmo tempo modificados
na obra de Cláudio. Embora em certo sentido estivéssemos
muito mais próximos da natureza do que os europeus, que já
a idealizavam e colocavam como instância a que a sensibilidade refinada
deveria aspirar, nossa natureza era, por assim dizer, revirada e saqueada
de uma maneira talvez mais visível, menos acobertada, do que a
natureza nos países em que houvera industrialização
maciça.
A paisagem em Cláudio é muito mais tosca do que amena, e
às vezes pode ganhar cores mortiças, como no soneto que
estamos analisando. Um soneto absolutamente sombrio, no qual o tempo parece
ter se congelado também, tal como o pastor Fido.
Por fim, qual será "a imagem do segredo"? O poema não
configuraria, todo ele, essa imagem, arrematada por uma espantosa metamorfose?
Não é possível, neste espaço, responder a
essa questão de maneira satisfatória, pois haveria muito
mais a dizer dessa magnífica composição, em que a
dicção clássica por vezes é crispada por procedimentos
barrocos, como o hipérbato.
De todo modo, procuramos levantar ao menos alguns aspectos que nos ajudem
a refletir sobre o que constitui o segredo dessa grande poesia.
Cláudio
Manuel da Costa
Um dos maiores poetas do Arcadismo brasileiro, Cláudio
Manuel da Costa nasceu a 5 de junho de 1729, em Vargem de Itacolomi, Minas
Gerais, e morreu a 4 de julho de 1789, em Ouro Preto. Seus pais eram portugueses
ligados à mineração. Estudou com os jesuítas
no Rio de Janeiro e mais tarde se formou em Direito na Universidade de
Coimbra, em Portugal. Voltou para Vila Rica (atual Ouro Preto) em 1753,
onde trabalharia como advogado e minerador (herdara bens fundiários)
e também assumiria cargos administrativos no Governo da capitania.
Sua participação na Inconfidência mineira parece ter
sido lateral, o que ainda assim lhe valeu um interrogatório, no
qual parece ter sofrido psicologicamente e teria comprometido amigos.
Suicidou-se logo após num cárcere da Casa dos Contos, onde
fora encerrado, com 60 anos de idade.
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